Especialistas em segurança viária e psicologia do trânsito manifestam preocupação com as alterações recentes na legislação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). As mudanças, que incluem renovação automática e gratuita para condutores sem infrações nos últimos 12 meses, reduzem a frequência de exames médicos e psicológicos obrigatórios. Essa flexibilização, implementada por medida provisória no final de 2025, é vista como um retrocesso na prevenção de acidentes.
As críticas partem principalmente de entidades como a Associação das Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans-MG) e conselhos regionais de psicologia. Eles argumentam que a aptidão para dirigir varia com idade, saúde física e condições mentais, tornando avaliações periódicas essenciais. A transferência de responsabilidade para o condutor individual pode elevar o número de sinistros previsíveis.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) reforçam essas preocupações em período recente. Operações em feriados mostraram aumento de ocorrências ligadas a falhas humanas.
Críticas à desburocratização
A presidente da Actrans-MG, Adalgisa Lopes, destaca que a maioria dos acidentes deriva de falhas previsíveis nos processos cognitivos dos condutores. Ela explica que ausência de reação ou resposta tardia reflete problemas como fadiga crônica, estresse ou distúrbios do sono.
O vice-presidente da entidade, Carlos Luiz Souza, reforça que reduzir a CNH a mera burocracia ignora a ciência envolvida na habilitação. Ele aponta que exames médicos frequentemente detectam condições não diagnosticadas em outras ocasiões.
Giovana Varoni, especialista em psicologia do trânsito, complementa que a economia aparente na renovação se converte em gastos maiores com saúde pública. Acidentes graves geram custos com internações, reabilitações e benefícios previdenciários.

Dados de acidentes nas rodovias
A PRF registrou, de janeiro a outubro de 2025, 59.459 acidentes em rodovias federais, resultando em 4.970 mortes e 68.264 feridos. A maior parte das ocorrências tem origem em fatores humanos preveníveis.
As principais causas identificadas incluem:
- Ausência de reação do condutor;
- Reação tardia ou ineficiente;
- Velocidade incompatível;
- Ingestão de álcool;
- Ultrapassagens indevidas.
Esses dois primeiros itens somam mais de 18 mil casos e estão ligados diretamente a comprometimentos psicofisiológicos. Avaliações rigorosas buscam identificar esses riscos antes que se manifestem ao volante.
No feriado de Ano Novo de 2026, a operação da PRF apontou 1.152 sinistros, com 109 mortes e 1.315 feridos. O aumento de 38% nas fatalidades em comparação ao período anterior demonstra a persistência de problemas nas vias.
Impacto econômico e social
Organizações como a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estimam que acidentes de trânsito custam entre 1% e 3% do Produto Interno Bruto nos países da região. No Brasil, isso representa valores anuais na casa das centenas de bilhões de reais.
Esses custos abrangem tratamento médico pelo SUS, perda de produtividade e pagamentos previdenciários. Quando um condutor sofre mal súbito, ele deixa de contribuir economicamente e passa a demandar recursos públicos prolongados.
A flexibilização transfere a prevenção do sistema coletivo para o indivíduo. Condições como diabetes descompensada, hipertensão ou apneia do sono podem permanecer sem detecção por períodos mais longos.
Familiares de vítimas enfrentam consequências emocionais e financeiras duradouras. A sociedade como um todo absorve perdas em força de trabalho produtiva.
Importância dos exames médicos
Exames de aptidão física identificam alterações que afetam diretamente a capacidade de dirigir com segurança. Inclusão de testes básicos, como glicemia ou hemoglobina glicada, poderia funcionar como prevenção primária.
Muitos condutores só realizam check-ups completos durante a renovação da CNH. Reduzir essa obrigatoriedade elimina uma oportunidade única de triagem populacional.
Profissionais de saúde enfatizam que idade avançada aumenta a probabilidade de condições crônicas. Prazos estendidos elevam o intervalo entre avaliações precisamente no grupo mais vulnerável.
Avaliações psicológicas essenciais
No âmbito psicológico, as avaliações detectam vulnerabilidades como impulsividade, gestão inadequada de raiva ou tendência à agressividade. Esses fatores contribuem para comportamentos de risco no trânsito.
Psicólogos destacam que estresse crônico e fadiga afetam a atenção sustentada e a velocidade de processamento de informações. Reação tardia em situações críticas frequentemente deriva desses elementos.
A desvalorização de profissionais qualificados compromete a qualidade do serviço prestado. Remuneração inadequada no setor reflete na precisão das análises realizadas.
Causas humanas predominantes
Falhas humanas representam a raiz da maioria dos sinistros registrados pela PRF. Entre elas:
- Desatenção momentânea;
- Sobrecarga emocional;
- Efeitos de medicamentos;
- Distúrbios do sono não tratados;
- Condições mentais descompensadas.
Esses indicadores são rastreáveis por meio de avaliações periódicas. Flexibilizar requisitos aumenta a presença de motoristas com capacidades comprometidas nas vias.
Operações recentes em feriados confirmam a predominância dessas causas. Fiscalização intensificada revela padrões recorrentes de imprudência evitável.
Transferência de custos ao sistema público
A economia gerada na renovação se manifesta em despesas maiores no SUS e na Previdência Social. Tratamento de lesões graves demanda recursos elevados e prolongados.
Reabilitação de vítimas envolve equipes multidisciplinares e equipamentos especializados. Perda de produtividade afeta a economia nacional de forma ampla.
Especialistas defendem que segurança viária deve ser tratada como questão de saúde pública. Priorizar o fator humano sustenta sistemas de prevenção eficazes a longo prazo.