As tensões comerciais entre Canadá e Estados Unidos ganharam novo fôlego esta semana, com declarações de importantes autoridades de ambos os países. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que os “irritantes” comerciais com os Estados Unidos estão “bem à vista”, ressaltando a complexidade das relações bilaterais antes do início das negociações de livre comércio programadas para este verão.
As tensões vêm à tona em um momento em que a retórica em torno da guerra tarifária se intensifica, com o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, e o Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, expressando posições firmes. O cenário é de desconfiança e busca por proteção de setores econômicos, impactando diretamente o comércio e o turismo entre as nações vizinhas.
Pontos de Atrito Destacados por Carney
Na quarta-feira, o primeiro-ministro Mark Carney fez referência aos “irritantes comerciais” do Canadá com os Estados Unidos, mencionando uma lista de pontos de discórdia apresentada pelos EUA. Essa lista inclui questões como compras governamentais, o embargo de bebidas alcoólicas em algumas províncias canadenses e o setor de laticínios. Carney deixou claro que o Canadá também possui suas próprias preocupações em relação ao comércio americano, indicando uma via de mão dupla nos descontentamentos.
Ao ser questionado sobre o assunto nesta quinta-feira, o primeiro-ministro reafirmou que “há uma série de questões que estão bem ali na nossa frente”. Ele citou explicitamente as tarifas impostas pelos EUA sobre produtos como aço, alumínio, automóveis e produtos florestais, que têm sido um ponto sensível para a economia canadense. Apesar das divergências, Carney enfatizou a necessidade de cooperação. “Precisamos trabalhar juntos e vamos trabalhar juntos”, acrescentou, buscando uma abordagem construtiva para resolver os impasses comerciais.
Lutnick investiga novos setores para “proteger”
Durante uma audiência no Congresso nesta quinta-feira, o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, fez referência ao uso da Seção 232 da Lei de Expansão do Comércio dos EUA de 1962. Esse dispositivo legal permite a imposição de tarifas em diversos setores sob a justificativa de segurança nacional. Lutnick indicou que seu departamento está “investigando outros setores para proteger, recolocar e reviver a manufatura americana”, sinalizando uma possível expansão das medidas protecionistas.
A administração Trump já utilizou a Seção 232 para aplicar impostos sobre várias indústrias canadenses. Os setores afetados anteriormente incluem:
- Aço
- Alumínio
- Automóveis
- Armários
Lutnick afirmou que o regime tarifário da administração visa “restaurar a excelência americana em indústrias críticas”. Essa postura reforça a determinação dos EUA em proteger sua base industrial, o que pode gerar mais fricções com parceiros comerciais como o Canadá.
Premier Doug Ford critica perdas econômicas dos EUA
O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, entrou no debate comercial, declarando que a economia dos EUA está perdendo “dezenas de bilhões de dólares”. A razão, segundo ele, é o contínuo boicote de consumidores canadenses ao país vizinho em meio à guerra comercial. A declaração foi feita durante uma entrevista à CNN na manhã desta quinta-feira.
Ford detalhou que os americanos estão deixando de faturar com viagens para destinos populares. “Os americanos estão perdendo dezenas de bilhões de dólares, não importa se é para a Flórida, Las Vegas ou qualquer outro lugar para onde vamos”, disse o premier. Ele expressou lamento pelo boicote. “É lamentável que os canadenses estejam boicotando e deixando de gastar dezenas de bilhões de dólares nos EUA. Isso pode ter um fim rápido, todos podem prosperar.”
As últimas declarações de Ford surgem após o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, ter classificado o boicote em andamento ao álcool americano por algumas províncias, incluindo Ontário, como “insultante e desrespeitoso aos EUA” na quarta-feira. Ford foi questionado sobre esses comentários pelo apresentador da CNN, Wolf Blitzer. Ele já havia afirmado anteriormente que Ontário não suspenderá sua proibição de bebidas alcoólicas dos EUA em lojas de bebidas provinciais até que todas as novas tarifas sobre produtos canadenses sejam removidas. “Acho que o que é desrespeitoso é que nunca começamos essa guerra tarifária”, rebateu Ford, culpando Lutnick e o Presidente Trump pelo ataque às economias conjuntas dos países.
Carney sobre as vendas de bebidas alcoólicas dos EUA
A questão do embargo de bebidas alcoólicas em lojas provinciais canadenses tem sido um ponto de crítica por parte de vários oficiais dos EUA, incluindo o Secretário Lutnick. As autoridades americanas têm apontado que as marcas dos EUA estão sendo barradas das prateleiras, gerando um atrito comercial significativo e impactando produtores.
O primeiro-ministro Mark Carney, por sua vez, pareceu se esquivar da questão federal sobre essa queixa. Ele sugeriu que a decisão sobre o que é colocado nas prateleiras das lojas de bebidas alcoólicas é uma prerrogativa das províncias, e não do governo federal. “Os clientes aqui são as autoridades provinciais de bebidas alcoólicas. Elas tomam a decisão do que colocam nas prateleiras”, disse Carney. Essa posição transfere a responsabilidade para os governos provinciais, complexificando a resolução da disputa em nível federal.
Queda no turismo canadense para os Estados Unidos
Os dados mais recentes do Statistics Canada, divulgados nesta quinta-feira, revelam um impacto direto das tensões comerciais no fluxo de turismo. As viagens de retorno de residentes canadenses dos EUA sofreram uma queda de 12,5% em fevereiro, em comparação com o mesmo período de 2025. Esse declínio acentuado indica que menos canadenses estão optando por visitar o país vizinho, possivelmente influenciados pelo clima de disputa e pelos apelos a boicotes.
Em contraste com a redução das viagens para o sul, o relatório do Statistics Canada também mostrou uma mudança nos padrões de viagem dos canadenses. Um número maior de cidadãos está escolhendo viajar para o exterior, com um aumento de 6,8% nas viagens de retorno de outros países. Além disso, o turismo dos EUA para o Canadá registrou um crescimento de 5,9% em relação a fevereiro de 2025. O número total de viagens de residentes de outros países para o Canadá também cresceu, com um salto de 7,5%, apontando para uma diversificação no fluxo turístico e uma preferência por destinos alternativos em meio à persistência das tensões regionais.