Documentos internos obtidos com exclusividade indicam que a correção das redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 seguiu orientações distintas das aplicadas em edições anteriores. Essas diferenças, concentradas em três pontos principais das competências avaliadas, geraram quedas expressivas nas pontuações de candidatos que costumavam obter notas elevadas. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) reitera que os critérios permaneceram inalterados e que o processo manteve equilíbrio.
Milhares de participantes relataram reduções significativas em suas notas após a divulgação dos resultados em janeiro de 2026. Candidatos com histórico de desempenhos acima de 900 pontos viram suas avaliações caírem para faixas entre 700 e 800. Especialistas consultados atribuem o fenômeno a maior rigidez em aspectos como coesão textual, repertório sociocultural e proposta de intervenção.
A controvérsia ganha relevância porque o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a considerar notas das três últimas edições do exame para ingresso em universidades públicas em 2026. Participantes que dependeram exclusivamente da edição de 2025 sentiram-se prejudicados ao competir com veteranos avaliados sob parâmetros anteriores.
Principais alterações identificadas
As mudanças concentraram-se em competências específicas, tornando a avaliação mais subjetiva em alguns aspectos e mais punitiva em outros. Corretores relataram que orientações adicionais enviadas após treinamentos presenciais modificaram a aplicação prática das regras.
- Ampliação da penalidade para repertórios socioculturais inadequados, que passaram a afetar duas competências simultaneamente.
- Substituição de critérios objetivos por descrições qualitativas na análise de elementos coesivos.
- Aumento da punição específica para ausência ou ambiguidade no elemento “ação” da proposta de intervenção.
Essas ajustes explicam parte das quedas observadas, segundo professores experientes em preparação para o exame. A ausência de comunicação prévia aos candidatos intensificou as reclamações registradas em redes sociais e fóruns educacionais.
Análise detalhada por competência
A competência 1, responsável pelo domínio da norma culta, não apresentou alterações formais em sua grade de avaliação. Candidatos continuaram podendo alcançar a nota máxima mesmo com até dois desvios gramaticais, desde que a estrutura geral do texto demonstrasse excelência.
Na competência 2, que verifica a compreensão do tema e o uso de repertório sociocultural, a exigência principal permaneceu a mesma. No entanto, um documento complementar estabeleceu que avaliações negativas nessa área influenciassem diretamente a competência 3.
Essa interligação representou a mudança mais impactante para muitos participantes. Repertórios considerados genéricos ou mal contextualizados geraram descontos duplicados, reduzindo substancialmente a pontuação final.
A competência 3, focada na seleção e organização de argumentos, absorveu parte das penalidades anteriormente restritas à competência anterior. Essa ampliação do escopo aumentou o peso dado à qualidade das referências utilizadas pelos candidatos.
Mudanças na coesão textual
A competência 4 passou por reformulação que eliminou parâmetros numéricos previamente utilizados. Em edições anteriores, a nota máxima exigia contagem específica de operadores argumentativos entre parágrafos e elementos coesivos internos.
Em 2025, esses indicadores quantitativos deram lugar a classificações como “regular”, “constante” ou “expressiva”. Essa transição para critérios qualitativos gerou interpretações variadas entre os avaliadores.
Corretores destacam que a ausência de referencial objetivo dificultou a padronização das correções. Muitos textos que teriam alcançado pontuação elevada em anos anteriores receberam notas intermediárias devido à subjetividade introduzida.
A alteração afetou especialmente candidatos que dominavam técnicas tradicionais de coesão. A nova abordagem priorizou a percepção geral de fluidez em detrimento de contagens precisas.
Proposta de intervenção mais exigente
A competência 5 manteve os cinco elementos obrigatórios para a proposta de intervenção: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento. Contudo, uma orientação complementar aumentou a penalidade para casos em que o elemento “ação” estivesse ausente ou mal definido.
Anteriormente, a omissão de qualquer item resultava em perda fixa de 40 pontos. Em 2025, a falta específica da “ação” passou a implicar desconto de até 120 pontos.
Essa diferença impactou textos que apresentavam soluções completas em outros aspectos, mas pecavam na clareza do verbo de ação. Candidatos que confundiam “ação” com “finalidade” sofreram reduções maiores que o esperado.
A mudança reforçou a exigência de verbos imperativos ou estruturas propositivas explícitas. Exemplos analisados internamente demonstram que propostas com quatro elementos válidos ainda assim receberam classificação baixa.
Repercussão entre os participantes
Candidatos com trajetórias consistentes de alto desempenho manifestaram surpresa com os resultados de 2025. Um participante de 23 anos, que nunca havia obtido menos de 900 pontos, alcançou apenas 740 na edição atual.
Outra candidata de 24 anos viu sua nota recuar de 940 para 720, apesar de manter o mesmo padrão de escrita. Esses casos ilustram o padrão de redução observado em diversos perfis de estudantes.
Muitos desistiram de utilizar a nota no Sisu, optando por vestibulares tradicionais ou reaplicação no futuro. A sensação de injustiça cresceu entre quem estreou no exame em 2025.
Condições do processo corretivo
O processo de correção envolveu milhares de avaliadores trabalhando sob pressão de volume elevado. Cada profissional recebia remuneração média de três reais por texto analisado.
Corretores chegavam a avaliar até 200 redações por dia, enfrentando instabilidades no sistema eletrônico. Falhas de comunicação entre supervisores e equipes regionais geraram inconsistências durante os treinamentos.
Esses fatores contribuíram para o afastamento de profissionais mais experientes do processo. A precarização das condições reflete desafios estruturais na realização do exame em larga escala.
Implicações para o acesso universitário
A aceitação de notas das edições 2023, 2024 e 2025 no Sisu 2026 ampliou a concorrência desigual. Veteranos beneficiaram-se de avaliações anteriores consideradas menos rigorosas.
Candidatos dependentes exclusivamente da edição atual enfrentaram desvantagem competitiva. Universidades públicas registraram aumento de questionamentos sobre o uso das notas no processo seletivo.
A polêmica reforça debates sobre transparência nos critérios do maior exame educacional do país. Participantes cobram divulgação prévia de eventuais ajustes nas matrizes de correção.
Perspectivas dos especialistas
Professores de redação destacam que as mudanças tornaram a preparação mais imprevisível para futuras edições. A ênfase maior em repertórios produtivos exige dos candidatos maior aprofundamento temático.
Coordenadores de cursinhos recomendam foco em propostas de intervenção com verbos claros e coesão natural. A experiência de 2025 serve como alerta para evitar fórmulas prontas.
A manutenção formal das competências não elimina o impacto prático das orientações complementares. Especialistas defendem maior diálogo entre o Inep e a comunidade educacional.

