A Neue Nationalgalerie, em Berlim, recebe desde abril uma instalação que mistura robótica, inteligência artificial e crítica social. Cães automatizados com rostos de silicone ultra-realistas de figuras como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos percorrem o espaço expositivo. Ocasionalmente, essas máquinas “defecam” imagens impressas — um comentário provocador do artista americano Mike Winkelmann, conhecido como Beeple.
A obra intitulada “Regular Animals” questiona de forma direta como as percepções humanas são moldadas por algoritmos e plataformas tecnológicas.
Como funciona a mecânica da instalação
O mecanismo é sofisticado e intencional. Câmeras integradas aos robôs capturam imagens do ambiente em tempo real. Um sistema de inteligência artificial então processa essas fotos e as transforma para que reflitam a “visão de mundo” da personalidade representada no robô.
- Robôs com cabeças de Elon Musk, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Kim Jong-un
- Sistema de IA que filtra e estiliza imagens conforme a “percepção” de cada personagem
- Câmeras integradas que registram continuamente o espaço expositivo
- Impressoras que produzem as imagens processadas
- Certificados que descrevem ironicamente as fotos como “100% orgânicas”
Cada robô produz imagens diferentes. O cão com o rosto de Pablo Picasso gera imagens em estilo cubista. Já o inspirado em Andy Warhol cria fotos em linguagem pop art. A ironia é proposital: máquinas supostamente sem vontade própria “expressam” a visão artística de seus representantes.
O significado por trás da provocação
Beeple declarou que a função de modelar a percepção humana mudou drasticamente. No passado, artistas e intelectuais exerciam esse papel. Hoje, bilionários da tecnologia decidem o que bilhões de pessoas veem através de seus códigos algorítmicos. Eles controlam fluxos de informação, definem tendências e formatam realidades digitais sem qualquer escrutínio público.
A instalação força os espectadores a confrontar essa verdade incômoda de forma lúdica e absurda. Ao ver máquinas defecando imagens através de rostos icônicos de CEO’s, o público sente-se desconfortável — e é exatamente esse desconforto que o artista busca provocar.
Histórico e precedentes da obra
“Regular Animals” foi exibida originalmente na Art Basel Miami Beach em 2025. Naquela ocasião, Beeple distribuiu fotografias produzidas pelos robôs acompanhadas de certificados que as descreviam com humor mordaz como “100% orgânicas”. Algumas dessas imagens continham códigos QR que permitiam ao público acessar NFTs gratuitos — tokens não fungíveis que possibilitavam monetizar a obra digital.
Essa estratégia de democratizar o acesso à arte digital através de criptoativos reflete a postura do artista sobre propriedade intelectual e circulação de cultura. Ele acredita que arte de qualidade não deve ficar restrita a galerias e colecionadores privados.
Quem é Beeple e seu lugar no mundo da arte
Mike Winkelmann ocupa hoje a terceira posição entre artistas vivos mais valorizados do mundo em leilões, atrás apenas de David Hockney e Jeff Koons. Seu trabalho atinge preços estratosféricos porque combina técnica impecável com mensagem contundente.
Em 2021, Beeple fez história ao vender uma colagem digital por mais de 69 milhões de dólares em leilão da Christie’s. Aquela transação marcou a primeira vez que uma grande casa de leilões oferecia uma obra puramente digital com NFT como garantia de autenticidade e aceitava criptomoedas como pagamento. A venda catapultou tanto o artista quanto a arte digital para a consciência coletiva de colecionadores tradicionais.
Sua prática criativa é rigorosa: Winkelmann publica uma nova imagem online todos os dias há anos. Esses trabalhos funcionam como crítica visual à sociedade moderna, às redes sociais e aos cenários distópicos que emergem de algoritmos descontrolados. Não é arte decorativa — é denúncia em forma de pixel.
Além dos bilionários: outros personagens na instalação
A mostra não se limita a magnatas do Vale do Silício. Robôs com as cabeças de Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, Pablo Picasso e Andy Warhol completam o elenco. A escolha de incluir figuras tão distintas expande o alcance crítico da obra. Kim Jong-un representa o controle totalitário de informação por um líder político. Picasso e Warhol representam artistas que, em seus tempos, moldaram a percepção estética de gerações inteiras. A instalação sugere que essa função — que era prerrogativa de criadores e intelectuais — migrou integralmente para bilionários da tech.

