A empresa espanhola Aena sagrou-se vencedora do leilão de venda assistida do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, localizado no Rio de Janeiro, em certame realizado nesta segunda-feira na sede da bolsa de valores de São Paulo, a B3. O grupo europeu apresentou uma proposta de R$ 2,9 bilhões, valor que garantiu a concessão do terminal fluminense até o ano de 2039 após uma disputa direta contra as operadoras Zurich Airport e a atual gestora RIOgaleão. A vitória consolida a posição da companhia estrangeira como a principal operadora privada de infraestrutura aeroportuária em solo nacional, expandindo seu portfólio para dezoito unidades distribuídas por diversas regiões do território brasileiro.
O resultado financeiro da operação superou as expectativas iniciais do Ministério de Portos e Aeroportos, uma vez que a outorga mínima havia sido estabelecida em R$ 932,8 milhões pelo governo federal. Com o lance final bilionário, o ágio registrado na batida do martelo alcançou a marca de 210,88%, refletindo o interesse estratégico no ativo que serve como uma das principais portas de entrada internacionais do país. Este novo modelo de negócio permite que a Aena assuma o controle integral da operação, substituindo o antigo contrato de concessão por uma estrutura jurídica e financeira considerada mais flexível e adaptada às condições atuais do mercado de aviação civil.
A transição operacional marca o encerramento da participação da Infraero e do consórcio anterior na administração do sítio aeroportuário carioca. As principais diretrizes da nova fase de gestão incluem:
- Substituição das contribuições fixas anuais por um modelo de pagamento variável correspondente a 20% do faturamento bruto da unidade.
- Extinção da obrigatoriedade contratual para a construção de uma terceira pista de pousos e decolagens no complexo.
- Retirada definitiva da estatal Infraero da composição acionária da sociedade que administra o terminal.
- Implementação de um mecanismo de proteção financeira vinculado às operações e restrições do Aeroporto Santos Dumont.
Expansão da malha aeroportuária sob gestão espanhola
A incorporação do Galeão ao portfólio da Aena representa um marco para a infraestrutura de transporte aéreo no Brasil e reforça a estratégia de investimento de longo prazo da companhia no mercado latino-americano. Com este novo ativo, a empresa passa a gerenciar dois dos três maiores aeroportos do país em movimentação de passageiros, visto que já detém a concessão de Congonhas, em São Paulo, além de importantes terminais no Nordeste, como os de Recife e Maceió.
A direção da multinacional destacou que o volume total de viajantes transportados em suas unidades brasileiras deve atingir a marca de 62 milhões de pessoas por ano. Essa escala operacional permite ganhos de eficiência logística e amplia a capacidade de negociação com companhias aéreas para a abertura de novas rotas domésticas e internacionais a partir do Rio de Janeiro.
Reestruturação do modelo de venda assistida na B3
O processo de licitação ocorreu sob a modalidade de venda assistida, uma configuração jurídica negociada entre o Poder Executivo, a atual concessionária e o Tribunal de Contas da União para destravar investimentos. Diferente de um leilão de privatização comum, este formato foca na relicitação de um contrato já em vigor, visando viabilizar a troca de comando sem interromper a prestação de serviços essenciais ao público.
O governo federal atuou na mediação para garantir que o novo contrato fosse atrativo ao capital privado, corrigindo distorções do modelo de 2013 que dificultavam o equilíbrio financeiro do terminal. A expectativa é que a flexibilização das regras de pagamento e a retirada de obrigações de obras pesadas permitam que a nova operadora foque na melhoria da experiência do usuário e na modernização tecnológica das áreas de embarque e desembarque.
Recuperação do fluxo de passageiros no Rio de Janeiro
O Aeroporto do Galeão vem registrando uma trajetória de recuperação consistente em seus indicadores de tráfego aéreo após enfrentar desafios econômicos severos nos anos anteriores. No último ano completo de operações, o terminal registrou a passagem de 17,9 milhões de pessoas, o que representou um crescimento superior a 23% em comparação ao período imediatamente anterior.
Atualmente, o complexo aeroportuário mantém uma média de 49 mil passageiros circulando diariamente por suas instalações, sustentada por uma rede de 340 voos domésticos e 110 operações internacionais a cada 24 horas. Apesar de o movimento atual ainda estar abaixo da capacidade instalada de 37 milhões de passageiros por ano, os dados recentes apontam para uma retomada do vigor econômico do setor turístico e de negócios no estado.
Compensação financeira e equilíbrio com o Santos Dumont
Um dos pontos centrais do novo acordo estabelecido na bolsa de valores paulista envolve a relação comercial e operacional entre o Galeão e o Aeroporto Santos Dumont, localizado na região central da capital fluminense. O contrato assinado pela Aena prevê que, caso o governo altere as normas de restrição de voos no Santos Dumont, a nova concessionária do Galeão terá o direito legal de solicitar reequilíbrio econômico ou compensações financeiras.
Essa cláusula visa proteger a viabilidade do investimento bilionário, garantindo que a divisão de tráfego entre os dois principais aeroportos da cidade permaneça estável e previsível para os investidores. A coordenação entre os terminais é vista por especialistas do setor como fundamental para que o Rio de Janeiro recupere sua relevância como um hub de conexões aéreas na América do Sul.
Metas operacionais e compromissos de infraestrutura
A nova administração assume o compromisso de manter a excelência nos serviços de manutenção e operação das pistas, pátios de aeronaves e terminais de passageiros existentes. Embora a terceira pista não seja mais obrigatória, o contrato estipula níveis de serviço rigorosos que devem ser cumpridos para garantir a fluidez do tráfego aéreo e a segurança operacional durante todo o período da concessão.
A Aena deverá investir na atualização de sistemas de monitoramento, segurança e no conforto das áreas comerciais, buscando elevar a rentabilidade das receitas não tarifárias, que incluem lojas, restaurantes e estacionamentos. O foco inicial da transição será a integração das equipes de solo e a implementação dos padrões globais de atendimento que a empresa aplica em suas operações na Europa.
Integração logística e desenvolvimento regional
A vitória da empresa espanhola é recebida pelo setor produtivo carioca como uma oportunidade para impulsionar o transporte de carga e o turismo internacional na região metropolitana. A infraestrutura do Galeão é uma das mais completas do continente para o recebimento de aeronaves de grande porte, fator essencial para o escoamento de produtos de alto valor agregado e para o abastecimento da indústria de petróleo e gás.
Autoridades estaduais e federais esperam que a gestão unificada de grandes aeroportos pela mesma companhia facilite a criação de pacotes de incentivo para atrair novas frequências de voo. A estabilidade jurídica proporcionada pelo novo contrato é apontada como o principal pilar para que o terminal deixe para trás o histórico de incertezas e passe a operar de forma sustentável até o final da próxima década.

