China inaugura primeira fábrica de robôs humanoides com produção de 10 mil por ano

Robôs humanoides

Robôs humanoides - Foto: figure_robot/Instagram

Shenzhen, a antiga vila de pescadores transformada no Vale do Silício da China, recebeu a primeira linha de produção de humanoides do país. A fábrica é capaz de fabricar 10 mil robôs por ano — um a cada 30 minutos. A reportagem foi divulgada pelo Jornal Nacional nesta sexta-feira (1º), durante série especial sobre a transformação tecnológica chinesa.

O país apresentou os robôs como atração principal do Festival da Primavera, celebração do Ano Novo Chinês com 400 milhões de espectadores, o programa de televisão mais assistido do mundo. Na apresentação, os humanoides dançaram e realizaram movimentos de kung fu, demonstrando capacidade significativamente superior à de modelos da mesma empresa identificados nove meses antes.

Desenvolvimento acelerado em 45 anos

Shenzhen era apenas campos de arroz e zona rural até 1979, quando o presidente Deng Xiaoping a escolheu para ser um laboratório de capitalismo dentro de um regime comunista. A primeira zona econômica especial criada ali funcionaria como reflexo de Hong Kong, mas sob controle estatal. Quatro décadas e meia depois, a cidade abriga megaempresas de tecnologia e se posiciona como centro global de inovação.

A população chinesa encolhe desde 2022 e envelhece continuamente. Salários dobraram na última década, mas o custo de vida também cresceu proporcionalmente. Diante desse cenário, o país acelerou pesquisas em robótica humanizada para suprir demandas laborais e de cuidado pessoal.

Expansão do mercado de humanoides

China já concentra mais de 140 empresas construindo robôs humanoides. Essas fabricantes desenvolveram 330 versões diferentes até o momento. Os aplicativos variam amplamente:

  • Um robô orienta passageiros do metrô de Cantão pela segurança antes de embarque
  • Atendentes em farmácias de Pequim realizam triagem de clientes
  • Modelos especializados coletam maçãs em plantações
  • Uma versão com expressões faciais simula comportamento de avó para companhia doméstica

Perto de Shenzhen, uma das fabricantes desenvolveu robôs capazes de trabalhar em montadoras de automóveis, transportando peças entre posições. Os olhos funcionam como câmeras, permitindo adaptação a funções diversas através de visão computacional.

china – PreciousArt/Shutterstock.com

Desafios técnicos e comercialização

Coordenação motora fina das mãos permanece como uma das maiores dificuldades para engenheiros chineses. Uma empresa afirma ser a primeira do mundo a alcançar nível de precisão em humanoides que permite manipulação delicada de objetos. Outro fabricante trabalha para reduzir custos a ponto de tornar a compra doméstica viável para famílias chinesas.

O governo chinês criou centros de treinamento de humanoides em várias cidades. Neles, robôs aprendem através de simulações de vida real. Ao cair repetidamente, conseguem melhorar equilíbrio. Ao deixar cair livros várias vezes, aprendem a posicioná-los corretamente em prateleiras. Esse processo ressembra apresentações escolares — demonstram habilidades específicas, mas ainda não funcionam autonomamente sem supervisão constante.

Competição global e autonomia

Estados Unidos compete intensamente nesse mercado. O Optimus, robô de Elon Musk, promete executar tarefas domésticas e laborais por 20 mil dólares cada, posicionando-se como fundamental para a expansão da empresa. Outro modelo americano, o Neo, já é comercializado pelo mesmo valor para limpeza residencial. Entretanto, o Neo funciona com operação remota — um funcionário da empresa manipula o robô por controle remoto quando o proprietário sai de casa.

A corrida tecnológica entre China e Estados Unidos visa alcançar robô verdadeiramente autônomo. Uma vez exportados globalmente, esses humanoides coletarão dados de funcionamento interno de empresas em todo o mundo. Essas informações alimentarão modelos de inteligência artificial próprios, construindo algoritmos de poder computacional sem precedentes. A questão central deixa de ser se os robôs substituirão humanos, mas quando e em quais contextos — e quanto poder será delegado a eles.