O ex-jogador Ronaldo Nazário, ícone do futebol mundial e atual empresário, declarou sua intenção de disputar a presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e fez críticas contundentes ao processo eleitoral da entidade. Ele apontou que as regras vigentes favorecem a manutenção da atual gestão e dificultam candidaturas alternativas, tornando a eleição um cenário dominado por articulações políticas. Segundo ele, nunca houve na história da CBF uma disputa real, já que sempre existiu apenas um candidato, devido a barreiras impostas aos concorrentes. Em entrevista recente, Ronaldo classificou o sistema como uma “espécie de terrorismo”, alegando que as federações estaduais, que possuem grande peso na votação, dependem financeiramente da entidade máxima do futebol brasileiro, o que as impede de declarar apoio a outras candidaturas.
Para lançar oficialmente sua candidatura, Ronaldo precisa do endosso de pelo menos quatro das 27 federações estaduais e de quatro clubes das Séries A ou B do Campeonato Brasileiro. Esse requisito, que à primeira vista parece um processo comum, torna-se um desafio diante do modelo de financiamento da CBF, que concentra a maior parte dos recursos e define a distribuição de verbas para as federações. Esse fator, segundo Ronaldo, cria um ambiente onde os dirigentes estaduais se veem pressionados a apoiar a chapa da situação, temendo retaliações e perda de benefícios financeiros. Diante dessa dificuldade, o ex-jogador pediu publicamente à Fifa que intervenha e supervisione o processo eleitoral para garantir um pleito mais justo e democrático.
O atual presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, assumiu a entidade após a saída de Rogério Caboclo, que foi afastado devido a denúncias de assédio moral e sexual. Ednaldo chegou ao cargo por meio de um acordo entre os dirigentes da confederação e os clubes, consolidando-se como candidato único em uma eleição interna. Desde então, sua administração tem sido marcada por embates com clubes e críticas à estrutura do futebol brasileiro, incluindo falhas na arbitragem e no calendário de competições. No entanto, a realização de eleições com chapa única desde 1989 reforça a percepção de que a CBF mantém um modelo de governança fechado, o que Ronaldo busca desafiar.
Ronaldo 'Fenômeno' critica processo eleitoral da CBF e pede acompanhamento de Fifa e Conmebol#FutebolNaESPN https://t.co/m2DUsi7K4S
— ESPN Brasil (@ESPNBrasil) February 25, 2025
Estratégia de Ronaldo para viabilizar sua candidatura
Ronaldo acredita que sua experiência como jogador e empresário pode contribuir para uma nova fase do futebol brasileiro. Dono do Real Valladolid, da Espanha, e do Cruzeiro, clube brasileiro que recentemente retornou à Série A do Campeonato Brasileiro, ele já demonstrou sua capacidade de gestão esportiva e implementação de novos modelos administrativos. Entretanto, para concorrer à presidência da CBF, ele precisará se desvincular do clube espanhol, uma vez que os estatutos da entidade proíbem que candidatos tenham participação em clubes de futebol enquanto disputam o cargo.
A busca por apoios para sua candidatura tem sido um dos maiores desafios de Ronaldo. Ele afirma que, devido ao controle que a CBF exerce sobre as federações estaduais, é pouco provável que consiga declarações públicas de apoio antes do início oficial do processo eleitoral. Segundo ele, as federações temem represálias, como cortes de verbas e benefícios, caso apoiem um candidato de oposição. Esse cenário reforça a necessidade de uma supervisão externa no pleito, o que justificou o pedido de intervenção da Fifa.
Apesar das dificuldades, Ronaldo mantém seu discurso de mudança e aposta em um projeto de reestruturação do futebol brasileiro. Ele acredita que é possível melhorar a arrecadação das federações, tornar os campeonatos estaduais mais atrativos e resolver problemas históricos como o calendário desorganizado e as falhas na arbitragem. O ex-jogador também defende maior representatividade do Brasil em entidades internacionais como a Conmebol e a Fifa, buscando recuperar a influência do país no cenário global.
Mudanças propostas para a CBF e o futebol brasileiro
- Revisão do calendário: Ronaldo propõe um calendário mais equilibrado, evitando sobrecarga de jogos para os clubes e priorizando competições de maior relevância.
- Reestruturação da arbitragem: O ex-jogador sugere a profissionalização completa da arbitragem e a implementação de medidas mais eficazes para a revisão de lances e aplicação de regras.
- Fortalecimento dos estaduais: Para evitar que os campeonatos estaduais percam ainda mais relevância, Ronaldo defende mudanças na fórmula de disputa e maior investimento nas competições regionais.
- Maior transparência na gestão: O candidato quer implementar um modelo de governança mais acessível, com maior participação de clubes e federações na tomada de decisões.
- Internacionalização do futebol brasileiro: A ideia é recuperar o prestígio do futebol nacional, aumentando a presença de clubes e seleções em competições internacionais de alto nível.
Impacto da candidatura e desafios políticos
A entrada de Ronaldo na disputa pela presidência da CBF movimenta o cenário político do futebol nacional, especialmente por sua influência dentro e fora de campo. Sua imagem de ídolo e empresário bem-sucedido pode atrair apoios de diferentes setores do futebol, mas também enfrentará resistência de dirigentes que já ocupam cargos na entidade. A relação de Ronaldo com o futebol internacional também pode ser um trunfo, caso consiga mobilizar aliados de outras federações para pressionar por mudanças na estrutura da CBF.
No entanto, o ex-jogador terá que enfrentar um sistema consolidado há décadas. Desde a década de 1980, a CBF tem sido comandada por dirigentes que transitam entre federações estaduais e entidades esportivas, mantendo um círculo fechado de poder. Romper com esse modelo exige uma articulação política robusta, algo que Ronaldo ainda está estruturando. O temor de federações estaduais em perder repasses da CBF é um dos fatores que dificultam a formação de uma base de apoio sólida para sua candidatura.
Outro ponto relevante é a influência da Fifa na condução do processo eleitoral. Embora a entidade tenha regras próprias para eleições em federações nacionais, raramente interfere diretamente em disputas internas. Caso a Fifa atenda ao pedido de Ronaldo e intervenha no pleito, a eleição da CBF pode ganhar uma nova dinâmica, favorecendo a possibilidade de uma disputa mais equilibrada.
Histórico de eleições na CBF e monopólio de candidaturas
A estrutura política da CBF é um dos fatores que dificultam mudanças profundas na entidade. Desde 1989, todas as eleições da confederação foram realizadas com apenas um candidato, o que evidencia um modelo de governança pouco democrático. Os presidentes anteriores, como Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, permaneceram por longos períodos no comando da entidade, enfrentando escândalos de corrupção e questionamentos sobre a transparência na gestão.
A saída de Rogério Caboclo, em 2021, trouxe à tona uma crise de credibilidade na CBF, levando à nomeação de Ednaldo Rodrigues como presidente. Sua gestão, no entanto, manteve a estrutura política tradicional da entidade, com forte influência de federações estaduais. O modelo de votação, que dá peso significativo a essas federações, favorece a manutenção do status quo, dificultando a entrada de novos candidatos.
Com a possível candidatura de Ronaldo, essa lógica pode ser desafiada pela primeira vez em décadas. O ex-jogador busca apoio em setores do futebol que desejam maior profissionalização e transparência na gestão da CBF. Seu projeto de modernização pode atrair clubes insatisfeitos com a atual administração, especialmente aqueles que defendem mudanças no calendário e maior participação nas decisões estratégicas do futebol nacional.