O período do Ramadã, considerado o mais sagrado para os seguidores do islamismo, iniciou nesta terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, impondo transformações significativas na dinâmica do futebol profissional na Arábia Saudita. Durante os próximos 30 dias, atletas muçulmanos e estrangeiros precisam ajustar ciclos de sono, alimentação e horários de atividades físicas para conciliar a fé com as exigências do esporte de alto rendimento. A rotina no país árabe é quase integralmente deslocada para o período noturno, uma vez que o jejum ritualístico ocorre entre o nascer e o pôr do sol.
O zagueiro brasileiro Andrei Girotto, que atua pelo Al-Taawoun e reside na região há três anos, detalhou como a estrutura dos clubes se reorganiza para respeitar os preceitos religiosos. Diferente do que ocorre nas ligas europeias, onde os horários permanecem rígidos, na Arábia Saudita os treinamentos são transferidos para o final da noite, geralmente entre 21h e 0h locais. Essa mudança visa garantir que os jogadores que estão em jejum possam se hidratar e se alimentar adequadamente antes de iniciarem os esforços físicos intensos em campo.
Diversos nomes de peso do futebol mundial que atuam na Saudi Pro League seguem rigorosamente as práticas do mês sagrado. Entre os principais atletas que aderem ao jejum e às orações intensificadas estão:
- Karim Benzema (Al-Hilal)
- Sadio Mané (Al-Nassr)
- Riyad Mahrez (Al-Ahli)
- N’Golo Kanté (Al-Ittihad)
- Mohamed Salah (Liverpool – Inglaterra)
- Antonio Rüdiger (Real Madrid – Espanha)
Adaptação de horários e rotina noturna
Os treinamentos realizados durante a madrugada alteram completamente o relógio biológico dos profissionais envolvidos no campeonato nacional. Andrei Girotto explicou que os jogadores muçulmanos costumam dormir apenas após o nascer do sol, por volta das 6h ou 7h da manhã, permanecendo em repouso durante a maior parte do dia. Essa inversão é fundamental para que eles consigam manter a energia necessária para as competições oficiais, que também passam a ser agendadas para horários mais tardios.
Para os brasileiros e outros estrangeiros que não professam a fé islâmica, a adaptação é necessária principalmente no convívio social e profissional. Embora não sejam obrigados a jejuar, eles respeitam as normas locais e evitam comer ou beber em público ou na frente de colegas que estão em abstinência. Nas concentrações, muitos hotéis disponibilizam salas reservadas para que os não-muçulmanos possam realizar suas refeições de forma discreta, preservando o ambiente de respeito mútuo.
Desafios logísticos e alimentares nos clubes
A logística de alimentação dentro das sedes esportivas e hotéis sofre modificações estruturais para atender a todos os grupos. Em vez das tradicionais refeições coletivas, os clubes costumam servir os pratos nos quartos dos jogadores ou organizar jantares festivos após o pôr do sol, conhecidos como Iftar. Nessas ocasiões, é comum a presença de pratos calóricos e tradicionais, como o cordeiro, servidos em grande fartura para repor as energias dos atletas.
A preparação física também é monitorada com maior rigor pelos departamentos médicos durante este mês específico do calendário lunar. Especialistas em nutrição esportiva orientam os jogadores sobre a melhor forma de quebrar o jejum, priorizando hidratação imediata e alimentos de rápida absorção. O uso de suplementos específicos e shakes proteicos torna-se essencial para evitar a perda de massa muscular e garantir que o rendimento em campo não sofra quedas bruscas.
Diferenças entre o futebol árabe e o europeu
A experiência de Andrei Girotto no futebol francês permitiu traçar um comparativo direto sobre como o Ramadã é tratado em diferentes culturas esportivas. Na Europa, a rotina de treinos matutinos ou vespertinos não sofre alterações, o que cria um desafio físico hercúleo para os muçulmanos que precisam treinar e jogar sem ingerir água. Em alguns casos, a insistência no cumprimento do jejum pode gerar conflitos com comissões técnicas que priorizam a fisiologia tradicional.
Já na Arábia Saudita, a integração entre a cultura religiosa e a prática esportiva é total, eliminando esse tipo de atrito institucional. As pausas técnicas durante as partidas para que os jogadores possam beber água no momento exato do pôr do sol são institucionalizadas e naturais. Esse ambiente de suporte permite que astros como Karim Benzema mantenham estatísticas de alto nível mesmo durante o período de restrição alimentar severa durante o dia.
Exemplos de superação e alto rendimento
O atacante francês Karim Benzema é frequentemente citado como um exemplo de que a espiritualidade pode impulsionar o desempenho esportivo. Em temporadas anteriores, mesmo sob jejum rigoroso, o jogador registrou atuações memoráveis com hat-tricks e gols decisivos em competições internacionais de elite. Para muitos atletas, o Ramadã funciona como um período de fortalecimento mental e foco, refletindo positivamente na disciplina tática dentro das quatro linhas.
Outros jogadores renomados, como Mohamed Salah no futebol inglês, também demonstram resiliência ao manter a rotina de alto impacto na Premier League. A liga inglesa, inclusive, adotou protocolos específicos para permitir que o desjejum ocorra durante as partidas noturnas, demonstrando uma evolução na sensibilidade cultural do esporte. Essa tendência de adaptação global reforça a importância de compreender as necessidades individuais dos jogadores em um mercado cada vez mais globalizado e diverso.
Costumes sociais e celebrações em grupo
Além do aspecto físico e esportivo, o Ramadã é marcado por um forte senso de comunidade e celebração entre os elencos sauditas. Andrei Girotto mencionou que, após o período de abstinência diária, os jogadores costumam se reunir para jantares que simbolizam a prosperidade e a união do grupo. Esses momentos são fundamentais para a coesão do time, permitindo que estrangeiros conheçam mais profundamente as tradições e valores de seus companheiros locais.
A generosidade e a caridade também ganham destaque, com muitos jogadores participando de ações sociais e doações para comunidades carentes. O respeito às crenças alheias é uma via de mão dupla, embora exista um distanciamento em datas festivas de outras religiões, como o Natal. No cotidiano da Arábia Saudita, o equilíbrio entre a exigência profissional e a devoção religiosa é mantido através de uma organização meticulosa que garante a continuidade do espetáculo esportivo.

