Conclave 2025: Cardeal Orani Tempesta lidera brasileiros na sucessão de Francisco com foco na Igreja moderna

A morte do papa Francisco, aos 88 anos, em 21 de abril de 2025, marca o início de um momento decisivo para a Igreja Católica. O pontífice argentino, primeiro latino-americano a ocupar o cargo, deixou um legado de reformas, abertura ao diálogo inter-religioso e ênfase na justiça social. Agora, o Colégio de Cardeais se prepara para o Conclave, que escolherá o próximo líder da instituição que reúne mais de 1,3 bilhão de fiéis em todo o mundo. Entre os nomes em destaque está o do cardeal Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, apontado como possível candidato à sucessão.
O Conclave, que deve ocorrer nos próximos dias no Vaticano, reúne cardeais com menos de 80 anos, aptos a votar. Atualmente, 122 cardeais têm direito ao voto, embora dois alcancem o limite de idade ainda em 2025, reduzindo o número para 120, conforme a tradição da Igreja. O Brasil, com seis cardeais eleitores, tem peso significativo nesse processo. Além de Tempesta, outros nomes brasileiros, como Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, e Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, também participam da votação.
A escolha do próximo papa envolve não apenas questões espirituais, mas também administrativas e políticas dentro da Igreja. Francisco, ao longo de seus quase 12 anos de pontificado, promoveu mudanças como a maior inclusão de leigos, a descentralização de decisões e a tolerância zero contra abusos sexuais. O novo pontífice terá a missão de dar continuidade a essas reformas ou ajustar o rumo da Igreja frente aos desafios contemporâneos, como a secularização e as tensões internas entre alas conservadoras e progressistas.
- O que está em jogo no Conclave: Escolha de um líder que equilibre tradição e modernidade.
- Cardeais brasileiros: Seis representantes, com destaque para Orani Tempesta.
- Legado de Francisco: Reformas sociais e combate à pedofilia como prioridades.
Perfil de Orani Tempesta: um líder em ascensão
Orani João Tempesta, de 74 anos, é uma figura central no cenário católico brasileiro. Nascido em São José do Rio Pardo, São Paulo, ele ingressou no Mosteiro de São Bento em 1967 e foi ordenado sacerdote em 1974. Sua trajetória inclui passagens como bispo de São José do Rio Preto e arcebispo de Belém antes de assumir a Arquidiocese do Rio de Janeiro em 2009. Em 2014, foi nomeado cardeal pelo papa Francisco, consolidando sua influência na Igreja global.
Tempesta ganhou destaque por sua habilidade em lidar com grandes eventos, como a Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro. O evento, que reuniu milhões de jovens em Copacabana, foi marcado pela mensagem de otimismo de Francisco, reforçada pela organização liderada pelo arcebispo. Em entrevista recente, Tempesta destacou a importância de ouvir o Espírito Santo no Conclave, rejeitando a ideia de competição entre cardeais e enfatizando o serviço à Igreja.
Sua postura moderada, aliada à experiência em uma das arquidioceses mais importantes do Brasil, coloca Tempesta como um nome viável para o papado. Ele é visto como um continuador do estilo pastoral de Francisco, com ênfase no diálogo com a sociedade e na inclusão dos mais pobres. No entanto, o cardeal enfrenta a concorrência de outros nomes internacionais, como o italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e o filipino Luis Antonio Tagle, prefeito do Dicastério para a Evangelização.
O peso dos cardeais brasileiros no Conclave
O Brasil, maior país católico do mundo, com cerca de 130 milhões de fiéis, tem uma representação expressiva no Conclave. Além de Tempesta, cinco outros cardeais brasileiros estão aptos a votar: Dom Leonardo Steiner, Dom Jaime Spengler, Dom Paulo Cezar Costa, Dom Sérgio da Rocha e Dom Odilo Scherer. Cada um deles traz uma perspectiva única, refletindo a diversidade da Igreja no país.
Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, é conhecido por sua defesa da Amazônia e dos povos indígenas, uma causa abraçada por Francisco no Sínodo da Amazônia de 2019. Steiner, que se tornou cardeal em 2022, representa a ala mais progressista da Igreja brasileira, alinhada às questões ambientais e sociais. Já Dom Jaime Spengler, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), combina uma abordagem pastoral com uma forte atuação administrativa, sendo nomeado cardeal em 2024.
Dom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília, e Dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Salvador, também têm papéis relevantes. Costa, com sua experiência na capital federal, é uma voz influente em questões éticas e políticas, enquanto Rocha, ex-presidente da CNBB, é respeitado por sua liderança em momentos de crise. Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, já foi considerado um potencial candidato ao papado em 2013, mas sua idade avançada reduz suas chances em 2025.
- Cardeais brasileiros eleitores:
- Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro.
- Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus.
- Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre.
- Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília.
- Sérgio da Rocha, arcebispo de Salvador.
- Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo.
Legado de Francisco molda expectativas
O pontificado de Francisco, iniciado em 2013, foi marcado por uma abordagem pastoral que priorizou os marginalizados. Jorge Mario Bergoglio, nascido em Buenos Aires, assumiu o papado após a renúncia histórica de Bento XVI, um evento raro na Igreja. Ele trouxe uma visão menos centralizada, incentivando as conferências episcopais regionais a terem maior autonomia. Sua encíclica Laudato Si’, de 2015, foi a primeira da história a abordar a crise climática, influenciando debates globais.
Francisco também enfrentou desafios internos. Sua tolerância zero contra a pedofilia resultou em medidas mais rígidas, como a criação de comissões para investigar abusos. No entanto, ele enfrentou críticas de setores conservadores por sua abertura a temas como o acolhimento de divorciados e a inclusão de pessoas LGBTQIA+ na Igreja. Essas tensões devem influenciar o Conclave, com cardeais divididos entre manter o rumo progressista ou adotar uma postura mais tradicional.
A Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro, foi um marco de seu pontificado. Apesar das tensões sociais no Brasil à época, com protestos contra o governo, a presença de Francisco trouxe um clima de unidade. A missa em Copacabana, que reuniu cerca de 3 milhões de pessoas, foi um dos maiores eventos da história da cidade. Tempesta, como anfitrião, destacou a capacidade do papa de transmitir esperança em momentos de crise.
Como funciona o Conclave
O Conclave é o processo pelo qual os cardeais elegem o novo papa. Realizado na Capela Sistina, ele é marcado por rituais seculares e sigilo absoluto. Os cardeais eleitores, todos com menos de 80 anos, reúnem-se após a morte ou renúncia do pontífice. O processo começa com a preparação do funeral, que inclui a exposição do corpo na Basílica de São Pedro e a missa de corpo presente na Praça de São Pedro.
Durante o Conclave, os cardeais votam até que um candidato alcance dois terços dos votos. Cada dia, ocorrem até quatro escrutínios, com a queima dos votos produzindo a famosa fumaça: preta, se não houver consenso, ou branca, quando o novo papa é escolhido. O eleito assume o cargo ao aceitar a nomeação e escolher seu nome papal. Em seguida, aparece na varanda da Basílica de São Pedro para a saudação “Habemus Papam”.
O sigilo do Conclave é rigoroso. Os cardeais fazem um juramento de silêncio, e a Capela Sistina é inspecionada para evitar qualquer tipo de interferência externa. A escolha reflete não apenas a orientação espiritual dos cardeais, mas também alianças e negociações internas, embora Tempesta tenha enfatizado que o objetivo é buscar a vontade divina, não o poder.
- Etapas do Conclave:
- Preparação do funeral e novemdiales (nove dias de luto).
- Reunião dos cardeais eleitores na Capela Sistina.
- Votação secreta até alcançar dois terços dos votos.
- Anúncio do novo papa com a saudação “Habemus Papam”.
Desafios do próximo pontífice
O novo papa enfrentará um cenário complexo. A Igreja Católica, embora influente, lida com a perda de fiéis em regiões como a Europa, onde a secularização avança. Na América Latina, que concentra 40% dos católicos do mundo, o crescimento de igrejas evangélicas é um desafio. Além disso, questões como a ordenação de mulheres, o celibato sacerdotal e o diálogo com outras religiões permanecem em debate.
A descentralização promovida por Francisco, com maior autonomia para as conferências episcopais, pode ser mantida ou revertida, dependendo do perfil do novo pontífice. A ala conservadora, liderada por cardeais como o americano Raymond Burke, defende um retorno às tradições, enquanto progressistas, como Tagle, apoiam a continuidade das reformas. O Brasil, com sua forte presença católica, tende a favorecer um papa alinhado ao legado de Francisco.
A saúde do próximo papa também será um fator. Francisco enfrentou problemas respiratórios, culminando em sua internação por 38 dias em 2025. Sua decisão de simplificar os rituais fúnebres, eliminando a exposição do corpo fora do caixão, reflete uma visão prática que pode influenciar futuros pontificados. O novo líder precisará combinar vigor físico com habilidade diplomática para navegar as tensões globais.
Influência brasileira na Igreja global
O Brasil sempre teve um papel estratégico na Igreja Católica. Além de ser o país com mais católicos, sua hierarquia eclesiástica é uma das mais organizadas, com 280 circunscrições eclesiásticas, incluindo 47 arquidioceses. A CNBB, fundada há décadas, é uma das conferências episcopais mais influentes, articulando os bispos em questões sociais e políticas.
Os cardeais brasileiros, especialmente Tempesta e Spengler, têm se destacado em debates globais. Tempesta, por exemplo, participou de sínodos no Vaticano, enquanto Spengler liderou discussões sobre a formação de novos sacerdotes. A experiência desses líderes em contextos de desigualdade social e diversidade cultural os torna vozes respeitadas no Colégio de Cardeais.
A presença brasileira no Conclave também reflete a importância da América Latina. Desde a eleição de Francisco, a região ganhou visibilidade, com cardeais latino-americanos ocupando cargos-chave na Cúria Romana. A escolha de um papa brasileiro, embora improvável, seria um marco histórico, consolidando a influência do continente na Igreja.
Papel dos arcebispos na sucessão
Os arcebispos, como líderes de arquidioceses, têm um papel crucial na Igreja. No Brasil, eles comandam províncias eclesiásticas, supervisionando bispos e coordenando ações pastorais. Tempesta, como arcebispo metropolitano do Rio, é responsável por uma das arquidioceses mais importantes, com milhões de fiéis. Sua experiência o coloca em posição de destaque no Conclave.
Outros arcebispos brasileiros, como Steiner e Scherer, também influenciam o cenário. Steiner, por exemplo, tem sido uma voz ativa na defesa da Amazônia, enquanto Scherer, apesar da idade, mantém influência em São Paulo, maior arquidiocese do país. Esses líderes, mesmo os não eleitores, participam das discussões prévias ao Conclave, ajudando a moldar o perfil do próximo papa.
A hierarquia católica, com arcebispos no topo das províncias eclesiásticas, garante a unidade da Igreja. No Brasil, a organização em arquidioceses e dioceses permite uma gestão eficiente, com cada arcebispo atuando como um elo entre o Vaticano e as comunidades locais. Essa estrutura será fundamental para implementar as decisões do novo pontífice.
- Arcebispos brasileiros em destaque:
- Orani Tempesta: Lidera o Rio de Janeiro e é cardeal eleitor.
- Leonardo Steiner: Defende a Amazônia e representa a ala progressista.
- Odilo Scherer: Influente em São Paulo, mas com chances reduzidas.
- Jaime Spengler: Presidente da CNBB e cardeal recente.
Expectativas para o novo papado
A escolha do próximo papa será um divisor de águas. A Igreja enfrenta pressões internas, com debates sobre a inclusão de minorias e a modernização da liturgia, e externas, como a competição com outras denominações cristãs. O Brasil, com sua diversidade cultural e desafios sociais, será um termômetro para o sucesso do novo pontificado.
Os cardeais brasileiros, liderados por Tempesta, carregam a responsabilidade de representar não apenas o país, mas a América Latina. Suas vozes, moldadas por décadas de trabalho em comunidades marcadas pela pobreza e pela fé, podem influenciar a escolha de um papa que mantenha a Igreja relevante no século XXI.
O Conclave, com sua mistura de espiritualidade e estratégia, será acompanhado por milhões de fiéis. A fumaça branca, sinal da eleição, marcará o início de uma nova era. Enquanto isso, o legado de Francisco, com sua ênfase na humildade e no serviço, continua a ecoar, guiando os cardeais em sua decisão.
