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Após 286 dias no espaço, Wilmore e Williams revelam desafios da missão Starliner

Wilmore e Williams
Wilmore e Williams - Foto Divulgação/Nasa Wilmore e Williams - Foto Divulgação/Nasa

Butch Wilmore e Suni Williams, astronautas da NASA, falaram pela primeira vez após retornarem à Terra em 18 de março, encerrando uma missão que se estendeu por 286 dias na Estação Espacial Internacional (ISS). O que deveria ser um teste de oito dias da cápsula Boeing Starliner, lançado em 5 de junho de 2024, transformou-se em uma estadia de mais de nove meses devido a problemas mecânicos, como falhas nos propulsores e vazamentos de hélio. Em entrevista ao programa “America’s Newsroom”, da Fox News, na segunda-feira, 31 de março, a dupla compartilhou os desafios enfrentados, desde a adaptação física até as responsabilidades assumidas durante a espera pelo resgate, que só ocorreu com a ajuda da cápsula Dragon da SpaceX. A experiência, segundo eles, foi marcada por lições valiosas e um esforço conjunto para superar os imprevistos.

A missão começou com expectativas altas. Wilmore, 62 anos, e Williams, 59 anos, ambos veteranos pilotos de teste da Marinha dos EUA, decolaram de Cabo Canaveral, na Flórida, para o primeiro voo tripulado da Starliner. O objetivo era avaliar a nave em um trajeto curto até a ISS, mas os problemas técnicos detectados logo após o lançamento mudaram os planos. A NASA optou por trazer a cápsula de volta sem tripulação em setembro de 2024, deixando os astronautas na estação até março, quando a missão Crew-9, composta por Nick Hague e Aleksandr Gorbunov, os resgatou. Durante esse período, a dupla realizou experimentos científicos, manutenção da ISS e até caminhadas espaciais, contribuindo para o funcionamento do laboratório orbital.

Williams destacou a resiliência do corpo humano como um “milagre”. Após meses em microgravidade, a readaptação à Terra trouxe desafios como desorientação e fraqueza muscular, mas ela enfatizou a capacidade de superar essas condições. Wilmore, por sua vez, refletiu sobre a responsabilidade pessoal e coletiva na missão, admitindo que perguntas não feitas antes do lançamento poderiam ter evitado alguns problemas. A entrevista revelou não apenas os aspectos técnicos, mas também o lado humano de uma jornada que capturou a atenção mundial.

Primeiras impressões após o retorno

Após pousarem no Golfo do México, perto de Tallahassee, na Flórida, Wilmore e Williams foram recebidos por equipes médicas da NASA. A amerissagem da cápsula Dragon, às 18h57 no horário de Brasília, marcou o fim de uma saga que durou quase dez vezes mais que o planejado. A dupla foi retirada em macas, uma precaução padrão devido aos efeitos da gravidade após tanto tempo no espaço.

Os astronautas passaram por exames de saúde no Centro Espacial Johnson, em Houston, onde foram monitorados por cirurgiões de voo. A readaptação incluiu testes de equilíbrio e força, já que a exposição prolongada à microgravidade afeta ossos, músculos e o sistema cardiovascular. Williams descreveu o processo como desafiador, mas surpreendente, enquanto Wilmore manteve o foco na missão como um dever nacional.

  • Desembarque: ocorrido às 19h47, com apoio da equipe da SpaceX.
  • Exames iniciais: realizados imediatamente após o pouso para avaliar condições físicas.
  • Retorno às famílias: liberado após um a dois dias de observação em Houston.

O que mudou na missão original

A missão Boeing Crew Flight Test tinha como meta certificar a Starliner para voos regulares à ISS, mas os problemas técnicos a transformaram em um teste de resistência para os astronautas e a NASA. Lançada em 5 de junho de 2024 com um foguete Atlas V, a cápsula enfrentou falhas nos propulsores e vazamentos de hélio logo após atingir a órbita, comprometendo sua capacidade de retornar com segurança. A decisão de deixá-la voltar vazia em setembro foi tomada após meses de análises, enquanto Wilmore e Williams se integraram à tripulação regular da ISS.

Uma estadia inesperada na ISS

Wilmore e Williams chegaram à ISS em 13 de junho de 2024, posando para fotos no módulo Harmony, próximo à Starliner acoplada. O plano inicial previa um retorno em poucos dias, mas a permanência se estendeu até março de 2025. Durante esses 286 dias, eles assumiram tarefas além do previsto, como experimentos com plantas em microgravidade, reparos em equipamentos e duas caminhadas espaciais lideradas por Wilmore.

A adaptação foi essencial. Williams, que já havia passado 322 dias no espaço em missões anteriores, assumiu um papel ativo na rotina da estação, enquanto Wilmore, com experiência em comando, liderou operações críticas. A ISS, com 109 metros de comprimento e 150 m² de espaço habitável, tornou-se o lar temporário da dupla, que lidou com limitações como roupas extras escassas e um banheiro quebrado, resolvido apenas com a chegada de suprimentos.

A NASA ajustou a rotação da tripulação para acomodá-los. A missão Crew-9, lançada em 28 de setembro de 2024, deixou dois assentos vagos na cápsula Dragon para garantir o resgate, evidenciando o planejamento de contingência da agência. Enquanto isso, a Starliner segue sob investigação técnica, com engenheiros da Boeing analisando os dados coletados.

Lições de uma missão prolongada

Os 286 dias no espaço trouxeram aprendizados significativos. Wilmore admitiu que, como comandante, poderia ter questionado mais os preparativos da Starliner. “Eu não sabia na época que precisava fazer certas perguntas, mas, olhando agora, alguns sinais estavam lá”, disse ele, apontando falhas nos testes que passaram despercebidas. Ele dividiu a responsabilidade entre si, a Boeing e a NASA, mas evitou apontar culpados, focando no futuro das missões espaciais.

Williams, por sua vez, viu a experiência como uma oportunidade. “Nós treinamos para ficar lá por algum tempo, então assumimos as tarefas e fizemos o melhor possível”, afirmou. A astronauta, que estabeleceu o recorde de maior tempo acumulado em caminhadas espaciais por uma mulher (50 horas e 40 minutos), destacou a honra de contribuir para a ciência na ISS.

A missão expôs vulnerabilidades no programa da Boeing. Dos 4,9 milhões de quilômetros percorridos em órbita, a Starliner enfrentou problemas que a NASA considerou arriscados demais para o retorno tripulado. A decisão de usar a SpaceX como alternativa reforçou a posição da empresa de Elon Musk como a principal operadora ocidental de voos à ISS, enquanto a Boeing trabalha para corrigir sua cápsula.

Efeitos físicos da longa permanência

Passar mais de nove meses em microgravidade deixa marcas no corpo. Estudos apontam que 70% dos astronautas em missões de seis a 12 meses desenvolvem a Síndrome Neuro-Ocular Associada ao Voo Espacial (SANS), que afeta a visão devido à pressão no crânio. Wilmore e Williams passaram por esse risco, mas médicos da NASA afirmaram que ambos estavam em bom estado após o retorno.

A perda de massa muscular e densidade óssea é outro efeito comum, revertido com fisioterapia na Terra. Williams descreveu a sensação inicial como “desorientadora”, enquanto Wilmore comparou o retorno à gravidade a um “choque”. Apesar disso, os efeitos são temporários, e a dupla já está em recuperação, com exames indicando saúde estável.

  • Sistema cardiovascular: adaptação lenta após meses sem gravidade.
  • Músculos e ossos: perdas revertidas com exercícios pós-retorno.
  • Visão: monitoramento contínuo para detectar SANS ou outras alterações.

O resgate e o papel da SpaceX

A cápsula Dragon Freedom, da SpaceX, foi a solução para trazer Wilmore e Williams de volta. Desacoplada da ISS às 2h05 de 18 de março, ela completou uma viagem de 17 horas até a Terra, pousando com precisão no Golfo do México. Nick Hague e Aleksandr Gorbunov, da missão Crew-9, acompanharam a dupla, que se despediu dos sete astronautas restantes na estação.

A operação destacou a confiabilidade da SpaceX, que transporta até sete pessoas por voo e já realizou várias missões à ISS desde 2020. A Starliner, por outro lado, voltou sem tripulação em setembro de 2024, aterrissando no Novo México após um voo investigativo. A Boeing agora enfrenta o desafio de recuperar a confiança da NASA e do público.

Adaptação e rotina na ISS

Viver na ISS por 286 dias exigiu ajustes. Sem as malas originais, retiradas da Starliner para dar espaço a uma bomba de reposição, Wilmore e Williams usaram roupas disponíveis na estação. A comida, enviada em cargueiros como o que trouxe uma maçã da Nova Inglaterra para Williams, foi suficiente, mas limitada em variedade.

A dupla manteve contato com a Terra via rádio e sistemas digitais, conversando com famílias e equipes de apoio. Wilmore, casado com Deanna e pai de duas filhas, priorizou o dever acima dos sentimentos pessoais, enquanto Williams aproveitou para realizar experimentos, como o cultivo de plantas, que podem beneficiar futuras missões a Marte.

Impacto político e midiático

A missão ganhou contornos políticos nos EUA. O presidente Donald Trump, ao assumir em janeiro de 2025, pressionou por um retorno rápido, alegando, sem evidências, que a administração anterior os havia “abandonado”. A NASA refutou as acusações, destacando que a segurança foi a prioridade na decisão de adiar o resgate.

A cobertura midiática transformou Wilmore e Williams em figuras globais. A estadia prolongada, embora não seja a mais longa – o cosmonauta Valeri Polyakov passou 437 dias na estação Mir entre 1994 e 1995 –, gerou debates sobre a confiabilidade da Boeing e o futuro das parcerias privadas na exploração espacial.

Cronograma da missão

A trajetória de Wilmore e Williams seguiu etapas marcantes:

  • 5 de junho de 2024: lançamento da Starliner de Cabo Canaveral.
  • 13 de junho de 2024: chegada à ISS e início da missão.
  • Setembro de 2024: retorno sem tripulação da Starliner.
  • 28 de setembro de 2024: lançamento da Crew-9 com assentos reservados.
  • 18 de março de 2025: pouso da Dragon no Golfo do México.

O futuro das missões espaciais

A experiência de Wilmore e Williams pode moldar o programa espacial da NASA. A Boeing enfrenta pressão para corrigir a Starliner, enquanto a SpaceX solidifica sua liderança. Ambos os astronautas expressaram vontade de voltar ao espaço. “Quero ir à Lua e a Marte”, disse Wilmore, com Williams afirmando que o acompanharia.

A missão custou tempo e recursos, mas trouxe dados valiosos. Dos 33 experimentos conduzidos pela dupla, muitos focaram em tecnologias para voos de longa duração, essenciais para planos futuros da NASA, como a missão Artemis ao redor da Lua.

Reflexões dos astronautas

Wilmore enfatizou o dever nacional acima das dificuldades pessoais. “Não é sobre mim ou meus sentimentos, mas sobre o que nossa nação precisa”, declarou. Williams viu a estadia como uma chance de contribuir para a ciência, aproveitando cada dia na ISS para avançar o conhecimento humano.

A missão, apesar dos contratempos, não foi vista como fracasso. Para os astronautas, os 286 dias foram um teste de preparação e resiliência, com lições que podem prevenir problemas em voos futuros e fortalecer a exploração espacial.

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