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Sistemas do INSS ficam 2 meses fora do ar: Dataprev justifica falhas e fila aumenta

Previdência Social INSS
Previdência Social INSS - Foto: SERGIO V S RANGEL / Shutterstock.com Previdência Social INSS - Foto: SERGIO V S RANGEL / Shutterstock.com

As panes recorrentes nos sistemas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) têm gerado transtornos significativos para milhões de brasileiros que dependem de benefícios previdenciários, enquanto a fila de pedidos não analisados se aproxima de dois milhões. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que, entre agosto de 2023 e dezembro de 2024, os sistemas usados pelo órgão ficaram fora do ar por 1.466 horas, o equivalente a mais de dois meses de interrupções. Esse cenário expõe uma crise tecnológica que afeta diretamente os segurados e coloca em xeque a eficiência da Dataprev, empresa pública responsável pela infraestrutura digital do INSS. Rodrigo Assumpção, presidente da estatal, reconhece os problemas, mas os classifica como “naturais” no contexto de uma modernização tecnológica em curso, visão que contrasta com a percepção de servidores do instituto, que apontam as falhas como um dos fatores para o aumento da fila de espera.

A situação ganhou destaque em 11 de março de 2025, quando a imprensa começou a noticiar os números alarmantes e as declarações de Assumpção. Para ele, as interrupções não comprometem as metas diárias do INSS, que segue operando dentro de uma taxa de disponibilidade de 98%, conforme estipulado em contrato. No entanto, os relatos de servidores, que preferem manter o anonimato, pintam um quadro diferente: as instabilidades frequentes dificultam o atendimento e atrasam a análise de benefícios, impactando diretamente a população que aguarda aposentadorias, auxílios e pensões. O embate entre a visão otimista da Dataprev e as críticas internas reflete um desafio maior: equilibrar a renovação tecnológica com a necessidade de um serviço público contínuo e confiável.

O problema não é novidade. Nos últimos anos, a Dataprev tem enfrentado desgastes por falhas em seus sistemas, como o caso de laudos médicos emitidos com “blá blá blá” em 2024, um erro atribuído a testes mal gerenciados que gerou indignação entre os segurados. Enquanto isso, a modernização dos mais de 400 sistemas do INSS, muitos deles obsoletos, é apontada como essencial, mas também como uma fonte de instabilidade temporária. A tensão entre inovação e estabilidade coloca em foco a capacidade da empresa de atender às demandas de 40 milhões de beneficiários sem comprometer o acesso a direitos básicos.

Números alarmantes: o impacto das interrupções no INSS

Os 1.466 horas de indisponibilidade dos sistemas do INSS equivalem a mais de 61 dias inteiros de paralisação ao longo de 17 meses, um dado que evidencia a gravidade do problema. Esses números abrangem mais de 400 sistemas distintos, responsáveis por tarefas que vão desde o processamento de pedidos de benefícios até a emissão de laudos médicos e a gestão de dados previdenciários. Apesar disso, Rodrigo Assumpção argumenta que somar as horas de forma linear não reflete o desempenho real da Dataprev, já que os sistemas possuem níveis de criticidade e impactos variados.

Entre os servidores, however, a percepção é de que as falhas têm consequências diretas. Eles relatam que as intermitências, mesmo quando não paralisam totalmente os sistemas, causam lentidão e interrupções no fluxo de trabalho, dificultando o cumprimento de prazos. Isso contribui para a fila de quase dois milhões de pedidos, um número que reflete não apenas a alta demanda, mas também os gargalos operacionais enfrentados pelo órgão.

Reação da Dataprev: falhas como parte do processo

Rodrigo Assumpção, em entrevista concedida em 28 de fevereiro de 2025 na sede da Dataprev em Brasília, defende que as panes são inerentes ao processo de renovação tecnológica. Ele explica que a complexidade de orquestrar a atualização de sistemas antigos exige ajustes constantes, o que pode gerar momentos de instabilidade. Para o presidente, o foco está em corrigir os problemas rapidamente e manter a operação dentro dos padrões contratuais, com uma taxa de funcionamento de 98%.

Modernização em curso: o preço da instabilidade

A Dataprev está no centro de um esforço para modernizar a infraestrutura tecnológica do INSS, um processo que ganhou força nos últimos dois anos com investimentos do governo federal. Desde 2023, a empresa trabalha na substituição de sistemas legados, alguns com décadas de uso, por soluções mais ágeis e digitais, como o aplicativo Meu INSS e a Central 135. Esse movimento é visto como essencial para atender às crescentes demandas dos beneficiários e reduzir fraudes, mas também traz desafios operacionais significativos.

Assumpção destaca que a escolha pela modernização rápida implica aceitar períodos de oscilação. Ele exemplifica com um incidente em fevereiro de 2025, quando o esgotamento da capacidade de registro operacional de um sistema causou lentidão generalizada por um dia e meio. Embora o sistema não tenha parado completamente, a demora para identificar e resolver o problema afetou o ritmo de trabalho dos servidores. Para o presidente, esses episódios são um custo necessário para evitar um envelhecimento precoce da infraestrutura e garantir inovação a longo prazo.

O investimento em tecnologia também inclui a aquisição de uma ferramenta de inteligência artificial (IA) por US$ 10 milhões, contratada em 2024 junto a uma empresa americana. Prevista para entrar em operação no primeiro semestre de 2025, a IA visa combater fraudes em benefícios, analisando padrões em atestados médicos e outros documentos. Apesar do avanço, a implementação ainda está em fase de calibração, e os problemas atuais mostram que a transição tecnológica está longe de ser concluída.

Contraponto dos servidores: a fila como reflexo das falhas

Diferente da visão de Assumpção, os servidores do INSS enxergam as panes como um obstáculo concreto ao atendimento. Eles apontam que as interrupções, mesmo parciais, dificultam a análise de pedidos, especialmente em um contexto de alta demanda e pessoal reduzido. A fila de quase dois milhões de benefícios pendentes é um indicativo claro desse impacto, agravado por anos de cortes no quadro de funcionários e pela dependência de sistemas instáveis.

Em 2024, o INSS deslocou 150 novos servidores, oriundos de concurso público, para o Movimento Operacional de Benefício (MOB), uma força-tarefa contra fraudes e irregularidades. Apesar disso, o reforço humano não tem sido suficiente para compensar os gargalos tecnológicos, e a percepção interna é de que a Dataprev não acompanha o ritmo necessário para suportar o volume de trabalho do órgão.

Casos emblemáticos: quando os erros ganham visibilidade

Os problemas da Dataprev já geraram episódios que repercutiram nacionalmente. Um exemplo marcante ocorreu em 2024, quando laudos médicos emitidos pelo INSS continham a expressão “blá blá blá” no lugar das justificativas dos peritos. O erro, que Assumpção atribui a um teste mal executado com texto de preenchimento, foi interpretado por segurados como desrespeito, ampliando a insatisfação com o serviço. O Ministério da Previdência emitiu uma nota responsabilizando a Dataprev, evidenciando a tensão entre as instituições.

Outro ponto de atrito envolve as estatísticas da Previdência. O Ministério tem divulgado dados da fila com atraso, o que especialistas chamam de “apagão de dados”. Assumpção reconhece inconsistências nas informações fornecidas pela Dataprev, mas nega um apagão, atribuindo os atrasos a ajustes mal planejados nos sistemas. Esses episódios mostram como as falhas tecnológicas afetam não só os beneficiários, mas também a transparência das políticas públicas.

Cronologia das panes: um problema persistente

As dificuldades com os sistemas do INSS não são recentes. Veja os principais marcos relacionados às interrupções e à modernização:

  • Agosto de 2023: Início do período monitorado pela LAI, com registro de falhas nos sistemas.
  • Novembro de 2024: Contratação da IA por US$ 10 milhões para combater fraudes.
  • Dezembro de 2024: Acumulado de 1.466 horas de interrupções em 17 meses.
  • Fevereiro de 2025: Lentidão generalizada por esgotamento de capacidade de registro.
  • Março de 2025: Divulgação dos dados e declarações de Assumpção sobre “falhas naturais”.

Esse histórico reflete um desafio contínuo, com a modernização avançando em paralelo a problemas operacionais.

Gargalos e soluções: o que dizem os números e os envolvidos

Os quase dois milhões de pedidos na fila do INSS são um reflexo de múltiplos fatores, mas as falhas tecnológicas estão no centro do debate. Enquanto a Dataprev aposta na modernização como solução de longo prazo, os servidores cobram estabilidade imediata. Assumpção defende que o desempenho da empresa é positivo, com 98% de disponibilidade, mas os beneficiários continuam enfrentando atrasos que impactam suas vidas.

Alguns dados ajudam a entender a situação:

  • 1.466 horas fora do ar: Mais de 61 dias de interrupções em 17 meses.
  • 98% de disponibilidade: Meta contratual que a Dataprev diz cumprir.
  • Quase 2 milhões de pedidos: Fila acumulada até março de 2025.

A modernização, embora necessária, exige um equilíbrio que ainda não foi alcançado, deixando a população à mercê de um sistema em transição.

O peso da modernização: inovação versus estabilidade

Rodrigo Assumpção argumenta que optar por uma evolução lenta garantiria mais estabilidade, mas aceleraria o envelhecimento dos sistemas, tornando-os obsoletos frente às demandas atuais. Ele prefere uma abordagem agressiva, que aceita oscilações em troca de maior inovação e capacidade de resposta. Esse philosophy, however, não ameniza o impacto imediato para os segurados, que enfrentam atrasos em um momento em que o INSS lida com 40 milhões de beneficiários.

A tensão entre Dataprev e INSS também reflete uma divisão de responsabilidades. Assumpção reconhece que a estatal é a fornecedora da tecnologia, mas o INSS e o Ministério da Previdência são os rostos públicos das falhas. Essa dinâmica ficou evidente no caso do “blá blá blá” e nos atrasos das estatísticas, situações em que a Dataprev assumiu a culpa técnica, mas não evitou o desgaste institucional do órgão previdenciário.

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