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Hubble detalha estrutura de jatos duplos e cauda invertida em cometa de origem interestelar

cometa
cometa - Foto: Domenichini Giuliano / Shutterstock.com

Registros capturados pelo Telescópio Espacial Hubble revelaram um comportamento dinâmico e complexo em um visitante cósmico que cruzou o Sistema Solar recentemente. As imagens, obtidas em dezembro de 2025, mostram uma configuração incomum de jatos duplos no cometa 3I/Atlas, incluindo uma “anti-cauda” que desafia a visualização tradicional desses corpos celestes. O objeto, que teve sua passagem mais próxima ao Sol em outubro do mesmo ano, continua ativo enquanto segue sua trajetória de saída para o espaço profundo.

A análise dos dados, processados por equipes de astronomia no início de 2026, destaca a presença de um jato dominante apontado em direção ao Sol e outro fluxo mais fraco na direção oposta. Essa estrutura peculiar sugere processos internos intensos no núcleo do cometa, possivelmente ligados à sua rotação e à forma como a energia solar foi absorvida e redistribuída pela superfície do objeto durante o periélio.

3I ATLAS
3I ATLAS – Divulgação/Nasa

Utilizando o instrumento WFC3 UVIS com exposições de 170 segundos, o Hubble conseguiu detalhar a morfologia da coma e dos jatos com precisão. A persistência da atividade mesmo após o afastamento do Sol oferece aos cientistas uma oportunidade rara de estudar a composição e a mecânica de corpos originários de outros sistemas estelares.

Dinâmica dos jatos e rotação

As observações realizadas em datas distintas, especificamente em 12 e 27 de dezembro, permitiram aos astrônomos identificar variações significativas na intensidade dos jatos. O processamento das imagens indica que a estrutura não é estática, mas sim evolutiva, o que levanta hipóteses sobre o período de rotação do núcleo. Estima-se que oscilações na luminosidade sejam compatíveis com um ciclo rotacional de aproximadamente 16 horas.

A configuração observada difere substancialmente do padrão visto em cometas nativos do Sistema Solar, onde a cauda geralmente se estende apenas na direção oposta ao Sol, empurrada pelo vento solar. No caso do 3I/Atlas, a presença simultânea de fluxos em direções opostas sugere que o núcleo pode estar ejetando material de polos distintos ou que a dinâmica de partículas possui características únicas.

  • Jato primário: forma a chamada anti-cauda, visível e estendida em direção ao Sol.
  • Fluxo secundário: apresenta menor intensidade e alinhamento oposto ao jato principal.
  • Variação temporal: mudanças de brilho e forma detectadas entre as duas sessões de fotos.
  • Colimação: os jatos mantêm-se estreitos, indicando fontes de emissão localizadas.

Esses elementos apontam para uma possível transferência de energia térmica para o lado noturno do cometa, ativando a liberação de gases e poeira em regiões que já não estavam sob iluminação direta.

Características das partículas e ejeção

A formação da anti-cauda proeminente é atribuída, em parte, à física das partículas ejetadas pelo núcleo. Grãos de poeira maiores, menos suscetíveis à pressão da radiação solar, tendem a permanecer na trajetória orbital do cometa, criando a ilusão visual de uma cauda apontada para a estrela. Em contraste, partículas menores são rapidamente empurradas para longe, formando a cauda convencional.

Medições de velocidade das ejeções reforçam essa teoria. Enquanto partículas menores e mais leves atingem velocidades de escape em torno de 22 metros por segundo, os grãos maiores e mais pesados se movem a cerca de 2 metros por segundo. Essa diferença de velocidade resulta na separação espacial dos materiais, permitindo ao Hubble distinguir as diferentes estruturas na coma do objeto.

A extensão da coma observada chega a centenas de milhares de quilômetros, uma escala impressionante para um núcleo cujas estimativas de tamanho variam entre 440 metros e 5,6 quilômetros. A perda de massa contínua sugere que o objeto é rico em voláteis que sublimam vigorosamente mesmo a distâncias crescentes da fonte de calor.

Origem galáctica e trajetória

A órbita hiperbólica do 3I/Atlas confirmou sua natureza interestelar, classificando-o como um objeto que não se formou na nuvem primordial do nosso sistema. Estudos espectroscópicos e de trajetória indicam que este corpo celeste pode ter se originado no disco espesso da Via Láctea, com uma idade estimada superior a 7 bilhões de anos. Sua composição, rica em compostos orgânicos irradiados, apresenta uma coloração avermelhada similar à de asteroides do tipo D.

A passagem pelo Sistema Solar interior causou apenas uma leve curvatura orbital de 16 graus devido à gravidade solar, preservando as características fundamentais de sua rotação pré-periélio. Essa estabilidade permite que os astrônomos considerem as observações atuais como representativas do estado natural do objeto em sua jornada pela galáxia.

À medida que o cometa se distancia, telescópios terrestres e espaciais, incluindo o James Webb (JWST), continuam a monitorar seu comportamento. Cada novo dado coletado ajuda a refinar os modelos sobre a formação de sistemas planetários e a distribuição de matéria orgânica no universo.

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