Um levantamento do World Weather Attribution divulgado nesta quinta-feira aponta que aproximadamente um quarto dos jogos da Copa do Mundo 2026 será disputado sob condições de calor consideradas perigosas para jogadores e torcedores. A análise revela que o risco térmico aumentou significativamente em comparação com o torneio de 1994, realizado também na América do Norte.
Os pesquisadores identificaram que ao menos 25% das partidas ultrapassarão os 26°C de Temperatura de Bulbo Úmido e Globo (WBGT), indicador que mede o estresse térmico no corpo humano durante exercício sob luz solar direta. Em cenários ainda mais críticos, cinco jogos devem exceder os 28°C, nível considerado inseguro pela FIFPRO, organização que representa jogadores profissionais globalmente.
O que é o índice WBGT e como funciona
O WBGT leva em conta múltiplas variáveis atmosféricas para calcular o risco real de calor extremo. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) utiliza este indicador considerando:
- Temperatura do ar
- Umidade relativa
- Velocidade do vento
- Ângulo solar
- Cobertura de nuvens
Chris Mullington, professor do Imperial College London e colaborador do estudo, destaca que acima de 26°C o desempenho dos atletas já sofre comprometimento. Quando o índice ultrapassa 28°C, o risco de doenças graves relacionadas ao calor intensifica-se não apenas para os jogadores, mas também para centenas de milhares de torcedores presentes nos estádios.
Cidades mais críticas e riscos por localização
Miami encabença o ranking de risco, com probabilidade quase certa de calor intenso em todas as partidas disputadas na cidade. O Brasil será diretamente afetado: a partida contra a Escócia, válida pela terceira rodada, ocorrerá justamente em Miami sob essas condições adversas.
Kansas City, no Missouri, também apresenta risco significativo. A pesquisa aponta que o jogo Holanda x Tunísia tem 7% de chance de ultrapassar o limite de 28°C, o que segundo diretrizes da FIFPRO deveria levar ao adiamento da partida.
No Texas, Dallas e Houston registram mais de 30% de probabilidade de marcar WBGT acima de 28°C fora das arenas, mesmo com estádios climatizados. A final da Copa, marcada para Nova Iorque e Nova Jersey, também enfrenta preocupações. O risco de interrupção por temperaturas extremas aumentou em cerca de 50% desde 1994 na região.
Friederike Otto, Professora de Ciência do Clima no Imperial College London, alerta que o fato de a própria final enfrentar risco não desprezível de ser disputada em calor extremo serve como alerta urgente sobre os efeitos das mudanças climáticas em eventos globais.
Medidas de proteção adotadas pela Fifa
Em dezembro de 2025, a entidade anunciou implementação de duas pausas para hidratação em todos os jogos, independentemente da localização ou temperatura. Cada pausa durará três minutos, distribuída um em cada tempo da partida.
Manolo Zubiria, diretor de Torneios dos EUA para a Copa 2026, explicou a iniciativa: “Em todas as partidas, independentemente do local, da cobertura do estádio ou da temperatura, haverá uma pausa de três minutos para hidratação. Serão três minutos do apito inicial ao apito final em ambos os tempos”.
A pausa permite que a temperatura corporal dos atletas reduza, aliviando a sobrecarga cardiovascular e permitindo recuperação mínima durante o jogo. Pesquisadores sublinham que a hidratação constante é fundamental tanto para jogadores quanto para espectadores expostos a períodos prolongados de calor.
Consequências fisiológicas do exercício em calor extremo
Quando atletas praticam exercício intenso sob altas temperaturas, múltiplos efeitos danosos podem ocorrer. As manifestações mais comuns incluem câimbras, exaustão pelo calor e insolação. Sinais iniciais como fraqueza muscular ou tontura podem parecer inofensivos, mas representam alertas do organismo.
A exaustão térmica ocorre quando perda excessiva de sais e líquidos acontece devido ao calor contínuo. Neste estado, os sintomas incluem tonturas, sensação de desmaio iminente, má coordenação motora, fadiga, dor de cabeça, visão embaçada, dores musculares, náusea e vômitos. A insolação, condição mais grave, acontece quando a temperatura corporal supera os 40°C, com risco potencial de comprometimento neurológico e convulsões. Especialistas alertam que nestas situações a hidratação é absolutamente essencial para prevenir danos permanentes ao corpo.
Os pesquisadores da WWA ressaltam que as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana tornaram essas condições significativamente mais prováveis ao longo dos anos, aumentando de forma mensurável os riscos à saúde humana em eventos de grande escala.

