Pesquisadores encontram espaços vazios inéditos na estrutura da pirâmide de Miquerinos no Egito

pirâmide de Menkaure

pirâmide de Menkaure - Angelo F-/iStock

Uma equipe internacional de arqueólogos e engenheiros detectou duas cavidades preenchidas por ar no interior da pirâmide de Miquerinos. O monumento compõe o famoso complexo funerário do planalto de Gizé. A descoberta ocorreu após uma série de varreduras de alta tecnologia na estrutura milenar. Especialistas da Universidade do Cairo e da Universidade Técnica de Munique lideraram o esforço conjunto. Os dados inéditos confirmam suspeitas antigas sobre anomalias arquitetônicas no local.

Os espaços ocultos foram localizados logo atrás de uma seção específica da face leste da edificação. Esta área apresenta blocos de granito com uma superfície notavelmente lisa e polida. O uso de equipamentos não invasivos permitiu mapear o interior da rocha sem causar qualquer dano ao patrimônio histórico. A pirâmide foi erguida há cerca de 4.500 anos. Ela é a menor das três principais estruturas do complexo, que também abriga as construções colossais de Quéops e Quéfren.

Pirâmides de Gizé – Ayman Zaid
/ shutterstock.com

Acabamento incomum na face leste motivou investigações recentes

A face oriental da pirâmide de Miquerinos ergue-se a mais de 60 metros de altura em meio à paisagem desértica. Neste imenso paredão de pedra, um detalhe peculiar sempre chamou a atenção dos observadores mais atentos. Uma área delimitada, medindo aproximadamente quatro metros de altura por seis metros de largura, exibe um acabamento de granito polido. Este tipo de refinamento estético é extremamente raro na parte externa do monumento.

Na arquitetura original do complexo, superfícies com esse nível de polimento costumam indicar pontos de acesso. O padrão aparece de forma idêntica na entrada oficial da construção, que fica posicionada no lado norte. Essa semelhança visual intrigava a comunidade acadêmica há bastante tempo. Faltavam, no entanto, ferramentas capazes de comprovar o que existia além da barreira de pedra maciça.

O pesquisador Stijn van den Hoven foi um dos primeiros a formalizar uma teoria sobre o local. Em 2019, ele sugeriu publicamente que a seção polida poderia esconder uma segunda entrada para o interior da tumba real. A hipótese permaneceu no campo da especulação durante anos. Agora, os novos levantamentos fornecem a primeira base de evidências concretas para sustentar essa linha de raciocínio.

Tecnologias de varredura mapeiam o interior sem perfurar a rocha

A investigação atual integra as atividades do projeto ScanPyramids. Esta iniciativa global busca desvendar os segredos das antigas construções egípcias utilizando métodos da física de partículas e da engenharia moderna. Para analisar a face leste de Miquerinos, a equipe selecionou três abordagens tecnológicas distintas. O objetivo era cruzar informações diferentes para obter um diagnóstico preciso do subsolo rochoso.

Os cientistas aplicaram o radar de penetração no solo, o ultrassom e a tomografia de resistividade elétrica. Cada equipamento operou de maneira independente durante a fase de coleta no planalto de Gizé. O radar emitiu ondas eletromagnéticas, enquanto o ultrassom avaliou o comportamento do som através do granito. A tomografia, por sua vez, mediu a resistência do material à passagem de correntes elétricas sutis.

  • O radar de penetração forneceu imagens detalhadas operando em múltiplas frequências.
  • O sistema de ultrassom identificou variações acústicas significativas logo atrás da fachada.
  • A tomografia de resistividade elétrica mapeou as diferenças de condutividade térmica e física.
  • A fusão de dados integrou todas as medições em um modelo tridimensional único.
  • Simulações em computador validaram a interpretação de que os espaços contêm apenas ar.

A equipe precisava descartar outras explicações naturais para as leituras anômalas. Simulações numéricas exaustivas foram executadas nos laboratórios das universidades envolvidas. Os testes provaram que rachaduras geológicas comuns ou simples variações na densidade do calcário não produziriam os sinais captados pelos sensores. A conclusão apontou inequivocamente para a existência de espaços vazios artificiais.

Dimensões exatas revelam duas câmaras preenchidas por ar

O processamento conjunto das leituras permitiu aos engenheiros calcular o tamanho e a profundidade das anomalias. A primeira cavidade detectada possui proporções mais amplas. Ela está localizada a aproximadamente 1,4 metro de distância da parede externa de granito. Suas medidas indicam cerca de um metro de altura por 1,5 metro de largura. O volume total deste espaço maior gira em torno de 1,5 metro cúbico.

A segunda câmara encontra-se um pouco mais próxima da superfície polida. Os dados mostram que ela fica a 1,13 metro de profundidade. Suas dimensões são visivelmente menores em comparação com o primeiro vazio. O espaço mede 0,9 metro por 0,7 metro, apresentando um volume estimado de 0,63 metro cúbico. As formas irregulares de ambas as cavidades foram levadas em consideração durante os rigorosos cálculos matemáticos.

Christian Grosse, professor especialista em ensaios não destrutivos da Universidade Técnica de Munique, coordenou uma parcela significativa desta análise. Ele ressaltou a importância da metodologia aplicada no sítio arqueológico. O uso de sensores externos garante a preservação absoluta da estrutura original. Nenhum tipo de perfuração, escavação ou acesso físico direto foi realizado para confirmar a presença das câmaras.

Possibilidade de nova entrada altera compreensão do monumento

A pirâmide de Miquerinos destaca-se por manter uma boa parte do seu revestimento original intacto em várias seções. Esta característica faz dela um dos monumentos mais bem preservados de todo o complexo funerário egípcio. A confirmação de que existem espaços vazios atrás da face leste abre novos caminhos para a egiptologia. A provável existência de uma entrada adicional pode reescrever o que se sabe sobre o projeto arquitetônico da época.

O trabalho de campo exigiu uma ampla rede de cooperação institucional. As operações ocorreram sob a supervisão direta do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito e do Ministério do Turismo e Antiguidades. Profissionais da Universidade Estadual de Portland, da empresa Dassault Systèmes e do Instituto de Inovação e Preservação do Patrimônio também colaboraram. Os resultados completos do estudo ganharam publicação oficial na revista científica NDT & E International.

Os pesquisadores mantêm cautela e evitam especular sobre o conteúdo exato ou a função final das cavidades. Eles afirmam apenas que a teoria de uma rota de acesso secundária ganhou um forte embasamento técnico. Os próximos passos da missão incluem o refinamento dos modelos tridimensionais gerados. A equipe planeja integrar novas técnicas de imagem no futuro, sempre mantendo o foco na conservação do patrimônio histórico da humanidade.

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