O Botafogo enfrenta um novo obstáculo em sua jornada continental no dia 13 de agosto de 2026, ao se preparar para o jogo de ida das oitavas de final da Copa Sul-Americana contra o Cienciano. A equipe alvinegra disputará a partida na histórica cidade de Cusco, no Peru, a 3.400 metros acima do nível do mar, um local conhecido não apenas pela altitude desafiadora, mas também por sua profunda história, lendas incas e forte tradição de resistência, que se torna um elemento adicional ao embate esportivo. Será a segunda vez no ano que o clube carioca enfrentará a Cordilheira dos Andes.
A fundação de Cusco é envolta em mitos, com uma lenda narrando que Inti, a divindade solar inca, orientou Manco Capac, o primeiro líder inca, e sua consorte, Mama Ocllo. Eles teriam viajado do Lago Titicaca, situado atualmente na divisa entre Peru e Bolívia, até o Vale de Huatanay, também conhecido como Vale Sagrado dos Incas. O ponto exato para a capital do Império Inca foi determinado onde uma lança dourada se fixou no chão.
Tais relatos foram documentados pelo escritor inca Garcilaso de la Vega em sua obra “Comentários Reais dos Incas”, publicada em 1609. O nome dele é homenageado no estádio onde Cienciano e Botafogo se enfrentarão, reforçando a conexão histórica da cidade com a literatura e sua cultura.
Garcilaso de la Vega registrou palavras atribuídas ao primeiro inca: “Neste vale, nosso pai, o Sol, nos ordena que paremos e estabeleçamos nosso assentamento e morada, para cumprir a Sua vontade. Portanto, rainha e irmã, é apropriado que cada uma de nós vá reunir este povo para instruí-lo e fazer o bem que nosso pai, o Sol, nos ordena fazer.”
Evidências arqueológicas sugerem que a área de Cusco é habitada por mais de três milênios. A partir do século XII, a localidade se consolidou como uma cidade de grande importância, estabelecendo-se como a capital do Império Inca e o ponto central de todas as rotas que cruzavam a Cordilheira dos Andes.
A existência do Império Inca foi relativamente breve. Sua fundação ocorreu poucas décadas antes da chegada dos espanhóis à América do Sul. A partir de 1526, a civilização sofreu com as invasões dos colonizadores, enquanto também lidava com disputas internas. O período de resistência durou 46 anos, culminando na queda do império em 1572, marcada pela morte de Túpac Amaru I, o último imperador inca.
Com a derrocada inca, Cusco perdeu parte de sua influência. Os espanhóis, ao assumirem o controle da região, decidiram transferir o principal centro comercial andino para Lima, cidade que eles próprios fundaram. Contudo, Cusco manteve viva sua cultura e um forte sentimento de oposição aos colonizadores. Mais de dois séculos após o fim do Império Inca, José Gabriel Condorcanqui, conhecido como Túpac Amaru II, encabeçou uma importante insurreição local. Após vários meses de conflito, ele foi derrotado e executado com sua família na Plaza de Armas de Cusco.
Embora essa revolta tenha sido reprimida pelos colonizadores, ela se tornou um catalisador para outras insurgências contra o domínio espanhol. Eventualmente, o Peru conquistou sua independência em 1821.
Atualmente, Cusco é um polo que atrai turistas brasileiros e também equipes de futebol para competições continentais. O Cienciano, rival do Botafogo, já conquistou a Copa Sul-Americana em 2003. A cidade também abriga outros clubes de futebol, como o Cusco (anteriormente conhecido como Real Garcilaso) e o Deportivo Garcilaso, este último com um escudo visualmente similar ao do time brasileiro Goiás, mas em tons avermelhados.

