Foi um verão escaldante. Um período de estádios banhados de sol, ingressos esgotados e uniformes marcantes, de brilhos individuais e gols icônicos, onde os acontecimentos fora de campo ecoaram tanto quanto o drama dentro das quatro linhas. Um evento de estrelas, listras e glamour de celebridades, em que o maior palco do futebol ganhou um brilho hollywoodiano.
Foi o verão em que o “soccer” desembarcou nos Estados Unidos, aterrissando em uma pista de glitz americano, recebido por rostos famosos de todos os gêneros – de Stevie Wonder a Robin Williams, Oprah Winfrey a Diana Ross.
“Nós criamos a impressão de que era um evento imperdível, e que as pessoas precisavam se envolver”, recorda Alan Rothenberg, ex-presidente da federação americana de futebol. “A forma como organizamos a Copa do Mundo inteira mudou tudo.”
Esta é a história da Copa de 1994 nos EUA, um verão futebolístico que despertou um continente.
O sorteio e uma dose de glamour hollywoodiano
Apenas nove anos antes, a única liga profissional do país havia falido, encerrando uma década glamorosa da North American Soccer League que começou com o New York Cosmos pagando um salário recorde mundial ao lendário brasileiro Pelé para tirá-lo da aposentadoria em 1975.
Franz Beckenbauer, Carlos Alberto e Johan Neeskens seguiram o brasileiro para o lotado Giants Stadium, onde o Bugs Bunny era mascote e estrelas como Barbra Streisand, Mick Jagger e Muhammad Ali se misturavam nos vestiários com jogadores e presidentes.
George Best, Johan Cruyff, Gerd Muller. Uma leva de grandes nomes do futebol cruzou o Atlântico antes que a super-expansão, gastos excessivos e queda de público – somados ao fracasso dos EUA em sediar a Copa de 1986 – fizessem a era do champanhe perder o brilho.
Deixou, porém, brasas de paixão pelo esporte, o suficiente para convencer a Fifa de que os Estados Unidos ainda eram terreno fértil para expandir a popularidade do futebol, merecendo ser a primeira nação fora da Europa ou América Latina a sediar o principal evento do esporte.
Isso veio com uma condição: criar uma nova liga profissional de futebol.

A Fifa queria que a Major League Soccer começasse junto com a Copa do Mundo. Rothenberg – cheio de ideias para americanizar o jogo, como permitir que jogadores circulassem os travessões como no hóquei no gelo – convenceu o então secretário-geral da Fifa, Sepp Blatter, de que a liga seria lançada se o torneio fosse um sucesso.
Os primeiros sinais do brilho que os EUA queriam trazer à Copa apareceram durante o sorteio no Caesars Palace, em Las Vegas. James Brown e Smokey Robinson se apresentaram, enquanto o comediante Robin Williams usou uma luva cirúrgica para sortear as seleções e fez piada com Blatter.
Houve uma semana de shows no icônico Hollywood Bowl, com de tudo: da Orquestra Sinfônica de Moscou ao Red Hot Chili Peppers. Celebridades foram levadas a todos os eventos possíveis – Stevie Wonder, Enrique Iglesias, Barry Manilow, Liza Minnelli, Bryan Adams, até os boxeadores Evander Holyfield e Oscar De La Hoya participaram da turnê promocional.
“Nós não achávamos que havia muito conhecimento ou interesse na Copa do Mundo nos EUA”, conta Rothenberg à BBC Sport. “O que sabíamos é que os americanos adoram um grande evento, então nos cercamos de celebridades e artistas.”
“Fizemos muitas coisas que nunca haviam sido feitas antes. E deu certo.”
Um sonho americano que começou em um trailer
A Copa do Mundo pode ter sido polvilhada com poeira de estrelas, mas quando Rothenberg chegou como presidente da federação americana de futebol e depois como chairman do comitê organizador, encontrou uma organização “mãe e pop” gerida por voluntários, sem infraestrutura de futebol, operando em um trailer alugado gratuitamente pelo comitê olímpico americano em Colorado Springs.
Eles aproveitaram a Copa para atrair patrocínios e instalações melhores, e pediram às cidades-sede serviços de primeira linha, de transporte e segurança a estádios prontos para lotar. Como Rothenberg lembra de ter dito ao prefeito de Chicago, que havia recebido o Papa no ano anterior: “Mais gente se importa com a Copa do Mundo, então espero o mesmo tratamento.”
Os EUA precisavam crescer também dentro de campo. A seleção se classificou para a primeira Copa em 40 anos em 1990, mas perdeu todos os jogos.
“A apresentação foi bastante desastrosa”, diz Rothenberg. “Tivemos que descobrir como tornar a equipe crível porque, se caíssemos de cara, aumentaria os céticos. Éramos tão desrespeitados em termos de capacidade.”
Dos que formaram o elenco de 1994, sete jogavam no exterior, o resto eram jogadores de faculdade ou ligas locais sob contratos centrais da federação, sob orientação do experiente técnico sérvio Bora Milutinovic, que havia dirigido México e Costa Rica em Copas.
Milutinovic praticamente buscou o cargo por conta própria, rastreando o assistente de Rothenberg, Steve Sampson, em San Jose e insistindo em ser contratado. Em 1991, o treinador nômade, que o zagueiro americano Alexi Lalas descreveu como uma mistura de “Yogi Bear e Yoda”, superou Rinus Michels e Carlos Queiroz para o posto.
Milutinovic comandou a seleção como um time de clube – montando uma residência de 16 meses fora de Los Angeles, onde cada treino incluía futebol tênis. Eles disputaram mais de 90 jogos em três anos antes do torneio, vencendo a fraca Inglaterra de Graham Taylor na US Cup de 1993. O “piada internacional do futebol”, criticou o Independent.
O País de Gales ficou de fora do torneio de forma agonizante. Escócia, Irlanda do Norte e Inglaterra também não se classificaram, e Rothenberg escreveu em seu livro ‘The Big Bounce: The Surge That Shaped the Future of US Soccer’ que as autoridades ficaram aliviadas por não terem “hooligans do Reino Unido chegando pelos aeroportos para causar estragos”.
Oprah, OJ e a grande abertura
Os Estados Unidos viviam um momento de mudança cultural. O mundo havia perdido Kurt Cobain pouco antes, Michael Jordan jogava beisebol nas ligas menores e o “soccer” precisava competir com uma sequência de blockbusters de verão – Forrest Gump, Speed, The Mask. O Rei Leão estreou no dia em que o Brasil bateu Camarões por 3 a 0, com Romário e Bebeto como protagonistas de seu próprio blockbuster.
Oprah Winfrey recebeu uma audiência mundial de 750 milhões na cerimônia de abertura no Soldier Field, em Chicago, mas acabou caindo no palco. Diana Ross chutou uma penalidade para fora e os travessões desabaram mesmo assim, e a vitória da Alemanha por 1 a 0 sobre a Bolívia virou nota de rodapé naquela noite quando viaturas perseguiram O.J. Simpson por quase duas horas em uma lenta caçada pela Califórnia.
O goleiro italiano Gianluca Pagliuca e seus companheiros acompanharam tudo do Somerset Hills Hotel, em Nova Jersey, enquanto se preparavam para enfrentar a República da Irlanda no dia seguinte.
“Ficamos chocados, e lembro muito claramente”, recorda ele. “Vimos toda a perseguição ao vivo na TV. Parecia assistir a um filme – algo quase irreal. Estávamos todos colados na televisão.”
Os Azzurri tiveram uma recepção calorosa em Nova Jersey de uma grande diáspora italiana que acompanhava cada movimento deles. “Foi realmente maravilhoso”, acrescenta Pagliuca. “Sempre havia seguranças controlando a situação porque havia tantos italianos morando ali que vinham pedir fotos e autógrafos.”
Os irlandeses não se intimidaram com uma torcida que se esperava predominantemente italiana, nem com o clima – alguns jogadores perderam de oito a nove libras em treinos encharcados de suor –, embora o técnico Jack Charlton e o atacante John Aldridge tivessem trocas acaloradas com os árbitros de linha mais adiante no torneio.
“No ônibus a caminho do estádio, só víamos bandeiras e camisas irlandesas, o que nos deu muita esperança”, contou Ray Houghton à BBC World Service Sportsworld.
Entre eles estava a futura estrela da seleção feminina americana Heather O’Reilly, uma menina de nove anos inspirada por uma Copa do Mundo à sua porta.
“Com um nome como O’Reilly, dá para imaginar a empolgação em torcer pela Irlanda”, acrescenta a jogadora com 230 jogos pela seleção. “Lembro de gente fazendo embaixadinhas no estacionamento, cozinhando comida, ouvindo os tambores – toda a ocasião causou um enorme impacto em mim.”
O chute de voleio em curva de Houghton garantiu uma vitória surpreendente por 1 a 0 no Giants Stadium, mesmo que ele quase tenha entrado em campo com o uniforme errado – no túnel, a Itália também vestia branco.
“Todos nos olhamos, dizendo ‘bem, um de nós está errado, quem é?’”, explica ele. “Descobrimos que éramos nós. Tivemos que correr de volta. Dá para imaginar Jack Charlton reclamando com o roupeiro por ter errado! Isso realmente nos acalmou. Saímos rindo e brincando para os hinos nacionais.”
Os Estados Unidos, por sua vez, estrearam com um empate por 1 a 1 contra a Suíça. Eric Wynalda – com estrelas patrióticas sobre o uniforme azul jeans – cobrou uma falta no ângulo após treinos noturnos sob o teto do Pontiac Silverdome, onde o elenco assistiu a um vídeo motivacional.
“Pedi ao gerente de equipamentos para trazer minhas chuteiras e algumas bolas”, conta Wynalda. “Queria ver se conseguia cobrar algumas faltas. As duas simplesmente voaram. Pensei, ‘cara, a bola se comporta diferente neste estádio’.”
O rugido quando o chute de Wynalda entrou o fez se sentir “elétrico”, e quando voltou ao hotel depois, um de seus ídolos, que estava na transmissão, esperava no bar: “Chris Waddle acena para mim e diz ‘você está pagando as próximas rodadas aqui!’.”
O jornalista Ledio Carmona, que acompanhava o Brasil no torneio, encontrou um “interesse curioso” entre o público americano. “Havia certo exotismo no olhar deles”, explica. “Tipo, o que é essa fascinação que cativa tanta gente com este esporte?”
Rothenberg diz que os dirigentes da Fifa ficaram “boquiabertos” com os grandes públicos: “Lembro de Sepp Blatter me ligando, era um jogo da fase de grupos e estava lotado, ele estava simplesmente pasmo.”
A saída de Maradona e a tragédia colombiana
O implacável Gabriel Batistuta fez um hat-trick enquanto a Argentina, que se classificou via repescagem contra a Austrália, voou no início com uma vitória por 4 a 0 sobre a Grécia. Mas a participação do outro goleador foi a verdadeira história.
Diego Maradona cumpriu suspensão de 15 meses após teste positivo para cocaína em março de 1991. Estava acima do peso e fora de forma quando retornou, primeiro no Sevilla e depois brevemente no Newell’s Old Boys, e parecia improvável que chegasse à Copa antes de entrar em um rigoroso regime de treinamento pessoal, perder 12 quilos e declarar: “Estou cansado de todos que diziam que eu estava gordo e não era mais o grande Maradona. Eles verão o verdadeiro Diego na Copa do Mundo.”
O gol sublime do jogador de 33 anos contra a Grécia foi um instantâneo de seu glorioso passado – troca rápida de passes curtos na entrada da área, dois toques sutis para criar espaço e um chute colocado de esquerda no ângulo. A comemoração foi ainda mais icônica, correndo em direção à câmera e rugindo para a lente – boca aberta, olhos arregalados.
Aquele seria o último gol de Maradona pela Albiceleste, com o ato final do pequeno mago criando os dois gols de Claudio Caniggia em uma vitória por 2 a 1 sobre a Nigéria no jogo seguinte.
“Tive que marcá-lo homem a homem”, lembra o nigeriano Sunday Oliseh. “Nunca vi um jogador controlar a bola daquele jeito. Ele fez a diferença – puro gênio.”
A Copa da Argentina entrou em caos quando Maradona apresentou amostras de urina do jogo com traços de substâncias proibidas. Ele alegou inocência – seu treinador pessoal comprou o suplemento errado, Ripped Fuel, em vez do habitual Ripped Fast. Mas o filho favorito da nação foi suspenso antes da última partida da fase de grupos.
“Diego estava desesperado, estava destruído, começou a chorar, se trancou no quarto e não quis falar com ninguém”, contou o Dr. Roberto Peidro, da equipe médica argentina, à BBC’s Sporting Witness, comparando o clima no CT a “um funeral”.
A Argentina era uma das favoritas antes da suspensão de Maradona, mas perdeu para a Bulgária inspirada por Hristo Stoichkov em Dallas e depois caiu nas oitavas para outra surpresa, a Romênia.
Foi a Colômbia, porém, que se classificou automaticamente após golear a Argentina por 5 a 0 em Buenos Aires no ano anterior – o que inflou as expectativas para suas chances nos EUA. Pelé, Johan Cruyff e Arrigo Sacchi apontavam os colombianos como possíveis campeões.
Com suas camisas azuis invertidas em Pasadena, a Colômbia também tropeçou contra a Romênia na estreia – Gheorghe Hagi surpreendeu o goleiro Oscar Córdoba, que havia substituído René Higuita após a prisão dele no ano anterior.
Em meio a ameaças de morte ao técnico Francisco Maturana por causa da escalação, enviadas via telas de TV no hotel da seleção e atribuídas a cartéis de drogas do país, a Colômbia enfrentou uma novata seleção dos EUA em seguida.
A tarefa ficou mais dura quando o zagueiro Andrés Escobar mandou a bola contra o próprio gol no primeiro tempo. Earnie Stewart ampliou para os donos da casa diante de quase 94 mil torcedores no Rose Bowl antes do consolo tardio de Adolfo Valencia. Os Cafeteros bateram a Suíça na última rodada, mas foram eliminados.
Ao retornar à Colômbia, Escobar escreveu uma coluna no El Tiempo dizendo: “A vida não acaba aqui”. Porém, apenas 10 dias após o gol contra, o jogador de 27 anos foi baleado morto do lado de fora do Bar El Indio, em Medellín, após uma discussão no estacionamento.
Foi retratado como um assassinato por vingança. Outros, incluindo o técnico Maturana, achavam que Escobar foi uma vítima infeliz da sociedade violenta da Colômbia na época. Provou ser um fim trágico para a era dourada do futebol colombiano.
Uma saída gloriosa para os donos da casa
Não só os EUA avançaram do grupo como ganharam um atrativo confronto de oitavas contra o Brasil – a empolgação só cresceu porque seria disputado em 4 de julho.
“Aquilo foi uma guerra”, lembra o jornalista Carmona. “Os americanos deram tudo o que podiam para vencer no Dia da Independência e o jogo foi dramático. Um duelo típico de Copa do Mundo.”
Leonardo foi expulso por uma cotovelada no meio-campista americano Tab Ramos no final do primeiro tempo – o impacto, disse Ramos, o fez sentir que ia morrer, mas o técnico Milutinovic tentou colocá-lo de volta antes que os médicos interviessem e o brasileiro arrependido o visitou no hospital depois.
“Entrei como substituto de Tab”, conta Wynalda. “Não sabia se ele ia sobreviver àquilo. Ele estava péssimo. É um grande amigo, e foi realmente difícil. Saímos de campo bem rápido, e a primeira pergunta foi ‘como está o Tab? Ele está bem? Ainda está conosco?’ Estávamos muito preocupados.”
Os donos da casa resistiram até Bebeto marcar nos minutos finais. Para milhares de torcedores americanos com bandeiras, foi uma saída gloriosa, prova de que os EUA tinham uma equipe crível.
“Por mais tristes que estivéssemos, fomos para um evento logo depois do jogo e Robin Williams estava lá”, acrescenta Wynalda. “Em 30 segundos ele nos fez rir e esquecer. Só reforçou o quanto estava orgulhoso e a América do que havíamos feito.”
Para Rothenberg, o confronto foi “um ponto de virada para o soccer” nos EUA. “Todo mundo conhece o entusiasmo pitoresco dos torcedores brasileiros. [Mas] havia um número igual de fãs americanos com rostos pintados, acenando bandeiras, dançando nas ruas.”
“Foi aí que pensei ‘sabe, nós nos tornamos uma nação de soccer’. Acho que tem sido assim desde então.”
A Itália, enquanto isso, passou do grupo em terceiro lugar depois que as quatro equipes terminaram empatadas em pontos. Pagliuca levou suspensão de dois jogos pela expulsão contra a Noruega – o primeiro goleiro a ser expulso em uma Copa –, por isso perdeu a vitória nas oitavas na prorrogação contra a Nigéria.
O substituto Luca Marchegiani se saiu bem, deixando Pagliuca se perguntando se seu torneio havia acabado. Ele estava no quarto do hotel assistindo golfe com o companheiro Roberto Donadoni quando o assistente Carlo Ancelotti passou para confirmar que o goleiro voltaria contra a Espanha.
“Para mim, a Copa realmente começou naquela noite”, diz Pagliuca. “No jantar, obviamente eu estava muito feliz, mas não podia demonstrar.”
“Depois, costumávamos caminhar para digerir. Enquanto fumava um cigarro, Marchegiani veio e perguntou se eu sabia de algo. Me senti mal, mas tinham me pedido para guardar segredo.”
Os ícones que definiram um verão
O verão futebolístico de 1994 estava se tornando um para atuações individuais icônicas. Hristo Stoichkov carregou a Bulgária até as semifinais com seis gols, dividindo a Chuteira de Ouro com o russo Oleg Salenko, que marcou cinco em um único jogo contra Camarões.
“Stoichkov era um jogador excepcional, muito único”, diz Pagliuca, cuja Itália acabou com a campanha búlgara que incluiu eliminar a campeã Alemanha. “Ele estava no auge da carreira e muito perigoso, mas nós o marcamos extremamente bem.”
Stoichkov ganhou a Bola de Ouro naquele ano, mas a Itália teve seu próprio herói em Roberto Baggio. O Divino Rabo de Cavalo foi o sacrificado quando Pagliuca foi expulso contra a Noruega na fase de grupos, mas inspirou os Azzurri nos mata-matas.
Baggio empatou tarde contra a Nigéria nas oitavas e depois classificou a Itália nos pênaltis na prorrogação. Ele driblou Andoni Zubizarreta para marcar nos minutos finais contra a Espanha nas quartas e produziu dois gols mágicos nas semifinais contra a Bulgária no Giants Stadium.
“A partir das oitavas ele explodiu e nos carregou até a final. Marcou gols incrivelmente importantes”, lembra Pagliuca.
“Ele não era só um grande jogador, mas também uma pessoa genuinamente boa. Tinha uma personalidade solar, muito brincalhão, sempre brincando e rindo – perfeito para o vestiário. Tínhamos um grande grupo. Nos sentíamos bem juntos.”
Do outro lado da chave estava o talentoso romeno Gheorghe Hagi que, após sair do Real Madrid para o Brescia, passou a temporada na Série B e estava insatisfeito com o clube por recusar uma transferência para substituir Maradona no Napoli.
“A motivação da Copa o fez se reinventar. Do nada, começou a treinar mais duro e melhor que todo mundo”, recorda o jornalista romeno Emanuel Rosu.
“Ele dizia que era uma ‘bomba’ antes da viagem dos romenos aos EUA, tamanha a preparação. Dizia às pessoas ao redor que a Romênia podia ganhar o torneio. Basicamente puxou toda a equipe na direção certa. E a nação também. Estávamos saindo da escuridão comunista.”
A campanha da Romênia terminou em derrota nos pênaltis para a Suécia nas quartas, outra das equipes vibrantes do torneio, mas as atuações de Hagi conquistaram corações em casa e impressionaram o mundo.
“Foi a maior alegria dos anos 90, depois da sangrenta revolução que matou milhares e depois que os mineiros vieram a Bucareste duas vezes, há poucos anos, espancando pessoas e opositores do regime”, acrescenta Rosu.
“A Romênia 94 trouxe paz à sociedade e nos iluminou a todos. Houve muitos votos escritos à mão para Hagi nas eleições presidenciais que vieram alguns anos depois. Ele era tão popular.”
Bebeto e Baggio em lágrimas
Em uma referência a Italia 90, os Três Tenores se apresentaram no Dodger Stadium, em Los Angeles, na noite anterior à final diante do presidente George Bush e uma plateia com Arnold Schwarzenegger, Frank Sinatra, Nicole Kidman e Tom Cruise.
Os dirigentes da federação americana, por sua vez, se davam tapinhas nas costas. Esta foi uma Copa que entregou públicos recordes, com 3,6 milhões de torcedores em 52 jogos, gerou mais gols por partida que quatro anos antes e lucros elevados.
O Brasil, ainda de luto pelo herói nacional Ayrton Senna após acidente fatal oito semanas antes, montou o confronto com a Itália no Rose Bowl, em Pasadena, ao bater a Suécia, depois de também eliminar os EUA e a Holanda – esta última lembrada pela icônica comemoração “embalar o bebê” de Bebeto.
Dois dias antes, o atacante recebeu uma ligação no hotel da equipe da esposa dizendo que o filho havia nascido em segurança. Em uma hora, a rede Globo conectou o jogador da Seleção com a esposa e o recém-nascido via vídeo. Mattheus, hoje meio-campista do Tampa Bay Rowdies na segunda divisão americana, completa 32 anos neste verão.
“Foi totalmente espontâneo”, contou Bebeto depois à Fifa. “Ainda fico emocionado falando sobre isso.”
O jogo de semifinais do Brasil também foi no Rose Bowl, enquanto a Itália precisou voar da costa leste para um pontapé inicial ao meio-dia no sol da Califórnia. Jornalistas, diz Carmona, “derretiam nas arquibancadas”, mas Pagliuca sentiu que estava mais fresco no gramado.
“Havia menos umidade”, conta ele. “Lembro que estava bem mais quente em Nova York e Boston. Havia até uma brisa na final.”
O caminho do Brasil e da Itália até a final
O jogo, porém, foi um tenso empate sem gols. O momento mais marcante foi Pagliuca deixar um chute especulativo de longa distância de Mauro Silva escapar por entre os dedos e bater na trave. O goleiro beijou a luva e deu um tapinha na madeira aliviado.
“Beijei a trave porque salvou minha carreira”, sorri ele. “Se aquela bola entrasse, eu seria marcado para a vida toda. Todo mundo lembraria do erro de Pagliuca na final.”
Em vez disso, é lembrado pelo chute perdido de Baggio na decisão por pênaltis. Três jogadores já haviam desperdiçado – o italiano Franco Baresi e Daniele Massaro, e o brasileiro Márcio Santos. O momento decisivo do Brasil caiu sobre o homem que carregou a Itália até a final. Baggio mandou para as nuvens. Um fim agonizante para seu torneio mágico.
“Obviamente houve enorme decepção”, recorda Pagliuca, que abraçou o atacante. “Ele se sentiu particularmente culpado, mas dissemos que ele nos levou até lá, então não tinha nada pelo que se desculpar.”
“Isso é futebol. Você pode ser herói num momento e outra coisa no seguinte. Tentamos confortá-lo o máximo possível. Ele estava muito abalado. Até hoje, quando o vejo, às vezes falamos sobre isso. As emoções daquele dia vão ficar comigo para sempre.”
Houve alívio no acampamento brasileiro, mas o debate sobre o estilo cauteloso da equipe – que gerou vaias nas eliminatórias – continuou.
“Os árbitros também receberam muitas críticas, com um deles agredindo um jornalista durante a festa do título”, lembra Carmona. “E havia também uma disputa de poder entre a mídia do Rio de Janeiro e de São Paulo, cada uma com suas preferências técnicas e táticas. Era um clima tenso, mesmo na celebração.”
O técnico do Brasil, Carlos Alberto Parreira, permaneceu imperturbável, citando um dos grandes artistas americanos para responder aos críticos. “Como Frank Sinatra naquela música, eu fiz do meu jeito”, disse ele.
O nascimento da Major League Soccer
A Copa do Mundo foi um sucesso, e a Major League Soccer foi lançada dois anos depois.
“Na minha opinião, a Copa de 1994 teve um grande papel em aproximar os americanos do futebol”, afirma Pagliuca.
Rothenberg acrescenta: “Havia muito ceticismo da maioria dos seguidores do futebol no mundo que coçavam a cabeça dizendo: ‘Como esta nação não-soccer pôde organizar isso?’ Acho que transformamos os céticos em crentes de verdade.”
Eric Wynalda marcou o primeiro gol da MLS quando o San Jose Clash bateu o DC United por 1 a 0 em abril de 1996 e recebeu uma ligação comemorativa de Jürgen Klinsmann, que disse: “Acho que você não percebe o quão importante foi esse gol.”
A MLS hoje tem 30 equipes. Recebeu superestrelas globais como David Beckham, Zlatan Ibrahimovic, Kaká, Wayne Rooney e Lionel Messi, mas Rothenberg diz que teria sido “um desastre” se 1994 não tivesse dado certo.
A Fifa rejeitou algumas propostas iniciais como a ideia de “hóquei no gelo” de Rothenberg ou tornar a bola e os gols maiores: “Pensamos em dividir o jogo em quartos. Cogitamos traves mais largas, mas no fim foi rejeitado. Sepp Blatter disse: ‘não podemos mudar o tamanho da rede em todos os países do mundo!’”
Em vez disso, Rothenberg e companhia perceberam que precisavam focar no “torcedor de base”. Saíram os relógios de contagem regressiva e shootouts de 35 jardas: “Tentar converter torcedores que não gostam de soccer seria uma luta longa e difícil e estávamos ofendendo os puristas.”
Antes era difícil até encontrar “soccer” na TV americana. Rothenberg diz que não houve cobertura em inglês da Italia 90 nos EUA. Agora, com a Copa de 2026 se aproximando, os jogos masculino e feminino são extremamente populares e completamente enraizados na cultura americana.
“Passamos de nenhuma televisão para saturação completa”, reflete ele. “Agora você dirige e vê crianças chutando uma bola de soccer, não jogando um passe!”
“Se você anda pelos shoppings, é mais provável ver alguém vestindo réplicas de camisas de seu time local, Messi, Bayern de Munique ou Tottenham, Real Madrid e Barcelona. Elas dominam até em cidades onde beisebol ou futebol americano são rei.”
Isso, acredita Rothenberg, é o verdadeiro legado da Copa de 1994.