Rio Claro, no interior de São Paulo, registra aumento de 26,3% nos homicídios dolosos em 2025, totalizando 24 casos até setembro, com oito execuções ligadas a disputas entre facções criminosas. A cidade de cerca de 200 mil habitantes enfrenta conflito entre o Primeiro Comando da Capital (PCC), dominante no estado, e o Comando Vermelho (CV), que busca expandir influência na região. Autoridades policiais atribuem a escalada à ausência de controle exclusivo no tráfico de drogas, agravada pela localização estratégica do município.
Essa situação resulta em uma taxa de 11,92 homicídios por 100 mil habitantes, quase três vezes a média estadual de 4,09. Em 2024, o índice já era elevado, com 32 assassinatos e taxa de 13,85, superior ao dobro da média paulista de 6,1. Investigações apontam que o PCC prioriza operações internacionais, deixando brechas para rivais locais.
Razões para o avanço do conflito
A posição geográfica de Rio Claro favorece o escoamento de drogas por rodovias como Anhanguera, Bandeirantes e Washington Luís, atraindo facções nacionais.
Historicamente, o tráfico na cidade opera sem hegemonia clara, com grupos atuando de forma fragmentada e formando alianças instáveis.
O PCC enfrenta resistências locais, incluindo dissidentes que se voltam para o CV, criando um vácuo de poder explorado pela facção carioca.

Figuras centrais na rivalidade
Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, conhecido como “Bode”, lidera operações do CV na região e é investigado por ordenar ataques contra o PCC. Seu braço direito, Edvaldo Luís Lopes Júnior (“Grão”), coordena logística entre Rio Claro e o Rio de Janeiro.
O grupo Bonde do Magrelo, formado por ex-membros do PCC, alia-se ao CV e responde por dezenas de mortes em confrontos desde 2022.
Em dezembro de 2024, uma execução em supermercado e um quádruplo homicídio em novembro foram vinculados a retaliações entre as facções.
O PCC decretou a morte de líderes rivais, forçando “Bode” a se deslocar para o Rio de Janeiro.
Operação policial revela estrutura do CV
Polícia Civil apreendeu 96 quilos de drogas em chácara de Hortolândia, em março de 2025, incluindo cocaína, haxixe e maconha com marcações do CV. Armas como pistolas e rifles, além de munições, rádios e R$ 21 mil em espécie, foram confiscadas.
O proprietário, Wilson Balbino da Cruz (“Japonês”), com histórico de roubo e quadrilha, foi preso e identificado como elo logístico do CV em São Paulo.
A propriedade servia como ponto de parada para envios entre Rio Claro e o Rio de Janeiro, sustentando ações contra o PCC.
Investigações continuam para mapear outros participantes na rede.
Estratégias das facções em SP
O CV domina o tráfico em 24 estados brasileiros e avança em áreas paulistas onde o PCC reduz presença local, focando em exportações de cocaína.
Em Rio Claro, o Bonde do Magrelo expandiu para sete municípios vizinhos, intensificando disputas territoriais.
Desde 2022, pelo menos 40 homicídios na região ligam-se a esses embates, com execuções frequentemente envolvendo atiradores de fora.
Autoridades estimam que o CV consolide bases em cidades como Araras e Americana, ameaçando o monopólio paulista do PCC.
Relatos de moradores e alertas oficiais
Moradores de Rio Claro notam maior cautela em horários noturnos, com relatos de roubos crescentes no centro da cidade. Uma residente de 42 anos menciona fechar portões mais cedo devido à frequência de notícias sobre violência.
O delegado seccional Paulo César Junqueira Hadich afirma que 50% dos crimes ligados a facções foram esclarecidos, apesar de desafios como testemunhas temerosas e executores externos.
Ele orienta denúncias anônimas para agilizar investigações e evitar novas vítimas.
Uma força-tarefa do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 9, com apoio do Ministério Público e Polícia Militar, monitora 52 municípios para conter a expansão.
A defesa de “Bode” nega acusações, citando sigilo judicial e improcedência das imputações.