Aliança automotiva apresenta propulsor híbrido capaz de rodar com eficiência térmica recorde

Renault

Renault - Yusia13/ Shutterstock.com

A indústria automotiva global acaba de registrar um avanço significativo no desenvolvimento de propulsores a combustão interna. A Horse Powertrain, uma empresa conjunta formada pelas montadoras Renault e Geely, revelou o conceito H12. O projeto de engenharia alcançou um consumo inferior a 3,3 litros a cada 100 quilômetros percorridos, medido sob o rigoroso ciclo europeu WLTP. O sistema funciona de maneira integrada com um combustível totalmente renovável fornecido pela petroleira espanhola Repsol.

O desenvolvimento desta mecânica ocorre em um momento de intensa transformação no setor de transportes. As fabricantes buscam alternativas viáveis para reduzir as emissões de carbono enquanto a infraestrutura para veículos puramente elétricos ainda se expande pelo mundo. A nova tecnologia demonstra que os motores tradicionais ainda possuem uma margem considerável para aprimoramentos técnicos. O foco recai sobre a maximização da energia extraída de cada gota de combustível injetada nas câmaras de combustão.

montadora chinesa Geely – Pavel Shlykov / Shutterstock.com

Arquitetura mecânica eleva o patamar de aproveitamento térmico

O grande destaque do projeto reside na sua impressionante eficiência térmica de 44,2%. Este número representa a quantidade de energia gerada pela queima do combustível que é efetivamente transformada em movimento para as rodas. Os motores a gasolina convencionais encontrados na maioria dos carros de passeio operam com uma eficiência que varia entre 35% e 40%. O restante da energia acaba perdido na forma de calor e atrito interno.

A tecnologia parte de uma base estrutural já consolidada no mercado. Os engenheiros utilizaram o bloco de 1.2 litro que atualmente equipa veículos conhecidos do público europeu, como o utilitário esportivo Duster, o Austral e o compacto Clio. O trabalho de pesquisa e modificação foi liderado por equipes de especialistas baseadas na Espanha. Eles focaram em refinar cada componente móvel para extrair o máximo de rendimento.

O conceito H12 surge como uma evolução direta do motor HR12. Este propulsor de três cilindros turboalimentado possui um histórico de produção na fábrica de Valladolid. A equipe de desenvolvimento aplicou conceitos de engenharia de ponta para transformar um motor de rua em um protótipo de altíssimo rendimento, provando a versatilidade do projeto original.

Modificações técnicas garantem redução drástica nas emissões

Para atingir os números recordes de consumo, a arquitetura interna do motor passou por revisões profundas. A taxa de compressão foi elevada para a proporção de 17 para 1. Esta alteração força a mistura de ar e combustível a um estado de extrema densidade antes da faísca, resultando em uma explosão muito mais forte e limpa. O sistema de recirculação de gases de escape também recebeu um desenho inédito para otimizar o controle de temperatura na câmara.

O pacote de atualizações inclui um turbocompressor com calibração específica para operar em regimes de alta eficiência. Um sistema de ignição de alta energia garante a queima completa da mistura comprimida. A transmissão híbrida integrada atua de forma inteligente para reduzir as perdas mecânicas durante as trocas de marcha e a transferência de força para os eixos.

O esforço conjunto de engenharia resultou em uma lista extensa de aprimoramentos focados na economia de combustível e na durabilidade do conjunto mecânico. As principais inovações aplicadas ao bloco incluem:

  • Taxa de compressão ampliada para a proporção de 17:1.
  • Sistema de recirculação de gases de escape totalmente reestruturado.
  • Turbocompressor ajustado com calibração de alta precisão.
  • Módulo de ignição projetado para liberar alta energia.
  • Caixa de transmissão híbrida com gerenciamento eletrônico avançado.
  • Óleos lubrificantes de atrito reduzido fornecidos pela Repsol.

A combinação de todas essas alterações mecânicas entrega um resultado prático expressivo. O conjunto motriz consegue cortar o consumo de combustível em aproximadamente 40% quando comparado à média registrada pelos carros a gasolina novos vendidos na Europa durante o ano de 2023. A redução do atrito interno, auxiliada pelos fluidos especiais, desempenha um papel fundamental nesta economia.

Testes práticos validam o desempenho nas rodovias espanholas

O conceito não ficou restrito aos laboratórios de testes e dinamômetros. Os protótipos equipados com o novo motor rodaram por estradas reais no trajeto entre as cidades de Valladolid e Móstoles, localizadas na Espanha. O percurso rodoviário serviu para validar o comportamento do propulsor em condições normais de tráfego, enfrentando variações de relevo, temperatura e velocidade.

Durante as avaliações no ciclo padronizado WLTP, as emissões de dióxido de carbono atingiram a marca de 76 gramas por quilômetro rodado. O impacto ambiental de longo prazo é substancial. Um automóvel de porte médio equipado com este sistema deixaria de emitir cerca de 1,77 tonelada de CO₂ na atmosfera ao longo de um ano, considerando uma média de uso de 12.500 quilômetros anuais.

O projeto demandou uma colaboração estreita entre diferentes divisões corporativas. As equipes da Horse Technologies em Valladolid trabalharam em conjunto com os pesquisadores do laboratório da Repsol situado em Madri. A Horse Powertrain, que mantém sua sede administrativa em Londres, coordena as operações e possui plantas industriais espalhadas por diversos países.

Combustível de origem orgânica substitui derivados de petróleo

O desempenho ambiental do motor H12 está diretamente ligado ao uso da gasolina Nexa 95. A Repsol produz este combustível inovador a partir do processamento de resíduos orgânicos, óleos de cozinha usados e gorduras de origem animal. O líquido resultante não possui nenhuma gota de petróleo bruto em sua composição, caracterizando-se como uma fonte de energia totalmente renovável.

A grande vantagem técnica da Nexa 95 é a sua compatibilidade universal. O combustível mantém a octanagem 95 e atende a todas as especificações técnicas exigidas pelos órgãos reguladores. Isso significa que ele pode ser colocado no tanque de qualquer motor a gasolina atual sem a necessidade de adaptações mecânicas ou reprogramação eletrônica.

O uso combinado do combustível orgânico com o motor de alta eficiência multiplica os ganhos ecológicos. A queima de um volume menor de líquido, somada à origem renovável da matéria-prima, diminui drasticamente a dependência global das fontes fósseis. O produto já se encontra disponível para os consumidores em postos de abastecimento selecionados na Espanha.

Estratégia corporativa mira a transição energética gradual

A Horse Powertrain opera no mercado global como uma sociedade de peso. O Renault Group e a Geely detêm, cada um, 45% das ações da companhia. A gigante do setor de energia Aramco adquiriu os 10% restantes no final de 2024, injetando capital e conhecimento em combustíveis sintéticos. A empresa atua como fornecedora de motores para marcas renomadas, incluindo Volvo, Nissan e Mitsubishi.

A capacidade de produção anual da joint venture encosta na marca de 5 milhões de motores. Esta escala industrial massiva tem o potencial de acelerar a adoção da nova tecnologia caso o conceito receba o sinal verde para a fabricação em série. Atualmente, cerca de 97% da frota de veículos de passeio em circulação no continente europeu ainda depende de motores a combustão interna para se locomover.

As melhorias contínuas na eficiência térmica oferecem um efeito positivo imediato na qualidade do ar, sem exigir a troca imediata de toda a frota por carros elétricos. O foco comercial da tecnologia está voltado para os veículos híbridos plug-in. Nestes modelos, o motor a combustão entra em funcionamento apenas depois que a carga da bateria elétrica se esgota, garantindo autonomia para viagens longas.

A Horse planeja colocar demonstradores funcionais em veículos de produção real até o início de 2026. Modelos das marcas Renault, Dacia ou da própria Geely aparecem como os candidatos mais prováveis para receber as primeiras versões derivadas deste projeto. Os especialistas do setor automotivo monitoram os testes para avaliar a viabilidade comercial do sistema em mercados fora do continente europeu.

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