Doença sem cura atinge ararinhas-azuis na Bahia e interrompe projeto de reintrodução da espécie

Ararinha-azul

Ararinha-azul - Foto: © José Cruz/Agência Brasil

Um grave revés atingiu um dos mais importantes programas de conservação da fauna brasileira. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) confirmou que as ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) reintroduzidas na natureza na Bahia foram infectadas por um vírus incurável, forçando a suspensão imediata das atividades de soltura na Caatinga.

A decisão foi tomada após a detecção do circovírus, um patógeno que causa a Doença do Bico e das Penas (PBFD), em todas as 11 aves que viviam em liberdade. Os animais foram recapturados na zona rural do município de Curaçá, no norte do estado, em uma operação emergencial para conter a disseminação da enfermidade.

O episódio acende um alerta sobre a vulnerabilidade de espécies ameaçadas e expõe falhas nos protocolos de manejo e biossegurança. Com a totalidade do grupo selvagem comprometida, o futuro da ararinha-azul, espécie que já foi considerada extinta na natureza por duas décadas, torna-se novamente incerto.

Origem do surto entre aves repatriadas

A crise sanitária começou a se desenhar em maio de 2025, quando os primeiros casos positivos para o circovírus foram identificados em sete ararinhas-azuis mantidas no criadouro local, incluindo um filhote que havia nascido na natureza. A situação se agravou quando testes posteriores, realizados nas 11 aves recapturadas no início de novembro do mesmo ano, confirmaram a presença do patógeno em todos os indivíduos. Essas aves faziam parte de um grupo maior de 20 espécimes que foram soltos em 2022, como parte de um esforço internacional para restabelecer uma população selvagem da espécie.

As investigações conduzidas pelo ICMBio, que envolveram a coleta de amostras de sangue, fezes e penas de 92 aves, apontam para uma possível falha na quarentena. Relatórios internos sugerem que uma ave importada da Alemanha já havia testado positivo em janeiro de 2025, mas a informação não teria sido comunicada de forma imediata às autoridades brasileiras, o que pode ter permitido a propagação silenciosa do vírus dentro do criadouro antes que as medidas de contenção fossem implementadas.

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Sintomas e progressão da doença

O circovírus é conhecido por seus efeitos devastadores em psitacídeos, atacando o sistema imunológico e comprometendo a formação de penas e do bico. Os principais sintomas observados nas ararinhas-azuis em Curaçá incluíram a perda progressiva de penas, alterações visíveis na coloração azul característica, que se torna esbranquiçada, e o crescimento anormal e deformado do bico, dificultando a alimentação.

As aves infectadas apresentam um declínio rápido no condicionamento físico, com áreas calvas na cabeça e no corpo, além de penas quebradiças que as impedem de voar de maneira eficiente. Essa debilidade foi um dos fatores que levaram à decisão de recapturar preventivamente todo o grupo que estava em liberdade, uma vez que sua capacidade de sobrevivência na natureza estava seriamente comprometida.

O patógeno causa uma forte imunossupressão, deixando as aves vulneráveis a infecções secundárias, que frequentemente se revelam fatais. Estudos indicam que a taxa de mortalidade em populações de psitacídeos não monitoradas pode chegar a 90%. Sem vacina ou tratamento curativo, o prognóstico para os animais infectados é reservado, e o manejo se concentra em cuidados paliativos e isolamento rigoroso.

A transmissão do vírus ocorre por contato direto entre as aves ou por meio do ambiente contaminado, como em ninhos, poleiros e comedouros, onde o patógeno pode permanecer ativo por meses. Equipes veterinárias seguem monitorando os indivíduos positivos, que foram isolados em recintos especiais, na esperança de que alguns possam desenvolver uma resposta imune e reverter a infecção, embora essa seja uma possibilidade remota.

Ações emergenciais do ICMBio

Diante da gravidade da situação, o ICMBio declarou estado de emergência sanitária em agosto de 2025, mobilizando equipes federais para uma intervenção rápida. A principal medida foi a realização de uma triagem completa em todos os aviários do criadouro em Curaçá, resultando no isolamento imediato de 13 aves que testaram positivo em áreas internas seguras. Simultaneamente, foi iniciado um processo de descontaminação de todos os ninhos, recintos e comedouros, seguindo protocolos internacionais para erradicação de patógenos, que incluíram a remoção e incineração de resíduos orgânicos acumulados. O plano de ação emergencial prevê um investimento inicial de R$ 500 mil para o monitoramento ambiental contínuo na Caatinga, com a apresentação de relatórios de avaliação trimestrais até o primeiro semestre de 2026.

Controvérsias no programa de conservação

O surto viral lança luz sobre as controvérsias que cercam o programa de reintrodução. O acordo original, firmado em 2020 entre o governo brasileiro e a organização alemã Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP), viabilizou a importação de 52 ararinhas-azuis. A ONG, que na época detinha o controle de cerca de 90% da população global da espécie, teve seu contrato rompido em 2024.

A quebra da parceria ocorreu após a revelação de que a ACTP teria vendido 26 aves para um zoológico na Índia sem a devida autorização, expondo brechas nos mecanismos de controle do comércio de espécies ameaçadas, mesmo sob a regulamentação da CITES. Críticos do programa afirmam que a importação das aves sem um protocolo de quarentena suficientemente rigoroso pode ter facilitado a entrada do circovírus, que até então não tinha registros em aves selvagens no Brasil.

Biossegurança em criadouros de espécies ameaçadas

A fiscalização federal no criadouro de Curaçá, acompanhada pela Polícia Federal, identificou falhas graves nos protocolos de biossegurança, culminando na aplicação de uma multa de R$ 1,2 milhão à empresa responsável. Entre as irregularidades estavam a ausência de desinfecção regular, comedouros sujos e a falta de equipamentos de proteção adequados para os cuidadores, condições que facilitam a proliferação de doenças.

As normas do ICMBio determinam uma quarentena mínima de 30 dias para todas as aves importadas, com a realização de múltiplos testes sorológicos, mas as evidências coletadas sugerem que esses procedimentos podem ter sido negligenciados. Como resposta, a implementação de barreiras físicas, como telas anti-insetos, e a obrigatoriedade de treinamentos anuais para as equipes sobre higiene e monitoramento de sintomas precoces foram instituídas para evitar a repetição de erros.

População global e esforços de reprodução

Atualmente, a população mundial de ararinhas-azuis é estimada em apenas 328 indivíduos, a maioria mantida em cativeiro para garantir a preservação genética. O surto representa uma perda significativa, reduzindo o plantel disponível para futuras solturas em cerca de 3% e forçando um reajuste completo nos planos reprodutivos. Estratégias de mitigação, como a criação de um banco de sêmen congelado, iniciado em 2023, tornam-se ainda mais cruciais para o futuro da espécie.

Monitoramento ambiental na região de Curaçá

A vigilância na Caatinga foi intensificada para avaliar se o vírus se espalhou para outras espécies de aves nativas. O trabalho inclui o uso de armadilhas fotográficas e drones para mapear o deslocamento de psitacídeos, além da coleta de amostras ambientais em troncos de árvores e fontes de água para detectar vestígios virais. Até o momento, os testes em espécies como maracanãs e araras-canindé não detectaram o patógeno, mas o estado de alerta é permanente.

Redes de vigilância com sentinelas locais, formadas por moradores da região treinados pelo ICMBio, foram ativadas para reportar avistamentos de aves com comportamento ou aparência anormais. Essa colaboração com a comunidade, aliada à fiscalização do Instituto do Meio Ambiente da Bahia (Inema), busca criar um escudo de proteção para a biodiversidade regional, visando não apenas conter o surto atual, mas também fortalecer a resiliência do ecossistema a futuras ameaças.

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