Pentecostais encontram na “língua dos anjos” expressão fervorosa de fé e êxtase espiritual

Oração

Oração - Foto: leolintang/istock

A chamada “língua dos anjos” — glossolalia em termos técnicos — é uma manifestação religiosa que caracteriza a experiência pentecostal há mais de um século. Trata-se de um fenômeno em que fiéis falam palavras ou sons ininteligíveis durante orações, entendido como sinal de comunhão direta com o Espírito Santo. O prática ocorre tanto em igrejas evangélicas quanto no movimento da Renovação Carismática Católica (RCC).

A fundamentação bíblica dessa experiência remonta aos primeiros séculos do cristianismo. O apóstolo Paulo, em carta aos coríntios, mencionou “o dom de falar em línguas” como uma das manifestações do Espírito Santo. No Evangelho de Marcos, Jesus teria prometido que seus seguidores “falarão novas línguas”. E no livro dos Atos dos Apóstolos, especificamente no episódio do Pentecostes, descreveu-se que os primeiros cristãos “se puseram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia”.

Origens históricas do pentecostalismo moderno

O pentecostalismo contemporâneo nasceu no final do século 19 e início do século 20, consolidando-se como movimento religioso independente. O marco fundador é o chamado Avivamento da Rua Azusa, ocorrido em abril de 1906, em Los Angeles. Naquele momento, comunidades protestantes americanas intensificaram a busca por uma experiência religiosa mais espiritual e emocional.

Na tradição católica, o movimento semelhante surgiu décadas depois. A Renovação Carismática nasceu nos Estados Unidos em 1967 e chegou ao Brasil em 1969. Ambas as vertentes valorizam a glossolalia, embora com interpretações teológicas distintas. O teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, aponta uma questão intrigante: há um “hiato gigantesco” entre os relatos bíblicos antigos e a explosão do movimento pentecostal há pouco mais de cem anos.

Significado teológico e experiência espiritual

Para as igrejas pentecostais, a glossolalia representa evidência do batismo com o Espírito Santo. É uma “segunda bênção” recebida pelo crente convertido em Jesus, manifestada exatamente pela experiência de falar em línguas. O teólogo Daniel Guanaes, pastor na Igreja Presbiteriana do Recreio, no Rio de Janeiro, explica que essa busca é incentivada “sobretudo por meio da prática da oração, dos jejuns, vigílias e cultos”.

Há, contudo, variações conforme a denominação. “No pentecostalismo clássico, as línguas geralmente são entendidas como a evidência inicial do batismo no Espírito Santo e costumam ser tratadas como centrais”, comenta Guanaes. “Já no movimento carismático, as línguas são reconhecidas como um dom espiritual legítimo, mas não como evidência obrigatória.”

O teólogo Huanderson Leite, fundador da Comunidade Católica Ruah Adonai e coordenador estadual da RCC São Paulo, contextualiza que a Igreja Católica tem sua própria interpretação. Para os católicos, a “batismo no Espírito” é uma experiência pessoal com o amor de Deus, cujo “primeiro e principal fruto” é o “desejo de uma mudança de vida” — não necessariamente a oração em línguas.

Raízes teológicas na tradição cristã antiga

Embora o pentecostalismo moderno seja recente, registros históricos indicam que a glossolalia ocorreu em períodos antigos. O teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, cita textos de pensadores cristãos antigos como Irineu de Lyon, Tertuliano, Hilário de Poitiers, Cirilo de Jerusalém e Agostinho de Hipona que mencionavam “carismas” ou “orações em júbilo”. Tomás de Aquino também deixou registros sobre a possibilidade de o “Senhor dar uma oração estranha que não pode ser compreendida”.

A freira carmelita Teresa d’Ávila (1515-1582), figura importante na mística cristã, também documentou experiências semelhantes. “Na tradição mística ela dizia que o Senhor dava uma oração estranha que não pode ser compreendida e que parece uma linguagem sem nexo”, relata o teólogo Leite.

A fundamentação católica moderna da RCC considera ainda dois contextos históricos específicos. Primeiro, o foco que a religiosa italiana Elena Guerra e o papa Leão 13 deram ao Espírito Santo. Segundo, o Concílio Vaticano 2º (1962-1965), que abriu a Igreja para movimentos de leigos e modernizou suas práticas. Muitos católicos desconhecem que essa manifestação ocorra em sua tradição porque é “uma experiência que acontece no espaço do grupo de oração, principalmente”, observa Araujo.

Perspectivas psicológicas e neurológicas

A psicologia e a neurociência oferecem compreensões complementares do fenômeno. Do ponto de vista neuropsicológico, a glossolalia é associada a “estados alterados de consciência, nos quais há uma diminuição do controle racional e um aumento da expressão automática da fala”. Nesses momentos, áreas do cérebro ligadas à linguagem estruturada reduzem sua atividade, enquanto regiões associadas à emoção ganham protagonismo.

Daniel Guanaes, na posição dupla de pastor e psicólogo, ressalva que “a competência da psicologia não é avaliar a genuinidade da experiência religiosa”, mas entender o que está acontecendo sem recorrer “necessariamente a uma explicação sobrenatural”. Ele observa que a fala em línguas “soa fluida para quem pratica, mas não segue uma estrutura linguística convencional”.

A psicóloga Gabriela Picciotto, autora do livro “Voz da Alma”, descreve a glossolalia como “um estado alterado de expressão e consciência, no qual a pessoa acessa um fluxo vocal que não segue a lógica da linguagem estruturada”. Ela ressalta que “a pessoa não está ‘fora de si’, mas em um estado diferente do habitual, menos racional e mais conectado ao sentir”.

Dimensões sociais e de identidade

A psicologia social oferece outro ângulo. Victor Richarte, psicólogo especializado em comportamento religioso, entende que a glossolalia funciona como “validação para o crente”. Aquele que fala em línguas “se destaca no grupo”, conferindo-lhe “certa identidade” e “validação pela comunidade como um momento especial”. Para ele, em determinados contextos a manifestação demonstra “uma certa promoção na hierarquia religiosa”.

A psicóloga Mariana Malvezzi, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing, contextualiza que a glossolalia “se configura como uma prática complexa, situada na interface entre corpo, cultura e experiência subjetiva”, funcionando também como “mecanismo de pertencimento e expressão da consciência religiosa”.

Picciotto conclui que, embora a oração em línguas não seja comunicação “no sentido tradicional”, é significativa “dos pontos de vista emocional e simbólico”. Para ela, “o importante é reconhecer que nem toda comunicação precisa ser racional para ser significativa”.

Divergências entre tradições evangélicas

Não há unanimidade sequer entre evangélicos. Há igrejas que reconhecem a possibilidade dos dons, mas não os colocam como “centrais” nem como “evidência normativa” da ação do Espírito. Outras adotam uma leitura “cessacionista”, entendendo que certos dons extraordinários tiveram função específica “na igreja primitiva” e não se repetem da mesma forma atualmente. Teologicamente, o pentecostalismo costuma entender essa oração como um dom “concedido ao crente como sinal e meio de edificação espiritual”. Em muitas correntes, as línguas indicam “uma experiência de maior capacitação para a vida cristã e para o serviço”.