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Governo propõe elevar pena para até 12 anos por compra e venda de celular roubado

Pessoa mexendo no celular
Pessoa mexendo no celular - Foto: leungchopan/Shutterstock.com Pessoa mexendo no celular - Foto: leungchopan/Shutterstock.com

A busca por um celular mais barato pode acabar custando caro para quem opta por adquirir aparelhos de origem duvidosa. O Governo Federal, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, está elaborando um projeto de lei que promete endurecer as punições para quem compra ou vende smartphones roubados. Enviada ao Palácio do Planalto na última quinta-feira, 27 de março, a proposta visa coibir a crescente onda de furtos e roubos que alimentam o mercado paralelo de eletrônicos no país. Com penas que podem chegar a 12 anos de prisão, a medida reflete a preocupação com a segurança pública, um tema que tem gerado insatisfação entre a população.

A iniciativa surge em um momento em que os crimes envolvendo celulares atingem números alarmantes. Só em Pernambuco, mais de 52 mil aparelhos foram roubados ou furtados em 2024, segundo dados da Secretaria de Defesa Social. Esse cenário não é exclusivo de uma região: em 2023, quase um milhão de registros de furtos e roubos de smartphones foram contabilizados em delegacias de todo o Brasil, o que equivale a cerca de dois aparelhos subtraídos por minuto. A proposta do governo busca atacar diretamente a receptação, vista como um dos pilares que sustentam essa criminalidade.

O projeto, que ainda depende de aprovação do Congresso Nacional, também abrange outros itens além de celulares, como cabos de telecomunicações e serviços ilegais de TV por assinatura, conhecidos como “gatonet”. A ideia é desestimular a comercialização de produtos roubados, que muitas vezes são encomendados por organizações criminosas. O texto foi encaminhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e está sob análise da Casa Civil, mas já desperta debates sobre sua eficácia e tramitação.

Alvo principal: o mercado ilegal de eletrônicos

O comércio de celulares roubados movimenta um mercado clandestino que vai além da simples revenda de aparelhos. Quadrilhas especializadas desmontam os dispositivos para vender peças ou utilizam os dados pessoais armazenados para aplicar golpes financeiros. Esse ciclo criminoso é o principal foco do projeto de lei, que propõe mudanças significativas no Código Penal. A receptação qualificada, crime que ocorre quando alguém adquire, transporta ou vende bens sabidamente provenientes de ilícitos, terá suas penas ampliadas em até 50%.

Atualmente, a legislação prevê pena mínima de três anos e máxima de seis anos para esse tipo de crime. Com a nova proposta, a punição mínima subiria para quatro anos, enquanto a máxima poderia alcançar 12 anos de reclusão, dependendo do contexto do delito. A mudança também inclui a criação de um novo tipo penal: o furto qualificado por encomenda, voltado para casos em que o crime é cometido sob demanda de terceiros com fins comerciais.

Além disso, o projeto pretende fechar brechas legais. Hoje, a receptação entre familiares pode escapar de punição, mas, se aprovado, o texto eliminará essa possibilidade, tornando todos os envolvidos passíveis de julgamento. A comercialização de serviços como “gatonet” e aparelhos “TV box” piratas também será enquadrada como receptação qualificada, uma medida que visa combater a pirataria digital e seu impacto econômico.

  • Pena atual para receptação qualificada: 3 a 6 anos de prisão.
  • Pena proposta: 4 a 12 anos, aumento de até 50%.
  • Novos alvos: furtos por encomenda e serviços ilegais de TV.

Por que o foco em celulares?

A escolha dos celulares como prioridade não é aleatória. Pesquisas internas encomendadas pelo governo apontam que o furto de smartphones é uma das maiores fontes de insatisfação entre os brasileiros, afetando pessoas de todas as classes sociais. O aparelho, essencial para trabalho, comunicação e lazer, tornou-se um símbolo da insegurança cotidiana. Em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, é comum ouvir relatos de assaltos em plena luz do dia, muitas vezes com violência.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, destacou que a receptação de bens roubados adquiriu “dimensão extraordinária” nos últimos anos. Durante um evento no Rio de Janeiro, ele afirmou que crimes como o roubo de celulares não se limitam à perda material, mas abrem portas para fraudes bancárias e outros delitos graves. A proposta reflete uma tentativa de responder a essa crise, que também ganhou destaque político após declarações do presidente Lula, que prometeu não permitir que o Brasil se torne uma “república de ladrões de celulares”.

Os números reforçam a urgência da medida. Em 2023, a quantidade de boletins de ocorrência relacionados a roubos e furtos de celulares revelou um problema sistêmico. Especialistas apontam que o total real pode ser ainda maior, já que muitos casos não são registrados. Esse cenário pressiona o governo a agir, especialmente diante de uma percepção pública de que a segurança está fora de controle.

Impactos além dos smartphones

O projeto de lei não se restringe aos celulares. A ampliação das penas abrange uma lista extensa de itens frequentemente visados por criminosos, como cabos de energia e telecomunicações, medicamentos, combustíveis, fertilizantes, minérios, cigarros, armas e veículos. A ideia é atacar o mercado paralelo em várias frentes, coibindo práticas que geram prejuízos econômicos e sociais significativos.

A receptação de cabos, por exemplo, tem sido um problema recorrente em áreas urbanas, onde furtos deixam bairros sem energia ou internet por horas. Em 2024, cidades como Recife e Salvador enfrentaram interrupções frequentes nos serviços devido a ações criminosas desse tipo. O endurecimento das punições busca desincentivar a revenda desses materiais, que muitas vezes abastece atividades industriais e comerciais ilegais.

Outro ponto de destaque é a inclusão dos serviços de “gatonet” e “TV box” piratas no escopo da receptação qualificada. Esses dispositivos, que permitem acesso ilegal a conteúdos de TV por assinatura e streaming, movimentam um mercado clandestino que prejudica empresas regulares e financia organizações criminosas. A tipificação específica para essas práticas responde a uma lacuna na legislação atual, que não as enquadra como furto de energia elétrica.

Cronograma da proposta legislativa

O caminho até a implementação do projeto é longo e depende de várias etapas no Congresso Nacional. Confira o trajeto previsto:

  • Elaboração: O texto foi concluído pelo Ministério da Justiça em março e enviado ao Palácio do Planalto.
  • Análise presidencial: Lula e a Casa Civil avaliam a proposta, podendo sugerir ajustes antes do envio ao Legislativo.
  • Tramitação: Após apresentação ao Congresso, o projeto passará por comissões temáticas e votação em plenário.
  • Aprovação: Se aprovado sem alterações significativas, seguirá para sanção presidencial.

Não há prazo definido para essas etapas, mas o governo espera contar com o apoio da bancada da segurança pública, que já demonstrou interesse em medidas mais rígidas contra crimes patrimoniais. A urgência da pauta pode acelerar o processo, especialmente se houver pressão popular.

Pessoa com celular
Pessoa com celular – Foto: PeopleImages.com – Yuri A/ Shutterstock.com

Receptação: um crime subestimado?

Historicamente, a receptação foi tratada como um delito secundário no Brasil, com punições consideradas brandas frente aos danos que provoca. Lewandowski argumentou que essa visão precisa mudar, já que a prática sustenta uma cadeia criminosa maior. Ele exemplificou com casos de motos e automóveis furtados, desmontados e revendidos como se fossem comércio regular, além de roubos de cargas que incluem eletrodomésticos e produtos farmacêuticos.

A proposta do Ministério da Justiça reflete essa preocupação sistêmica. Ao aumentar as penas, o governo quer enviar uma mensagem clara: quem lucra com produtos roubados terá consequências severas. Isso inclui não apenas os receptadores profissionais, mas também consumidores que, por economia, adquirem itens sabidamente ilícitos. A mudança pode alterar o comportamento social em relação a compras informais, especialmente em feiras e plataformas online.

O impacto econômico também é um fator relevante. O mercado ilegal drena recursos da economia formal, distorce a concorrência e gera custos adicionais para empresas e serviços públicos. Furtos de cabos, por exemplo, obrigam concessionárias a investir milhões em reparos, enquanto a pirataria digital afeta a arrecadação de impostos e os lucros de emissoras e plataformas de streaming.

Detalhes da punição ampliada

A proposta detalha como as penas serão aplicadas em diferentes situações. Veja os principais pontos:

  • Celulares e eletrônicos: Pena mínima de 4 anos e máxima de 12 anos para receptação com fins comerciais.
  • Cabos e equipamentos: Mesmas punições aplicadas a itens de telecomunicações e energia.
  • Gatonet e TV box: Enquadramento como receptação qualificada, com até 12 anos de prisão.
  • Furto qualificado: Novo crime para casos encomendados, com penas proporcionais ao delito principal.

Essas alterações visam atingir tanto os pequenos receptadores quanto as redes organizadas que lucram com a revenda em larga escala. A inclusão de familiares na punição é outro destaque, eliminando a possibilidade de alguém escapar da lei por adquirir itens roubados de parentes.

Pressão política e social

A segurança pública tornou-se um dos principais desafios do governo Lula, especialmente após eventos recentes que chocaram o país, como o assassinato de um ciclista em São Paulo por assaltantes em plena luz do dia. Pesquisas mostram que a percepção de insegurança cresceu, com o furto de celulares sendo uma queixa recorrente entre eleitores de diferentes espectros políticos. Esse eleitorado “flutuante”, que oscila entre esquerda e direita, é um dos alvos da iniciativa.

O presidente já sinalizou que o tema é prioridade. Em um discurso no Ceará, durante a inauguração de um hospital universitário, ele afirmou que o Estado precisa ser mais forte que os criminosos. A proposta de lei complementa outras ações, como a PEC da Segurança Pública, que busca fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública e as forças federais. A combinação dessas medidas reflete uma ofensiva mais ampla contra a criminalidade.

Parlamentares da oposição, no entanto, podem oferecer resistência. Alguns já criticaram o governo por supostamente “mudar de discurso” em relação à segurança, enquanto outros veem na proposta uma chance de emplacar pautas próprias, como penas ainda mais duras para outros crimes. A tramitação no Congresso será um teste para a capacidade de articulação do Executivo.

Efeitos esperados na sociedade

A ampliação das penas pode mudar a dinâmica do mercado ilegal de celulares, mas seus efeitos dependem de fatores como fiscalização e aplicação da lei. Em cidades onde os furtos são rotina, como Rio de Janeiro e Recife, a população espera resultados práticos. Moradores relatam medo constante ao usar smartphones em público, um reflexo da banalização desse tipo de crime.

Para as autoridades, o desafio será identificar e punir os receptadores, muitos dos quais operam em redes informais difíceis de rastrear. A proposta também levanta questões sobre o papel do consumidor final: quem compra um celular barato sem nota fiscal pode ser enquadrado como receptador? Essa dúvida deve ser esclarecida durante a tramitação do projeto.

O combate à pirataria digital, outro foco da lei, pode ter impacto em milhões de lares. Estima-se que o uso de “gatonet” e “TV box” ilegais seja disseminado no Brasil, especialmente em áreas periféricas. Enquadrar essas práticas como crime grave pode gerar controvérsias, mas o governo aposta que a medida desestimulará o consumo de serviços clandestinos.

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