Mato Grosso lidera o ranking nacional de queimadas desde o início de 2024, acumulando cerca de 39,6 mil focos de incêndio até o momento. Essa situação alarmante coloca o estado no centro das atenções, com mais da metade de seus municípios sendo atingidos pelas chamas, o que destaca a gravidade do problema ambiental enfrentado na região.
Crescimento preocupante no número de queimadas
Dados recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que 80 dos 142 municípios de Mato Grosso, equivalente a 56,34% do total, registraram focos de incêndio apenas entre os dias 12 e 13 de setembro de 2024. Esse aumento preocupante reforça a posição do estado como o mais afetado por queimadas em todo o Brasil.
Com 1.379 novos focos de incêndio registrados somente na última quinta-feira (12), Mato Grosso segue liderando o ranking nacional, superando outros estados em volume de queimadas. A intensidade e a frequência dos incêndios refletem um cenário crítico para a preservação ambiental e para as comunidades locais.
Cerrado: o bioma mais devastado
Entre os biomas atingidos, o Cerrado foi o mais prejudicado, contabilizando 673 focos de incêndio no período analisado. A Amazônia, outro bioma vital que se estende por parte de Mato Grosso, também sofreu com 439 focos, seguida do Pantanal, que registrou 267. O impacto sobre esses três biomas ressalta a diversidade e a magnitude da devastação em curso no estado.
A destruição no Cerrado preocupa particularmente, pois esse bioma desempenha um papel fundamental no equilíbrio ecológico do país, sendo responsável pela regulação de grandes bacias hidrográficas e pela preservação de espécies endêmicas.
Aumento em relação ao ano anterior
Se comparado ao mesmo período de 2023, o número de municípios atingidos pelos incêndios em Mato Grosso cresceu 53,75%. No ano anterior, 43 municípios haviam registrado focos de incêndio, enquanto agora o número já chegou a 80. Esse aumento expressivo acende um alerta sobre a necessidade de medidas urgentes para o controle das queimadas.
Além disso, o mês de agosto de 2024 já havia mostrado sinais de intensificação das queimadas, com mais de 1,6 milhão de hectares de área devastada, de acordo com dados do Instituto Centro de Vida (ICV), baseados em pesquisas da Nasa.
Municípios mais atingidos
Os 10 municípios mais afetados pelas queimadas desde o início da segunda semana de setembro de 2024 foram:
- Cáceres: 34,75%
- Santo Antônio de Leverger: 12,46%
- Peixoto de Azevedo: 7,62%
- Poxoréu: 7,48%
- Rosário Oeste: 7,33%
- Luciara: 7,04%
- Alto Araguaia: 6,89%
- Vila Rica: 6,01%
- Colniza: 5,28%
- Cuiabá: 5,13%
Esses municípios estão localizados em áreas sensíveis, onde a vegetação típica do Cerrado e da Amazônia aumenta o risco de propagação rápida do fogo. A combinação de vegetação seca, altas temperaturas e ventos fortes contribui para o aumento da área devastada.
Ações emergenciais e pressão sobre as autoridades
Com a gravidade dos incêndios se intensificando, a Defensoria Pública da União (DPU) enviou um ofício ao Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo e ao Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal) no dia 11 de setembro de 2024. O documento exige ações imediatas para combater os incêndios, com foco nas terras indígenas e áreas de proteção ambiental.
A solicitação inclui o envio de brigadistas, recursos materiais e, se necessário, o uso das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança para reforçar o combate às queimadas. Entre as áreas mais afetadas estão terras indígenas, como o Parque Indígena do Xingu, que foi recentemente atingido por um grande incêndio que ameaçou comunidades locais.
Plano emergencial para proteger as comunidades indígenas
Um dos pedidos mais urgentes do ofício enviado pela DPU é a criação de um plano emergencial específico para proteger as populações indígenas, que estão entre as mais vulneráveis à devastação causada pelas queimadas. A medida visa não apenas o combate direto ao fogo, mas também a prevenção e o controle dos incêndios nas proximidades dessas comunidades, além do fornecimento de suporte material e de saúde.
Os incêndios florestais afetam de forma desproporcional as comunidades indígenas e ribeirinhas, destruindo áreas de cultivo, fontes de água e habitats naturais. A fumaça gerada pelos incêndios também tem causado problemas respiratórios graves, exacerbando a já delicada situação dessas populações.
A destruição em números
Até agora, os incêndios de 2024 já devastaram cerca de 3 milhões de hectares em Mato Grosso, o que representa uma perda significativa de área verde no estado. Essas áreas não se recuperam facilmente, e a perda de biodiversidade associada a esse tipo de destruição é alarmante.
O fogo, muitas vezes utilizado para “limpar” áreas recém-desmatadas, continua a ser um dos principais fatores de destruição, apesar das tentativas de regulamentação e controle. A pressão sobre os recursos naturais da região cresce à medida que o desmatamento avança e as queimadas se tornam uma prática recorrente.
Causas dos incêndios
A WWF Brasil aponta que o uso do fogo para expandir áreas de pastagem e agricultura é uma das principais causas dos incêndios na Amazônia e no Cerrado. Embora o desmatamento tenha diminuído nos últimos dois anos, o número de incêndios permanece elevado, criando um ciclo vicioso de destruição.
Os dados mais recentes do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) indicam que, entre agosto de 2022 e julho de 2023, a área desmatada foi de 9.064 km², uma redução de 21,8% em relação ao período anterior. No entanto, o uso descontrolado do fogo continua sendo uma prática amplamente adotada para “limpar” as áreas desmatadas, intensificando o problema.
O desafio de conter as queimadas
Combater as queimadas em Mato Grosso exige uma coordenação entre diferentes esferas de governo e instituições. Além da atuação emergencial das brigadas de incêndio, é necessário investir em políticas de prevenção e conscientização para reduzir a dependência do fogo como ferramenta de manejo da terra.
O governo tem sido pressionado a agir com mais vigor, principalmente no que diz respeito à fiscalização do desmatamento ilegal e ao uso descontrolado do fogo. As instituições ambientais também têm alertado para a necessidade de fortalecer os órgãos de controle e aumentar os recursos destinados ao combate às queimadas.
O papel da sociedade
A sociedade civil também desempenha um papel crucial na luta contra as queimadas. Organizações não governamentais, ambientalistas e ativistas têm atuado para pressionar o governo e conscientizar a população sobre os danos causados pelas queimadas.
Além disso, campanhas de conscientização sobre o impacto das queimadas e a importância da preservação ambiental estão sendo realizadas, com o objetivo de reduzir a prática do uso do fogo como ferramenta de manejo. Essas campanhas visam educar agricultores e comunidades rurais sobre alternativas sustentáveis.