Economia

Moeda Brics contra dólar: Lula reforça necessidade de sistema autônomo em meio a tensões internacionais

Lula Presidente do Brasil
Lula Presidente do Brasil - Foto: ricardostuckert Lula Presidente do Brasil - Foto: ricardostuckert

Em Brasília, nesta terça-feira, 12 de agosto de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, durante entrevista ao jornalista Reinaldo Azevedo na Band News, sua convicção inabalável na criação de uma moeda própria para os países do Brics, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Essa declaração surge em meio a tensões comerciais com os Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, possivelmente ligadas ao crescente protagonismo do grupo emergente. Lula argumentou que o bloco representa metade da população mundial e cerca de 30% do Produto Interno Bruto global, justificando a necessidade de um instrumento financeiro autônomo para fomentar trocas comerciais sem a intermediação exclusiva da moeda americana. A proposta visa reduzir a dependência de uma divisa controlada por um único país, promovendo negociações em moedas locais ou uma unidade compartilhada, o que poderia equilibrar relações internacionais e mitigar volatilidades cambiais. O presidente destacou que testar a ideia é essencial, mesmo correndo o risco de falha, e questionou quem poderia convencê-lo do contrário, enfatizando o multilateralismo como base para diálogos equitativos entre nações do Sul Global.

A declaração de Lula ecoa discussões iniciadas na cúpula do Brics no Rio de Janeiro, em julho de 2025, onde líderes debateram mecanismos alternativos ao sistema Swift de pagamentos, dominado por instituições ocidentais.

  • O Brics já registra 50% de suas transações internas em moedas nacionais, como o yuan chinês e o rublo russo, segundo dados recentes de fluxos comerciais bilaterais.
  • Essa tendência ganhou impulso após sanções impostas à Rússia em 2022, acelerando a busca por autonomia financeira no grupo.
  • Lula mencionou exemplos pioneiros, como o acordo Brasil-Argentina de 2004, que permitiu comércios em reais e pesos, sem conversão para dólar.

Especialistas observam que a valorização recente do real, com o dólar cotado a R$ 5,3870 – o menor patamar desde junho de 2024 –, fortalece o argumento brasileiro, ao reduzir custos de importação e elevar a atratividade de exportações.

Composição ampliada do Brics impulsiona discussões financeiras

A expansão do Brics para 11 membros, anunciada em 2024 e consolidada em 2025, alterou dinamicamente o equilíbrio de poder econômico global, com o bloco agora abrangendo nações ricas em recursos naturais e mercados consumidores vastos. Essa configuração, que inclui produtores de petróleo como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, facilita negociações sobre uma moeda unificada, pois diversifica riscos associados a flutuações de commodities. Lula destacou que o grupo não busca confrontar diretamente o dólar, mas criar opções para transações internas, evitando assim as assimetrias impostas por sanções unilaterais.

Países como China e Índia, que juntos respondem por mais de 70% do comércio intra-Brics, já implementam plataformas digitais para liquidações em moedas locais, reduzindo custos em até 20% por operação.

O presidente brasileiro enfatizou que o multilateralismo histórico permitiu avanços como o Acordo de Paris, criticando saídas unilaterais de acordos ambientais pelos Estados Unidos. Essa visão se alinha a convites recentes de Lula para Trump participarem da COP, embora sem resposta até o momento.

Em reuniões preparatórias para a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, o Brasil planeja elevar o tema, integrando-o a pautas de soberania e desenvolvimento sustentável.

Tensões comerciais com EUA reacendem urgência da proposta

As tarifas impostas por Trump em abril de 2025, inicialmente em 10% para mais de 160 nações e elevadas a 50% para o Brasil em julho, coincidem com o pico de debates no Brics sobre desdolarização. Lula sugeriu que o líder americano pode sentir ciúmes do sucesso brasileiro no bloco, que unifica interesses semelhantes entre emergentes. Essa retórica reflete uma escalada diplomática, onde o presidente brasileiro repudiou interferências na soberania nacional, defendendo negociações equilibradas.

Analistas apontam que as medidas americanas visam conter o avanço de alternativas financeiras, como o Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, presidido por Dilma Rousseff e que aprovou US$ 32 bilhões em projetos desde 2014.

  • Tarifas de 50% afetam setores como aço e agricultura brasileira, elevando custos em 15% para exportadores.
  • O Brics representa 33,9% do PIB mundial projetado para 2027, superando o G7 em influência econômica.
  • Países como Rússia e Irã, sob sanções, impulsionam o uso de moedas locais em 60% de suas trocas com o grupo.

Lula questionou se as taxações derivam diretamente do engajamento brasileiro no Brics, mas reiterou que depender de uma moeda única expõe economias vulneráveis a políticas externas imprevisíveis. Essa posição ganhou eco em fóruns como o G20, onde o Brasil assumiu a presidência rotativa em 2024, promovendo agendas de inclusão financeira.

O diálogo bilateral com Washington permanece aberto, mas condicionado ao respeito mútuo, conforme Lula planeja defender na abertura da ONU em 23 de setembro.

moeda do BRICS
moeda do BRICS – Foto: joxxxxjo/istock

Mecanismos alternativos ao dólar em fase de teste

Iniciativas concretas dentro do Brics, como o Brics Bridge – uma plataforma para pagamentos digitais –, avançam desde a cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024, com testes em moedas nacionais entre China e Índia. Lula defendeu que esses sistemas evitam o monopólio do dólar, que domina 88% das transações globais apesar de representar apenas 4% da população mundial. O presidente brasileiro recordou que ninguém impôs formalmente o dólar como padrão, questionando sua perpetuidade em um mundo multipolar.

Bancos centrais do bloco coordenam estudos para uma unidade de conta compartilhada, inspirada nos Direitos Especiais de Saque do FMI, mas adaptada a realidades emergentes.

Essa abordagem pragmática contrasta com visões mais radicais, como a proposta russa de um sistema de pagamentos independente, que o Brasil modera para evitar confrontos desnecessários. Em fevereiro de 2025, o Itamaraty confirmou foco em moedas locais, descartando uma moeda comum imediata devido à complexidade de economias díspares.

  • Plataformas como o yuan digital já processam 40% das trocas sino-russas, economizando bilhões em conversões cambiais.
  • O Novo Banco de Desenvolvimento financiou 150 projetos em infraestrutura, priorizando sustentabilidade sem condicionalidades ocidentais.
  • Acordos bilaterais, como Brasil-China de 2023, elevaram o comércio em 25%, majoritariamente em moedas nacionais.

Lula enfatizou que o Brics surge como resposta a uma geopolítica dominada por poucas potências, promovendo similaridades em interesses de desenvolvimento.

Reações internacionais moldam o futuro do bloco

Líderes como Xi Jinping, da China, e Narendra Modi, da Índia, expressaram apoio cauteloso à moeda Brics durante a cúpula do Rio, pedindo análises técnicas para viabilidade. Putin, da Rússia, atribuiu a Lula a origem da ideia em 2023, reforçando sua prioridade na presidência brasileira de 2025. Essas vozes contrastam com alertas de Trump, que em janeiro e fevereiro de 2025 ameaçou tarifas de 100% contra nações que adotem alternativas ao dólar, rotulando o bloco como “hostil”.

O Fórum Econômico Mundial, em Davos, debateu em julho de 2025 os riscos de fragmentação financeira, com o Brics citado como catalisador de multipolaridade. Economistas preveem que, se implementada, a moeda reduziria volatilidade em 10-15% para exportações de commodities.

  • China, com reservas de US$ 3,2 trilhões, lidera testes de pagamentos cross-border sem dólar.
  • Índia integra o sistema UPI para transações com África do Sul, facilitando remessas em rúpias.
  • Emirados Árabes testam dirham em trocas com Etiópia, focando em energia renovável.

Lula criticou o não cumprimento do Protocolo de Kyoto pelos EUA, ligando multilateralismo ambiental ao econômico, e enviou convite para a COP sem retorno. Essa integração de pautas fortalece a coesão do bloco, que planeja expandir parcerias com nações africanas e asiáticas.

Avanços bilaterais pavimentam caminho para unidade monetária

Acordos como o de 2004 com Argentina, que permitiu trocas em moedas locais e dobrou o comércio bilateral em uma década, servem de modelo para o Brics. Lula recordou essa experiência em entrevistas recentes, argumentando que transações com Europa usam euros sem questionamentos, questionando por que o dólar seria imutável. Em 2025, o Brasil elevou o uso de real em exportações para China em 30%, alinhando-se à agenda de desdolarização gradual.

O Banco Central brasileiro coordena com pares do bloco para mitigar riscos cambiais, utilizando swaps de moeda que somam US$ 200 bilhões em linhas de crédito mútuas.

Essa estratégia pragmática evita rupturas abruptas, focando em eficiência para pequenas e médias empresas exportadoras.

  • Swaps Brasil-China evitam US$ 50 bilhões em custos anuais com hedging cambial.
  • Rússia adicionou 450 toneladas de ouro às reservas no primeiro semestre de 2025, sinalizando diversificação de ativos.
  • África do Sul propõe integração com o rand em projetos de mineração sustentável.

Lula defendeu que o Brics unifica vozes do Sul Global, dialogando sobre questões como fome e desigualdade, ausentes em fóruns tradicionais. Na presidência brasileira, o grupo prioriza inclusão digital, com plataformas que beneficiam 4 bilhões de habitantes.

Preparativos para cúpula de setembro definem próximos passos

A abertura da Assembleia Geral da ONU por Lula em 23 de setembro de 2025 servirá de palco para reiterar o compromisso com multilateralismo, possivelmente incluindo encontros com Trump. O presidente brasileiro planeja abordar soberania ambiental, criticando a saída dos EUA do Acordo de Paris, e ligar isso à autonomia financeira. Preparativos incluem reuniões virtuais com chanceleres do Brics, focando em um cronograma para protótipos de pagamento.

Essa agenda reflete o sucesso do bloco, que em 2024 aprovou adesões ampliando seu alcance a 45% da população global. Lula vê o grupo como ferramenta para negociações equilibradas, onde nações menores não sucumbem a potências maiores.

  • Reuniões técnicas em Moscou testam blockchain para transações seguras em múltiplas moedas.
  • Brasil media disputas internas, como rivalidades sino-indianas, para consenso unificado.
  • Projeções indicam que o Brics Pay poderia processar US$ 1 trilhão em trocas anuais até 2027.

O presidente enfatizou que fracassos potenciais não invalidam a tentativa, posicionando o Brasil como líder em um mundo em transição econômica.

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