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Estratégia da Valve com tecnologia ARM busca levar a biblioteca completa do Steam para celulares

Steam
Steam - viewimage/ Shutterstock.com

A Valve está trabalhando ativamente em uma iniciativa de longo prazo para tornar a vasta biblioteca de jogos da plataforma Steam totalmente funcional em dispositivos móveis com processadores de arquitetura ARM. A revelação foi feita por Pierre-Loup Griffais, um dos principais desenvolvedores do SteamOS e do Steam Deck, que detalhou como a empresa vem investindo em camadas de compatibilidade e projetos de código aberto para quebrar as barreiras entre o ecossistema de PC e os bilhões de celulares e tablets em uso globalmente. O objetivo é permitir que os jogadores acessem seus títulos de PC de forma nativa, sem depender exclusivamente de serviços de streaming.

Este esforço, que começou discretamente em 2016 com a contratação de especialistas, visa oferecer uma experiência de jogo consistente, independentemente do hardware. A ambição é que um usuário possa comprar um jogo no Steam e executá-lo tanto em um computador de alto desempenho quanto em um dispositivo portátil de baixo consumo energético, aproveitando a mesma conta e biblioteca. A maturidade tecnológica alcançada ao longo de quase uma década está agora permitindo que esses planos se materializem em produtos concretos, expandindo significativamente o alcance do ecossistema de jogos para PC.

Steam Divulgação
Steam – Foto: Divulgação

O pilar da estratégia em código aberto

No centro da ambiciosa estratégia da Valve está um forte investimento em tecnologias de código aberto, que formam a base para a compatibilidade entre diferentes arquiteturas de processadores. Dois projetos são fundamentais nesse processo: o Proton e o emulador FEX. O Proton, já conhecido pelos usuários do Steam Deck, é uma camada de compatibilidade que traduz as chamadas de API do Windows, como o DirectX, para a API gráfica Vulkan, que é multiplataforma e funciona nativamente em sistemas baseados em Linux, como o SteamOS. Isso resolve o problema do sistema operacional, mas não o da arquitetura do processador. É aí que entra o FEX, um emulador que traduz em tempo real as instruções de código compiladas para a arquitetura x86 (padrão em PCs) para a arquitetura ARM (padrão em dispositivos móveis). Ao financiar diretamente os desenvolvedores principais desses projetos, a Valve garante que as ferramentas evoluam de forma robusta e eficiente, minimizando a perda de desempenho que normalmente ocorre em processos de emulação. A integração dessas duas ferramentas permite que um jogo de Windows para PC seja executado em um dispositivo ARM com Linux de forma quase transparente para o usuário final.

Uma década de desenvolvimento silencioso

O caminho para alcançar a viabilidade dessa tecnologia foi longo e exigiu uma visão estratégica de quase uma década. Segundo Griffais, o projeto ganhou força em 2016, quando a Valve começou a montar uma equipe dedicada a resolver os complexos desafios da emulação e compatibilidade de arquiteturas. Em vez de criar uma solução proprietária e fechada, a empresa optou por apoiar e aprimorar projetos da comunidade de software livre, uma abordagem que, embora mais lenta, gera resultados mais sustentáveis e beneficia todo o ecossistema tecnológico, não apenas os produtos da Valve.

Esse investimento paciente permitiu que as ferramentas amadurecessem gradualmente, superando obstáculos de desempenho e estabilidade. O trabalho contínuo no FEX desde 2018, por exemplo, resultou em um emulador leve e eficiente, capaz de lidar com a complexidade dos jogos modernos. Agora, com a tecnologia atingindo um nível de maturidade elevado, a Valve está preparada para colher os frutos desse planejamento, integrando o suporte a ARM diretamente em seus sistemas e abrindo portas para uma nova geração de hardware para jogos.

Aplicações práticas em novos hardwares

A primeira demonstração concreta da viabilidade dessa tecnologia é o Steam Frame, um headset de realidade virtual autônomo anunciado pela Valve. Este dispositivo representa um marco importante, pois roda o sistema operacional SteamOS diretamente em um processador Snapdragon, de arquitetura ARM.

Diferente de outros headsets que dependem de um PC potente para processar os jogos, o Steam Frame executa os títulos da biblioteca Steam VR de forma nativa. Isso comprova que a combinação do SteamOS com as camadas de compatibilidade é capaz de oferecer um desempenho aceitável até mesmo para aplicações exigentes como a realidade virtual.

O lançamento do Steam Frame, previsto para o início de 2026, serve como um poderoso caso de uso e um precursor do que está por vir. A experiência e os aprimoramentos obtidos com este dispositivo serão aplicados para expandir o suporte a uma gama ainda maior de hardwares ARM no futuro.

Expansão do ecossistema SteamOS

A Valve busca manter uma experiência de usuário consistente em todas as plataformas onde o SteamOS está presente. A ideia é que a interface, as funcionalidades e as atualizações sejam as mesmas, seja em um PC tradicional, no Steam Deck ou em um futuro dispositivo ARM.

Essa uniformidade é crucial para simplificar a vida dos desenvolvedores de jogos. Com a solução de compatibilidade da Valve, eles não precisam se preocupar em criar e manter uma versão específica de seus jogos para a arquitetura ARM, um processo que seria caro e complexo.

Para os jogadores, a vantagem é a portabilidade total de sua biblioteca. O progresso, as conquistas e as configurações de um jogo podem ser sincronizados entre diferentes tipos de dispositivos sem qualquer dificuldade, criando um ecossistema de jogos verdadeiramente unificado.

A empresa também vislumbra parcerias com outros fabricantes de hardware, que poderiam lançar seus próprios dispositivos portáteis ou laptops energeticamente eficientes rodando o SteamOS, ampliando ainda mais as opções disponíveis para os consumidores.

Desafios e desempenho em ARM

Os processadores com arquitetura ARM dominam o mercado de dispositivos móveis principalmente por sua alta eficiência energética, que se traduz em maior autonomia de bateria. É exatamente essa característica que a Valve pretende aproveitar para criar dispositivos de jogos portáteis que possam ser usados por horas sem a necessidade de recarga, um dos grandes atrativos do formato.

Embora o desempenho bruto dos chips ARM ainda não se compare ao dos processadores x86 de ponta em tarefas de alta intensidade, os avanços recentes, como os vistos em chips como o Snapdragon 8 Gen 3, mostram que eles já são capazes de rodar jogos de PC com qualidade gráfica satisfatória em resoluções adequadas para telas menores.

Futuro da compatibilidade multiplataforma

A estratégia da Valve posiciona o Steam não apenas como uma loja de jogos, mas como uma plataforma universal, agnóstica em relação ao sistema operacional e à arquitetura de hardware. Essa abordagem protege o investimento dos jogadores, que acumularam vastas bibliotecas de jogos ao longo de anos, garantindo que elas permaneçam acessíveis em futuras gerações de tecnologia.

Benefícios para jogadores e desenvolvedores

Para os jogadores, essa iniciativa significa uma flexibilidade sem precedentes. A possibilidade de acessar a biblioteca completa do Steam em praticamente qualquer tipo de tela, do monitor de um PC a um celular, transforma a maneira como o consumo de jogos é percebido. O progresso em um jogo iniciado em casa poderá ser continuado no transporte público, sem interrupções.

Os desenvolvedores, por sua vez, são os grandes beneficiados ao serem poupados do trabalho de portar seus jogos. Eles podem concentrar seus recursos em otimizar e aprimorar a experiência principal do jogo, sabendo que as ferramentas da Valve se encarregarão de fazê-lo funcionar em uma gama crescente de dispositivos, ampliando seu público potencial sem esforço adicional.

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