Depois de ter sua entrada recusada nos Estados Unidos para arbitrar a Copa do Mundo, o juiz somali Omar Artan foi escalado para liderar a partida da Supercopa da UEFA, que colocará frente a frente o Paris Saint-Germain e o Aston Villa.
Este embate de prestígio, que opõe o campeão da Liga dos Campeões ao vencedor da Liga Europa, acontecerá no dia 12 de agosto, na cidade de Salzburgo.
A confederação responsável pelo futebol europeu comunicou que a decisão de nomear Artan foi tomada após diálogos com a Confederação Africana de Futebol (CAF).
Conforme declarado pelo presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, Omar Artan é “um árbitro jovem e excelente, mas já com experiência, que demonstrou sua capacidade no mais alto nível da Confederação Africana de Futebol”.
Ceferin acrescentou que “o futebol existe para unir as pessoas, e a UEFA busca expressar seu respeito por Omar e suas notáveis habilidades de arbitragem, as quais o levaram a esta indicação de grande importância”.
O presidente da UEFA também fez questão de agradecer ao seu “amigo Patrice Motsepe, presidente da CAF, pelo apoio entusiasmado à nossa iniciativa”.
Artan, que foi eleito o melhor árbitro masculino da CAF em 2025 e integra a lista internacional da FIFA desde 2018, estava cotado para ser o primeiro somali a atuar em um jogo da Copa do Mundo.
Contudo, ele foi impedido de entrar por agentes da alfândega em Miami, mesmo possuindo um passaporte diplomático e um visto americano válido para uma única entrada.
Em comunicado emitido na quarta-feira, um representante do governo dos EUA informou que a permissão de entrada de Artan foi negada devido a uma alegada “associação com indivíduos suspeitos de pertencerem a organizações terroristas”.
A Somália, seu país de origem, faz parte de uma lista de nações sujeitas a restrições de viagem impostas pelo então presidente dos EUA, Donald Trump. Após discussões com autoridades americanas, a FIFA confirmou que Artan não participaria do torneio.
Em entrevista ao New York Times esta semana, Artan revelou ter sido questionado por agentes de fronteira sobre supostas ligações com o grupo militante somali Al Shabab, negando qualquer conhecimento sobre a organização.
“Eu tinha a documentação correta e tudo mais. Eu tinha o visto correto”, afirmou Artan na ocasião.
“Sou apenas um árbitro tentando concretizar meu sonho, o maior sonho da minha vida, que é participar da Copa do Mundo”, lamentou ele.
O que o árbitro Omar Artan disse sobre sua documentação
Análise sobre a decisão estratégica da UEFA
Apenas 72 horas antes de sua nomeação para a Supercopa, Artan estava a bordo de um voo de retorno à Somália, com suas esperanças de atuar na Copa do Mundo desfeitas pelas regras de imigração dos Estados Unidos.
Em vez de figurar no palco global do Mundial, o árbitro agora terá a chance de conduzir o primeiro jogo da temporada da UEFA, em Salzburgo, no mês de agosto.
Embora não seja o mesmo que a Copa do Mundo, esta designação é significativa por torná-lo o primeiro árbitro não europeu a apitar a competição.
Essa oportunidade finalmente conferirá a Artan o reconhecimento merecido por um ano de intenso trabalho, que culminou em sua escolha como o principal árbitro da África.
A UEFA já estabeleceu contato com a Federação Austríaca de Futebol e demonstrou confiança de que, diferentemente do ocorrido em Miami, Artan não enfrentará contratempos com a segurança no aeroporto de Salzburgo.
Embora o órgão regulador do futebol europeu não tenha comentado a escolha do momento para o anúncio, é difícil crer que se trate de uma mera coincidência.
De fato, a UEFA firmou um convênio em abril com a Confederação Africana de Futebol (CAF), visando ao fomento do esporte em ambos os continentes e à oferta de oportunidades para dirigentes africanos.
Em uma parceria similar, a UEFA e a CONMEBOL já haviam trocado árbitros para a Euro 2020 e a Copa América 2021.
Fica a questão: será que é possível conectar os pontos? Será que a entidade máxima do futebol europeu enxergou a chance de ganhar prestígio frente à FIFA e a aproveitou?
O acordo com a CAF, no mínimo, representou uma oportunidade altamente conveniente.
Com os preços dos ingressos para a Copa do Mundo de 2026 atingindo patamares inéditos, a UEFA já se adiantou em anunciar que, para a Eurocopa de 2028, as entradas mais baratas para a fase de grupos custarão 30 euros (cerca de 26 libras) e 60 euros (aproximadamente 52 libras), sem a aplicação de preços dinâmicos.
Agora, com Artan impossibilitado de arbitrar no Mundial sob a alçada da FIFA, a UEFA entra em cena para oferecer ao somali uma plataforma de destaque.
Diante desses fatos, não é complexo chegar a certas conclusões sobre as motivações por trás da decisão.