A construção do complexo industrial da BYD em Camaçari, na Bahia, avança em ritmo acelerado, mas as promessas de produção local ainda geram dúvidas. A vice-presidente global da montadora chinesa, Stella Li, anunciou que a fábrica iniciará a montagem de veículos em junho de 2025, com o Dolphin Mini e o Song Pro como os primeiros modelos. No entanto, a falta de comunicação com os trabalhadores e o receio do sindicato local lançam sombras sobre o projeto. A unidade, instalada no antigo terreno da Ford, é vista como um marco para a indústria automotiva brasileira.
O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari expressa preocupação com a possibilidade de o complexo se tornar apenas um centro de distribuição. A montadora, que já opera com navios próprios para importar milhares de veículos, pode priorizar a montagem de kits SKD (Semi Knocked Down) em vez de uma produção completa. A promessa de 10 mil empregos diretos até o fim de 2025 segue no radar, mas a ausência de detalhes concretos alimenta a desconfiança. Enquanto isso, a BYD reforça seu compromisso com o mercado brasileiro.
A fábrica de Camaçari representa um investimento de R$ 5,5 bilhões, com capacidade inicial para 150 mil veículos por ano. A unidade é estratégica para a expansão da BYD na América Latina, mas os prazos apertados e as denúncias de irregularidades no canteiro de obras, como as condições precárias de trabalhadores chineses, atrasaram o cronograma. Para entender o cenário, é preciso analisar os planos da montadora e as tensões com os trabalhadores locais.

- Investimento inicial: R$ 5,5 bilhões para transformar o antigo complexo da Ford.
- Capacidade inicial: 150 mil veículos por ano, com possibilidade de expansão para 300 mil até 2027.
- Modelos confirmados: Dolphin Mini (elétrico) e Song Pro (híbrido plug-in).
- Empregos previstos: 10 mil diretos até o fim de 2025, com meta de 20 mil até 2026.
Promessa de produção local
A BYD anunciou que a produção em Camaçari começará em junho de 2025, com foco inicial no Dolphin Mini, o carro elétrico mais vendido no Brasil em 2024, e no Song Pro, um SUV híbrido plug-in. A montagem será feita em regime SKD, com kits pré-fabricados importados da China. A transição para o modo CKD (Completely Knocked Down), que envolve maior nacionalização de componentes, está prevista para o final do ano. A fábrica terá capacidade para produzir até 12 modelos diferentes, mas o início em baixa escala preocupa os trabalhadores.
Stella Li, em visita à China, afirmou que a planta baiana será a primeira linha de montagem de automóveis da BYD fora da Ásia. A executiva destacou a importância do Brasil como hub para exportação na América Latina. No entanto, o sindicato local contesta a falta de transparência sobre o cronograma. Segundo Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, a montadora não informou os trabalhadores sobre os planos de junho, gerando desconfiança sobre a real intenção da empresa.
A produção em SKD, embora permita classificar os veículos como nacionais e escapar de tarifas de importação, é vista como insuficiente pelo sindicato. Bonfim enfatiza que a comunidade espera uma fábrica completa, com processos como estamparia, solda e pintura realizados localmente. A meta da BYD é alcançar 70% de nacionalização em cinco anos, mas os prazos curtos e a dependência de peças chinesas levantam questionamentos.
Histórico de atrasos
O projeto da BYD em Camaçari enfrentou diversos obstáculos desde o anúncio, em 2023. Inicialmente, a produção estava prevista para o final de 2024, mas denúncias de más condições de trabalho no canteiro de obras alteraram os planos. Em dezembro de 2024, o Ministério Público do Trabalho resgatou 163 trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão, contratados pela terceirizada Jinjiang. O caso levou à suspensão de vistos temporários para a BYD e ao embargo parcial das obras.
A montadora rompeu com a Jinjiang e prometeu corrigir as irregularidades, mas o incidente abalou a confiança dos trabalhadores locais. As obras, que ocupam 1,2 mil funcionários atualmente, só devem ser concluídas no segundo semestre de 2025. A primeira fase, chamada de 1.1, inclui galpões de montagem, inspeção final e uma pista de testes. A fase 1.2, com estamparia e pintura, está prevista para agosto de 2025, mas o sindicato teme que os prazos sejam novamente adiados.
- Denúncias: 163 trabalhadores resgatados em condições precárias em 2024.
- Embargo: Parte das obras foi suspensa pelo Ministério Público do Trabalho.
- Nova previsão: Conclusão das obras no segundo semestre de 2025.
- Fases do projeto: Fase 1.1 (montagem SKD) e 1.2 (produção CKD).
Tensão com o sindicato
O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari mantém uma postura vigilante sobre os planos da BYD. Em reunião marcada para maio de 2025, os representantes sindicais cobrarão esclarecimentos sobre o cronograma e a escala de produção. A ausência de contratações em grande volume, com apenas 350 trabalhadores na planta atualmente, reforça as suspeitas de que a fábrica não operará em plena capacidade no curto prazo. O sindicato exige garantias de que Camaçari não será apenas um ponto de montagem de kits importados.
Júlio Bonfim, líder sindical, criticou a estratégia da BYD de importar grandes quantidades de veículos. Em abril de 2025, um navio com 7 mil carros partiu da China para o Brasil, superando o recorde anterior de 5,5 mil unidades. A frota de navios próprios da montadora, atualmente com quatro embarcações, deve dobrar até 2026, aumentando a capacidade de transporte para 58 mil veículos por viagem. Esses números sugerem que a importação pode continuar sendo a principal fonte de abastecimento do mercado brasileiro.
A BYD, em nota oficial, reafirmou seu compromisso com a reindustrialização de Camaçari. A montadora destacou que a fábrica será seu maior polo industrial fora da China, com foco na sustentabilidade e na inovação. Apesar das promessas, a falta de diálogo com os trabalhadores e as incertezas sobre a nacionalização de componentes mantêm a tensão com o sindicato.
Logística de importação
A operação logística da BYD impressiona pelo volume e pela eficiência. A montadora utiliza navios Ro-Ro (roll-on/roll-off) próprios, como o Explorer No.1 e o Shenzhen, para transportar veículos da China ao Brasil. Em 2024, a empresa trouxe 5,5 mil carros em uma única viagem, número que saltou para 7 mil em abril de 2025. A frota atual permite transportar 28 mil veículos por viagem, e a expansão para oito navios até 2026 elevará essa capacidade significativamente.
A estratégia de importação é reforçada pela ampliação da fábrica da BYD em Zhengzhou, na China, que atingirá a produção de 1 milhão de unidades por ano em 2025. Essa capacidade permite à montadora suprir o mercado brasileiro sem depender exclusivamente da produção local. O sindicato teme que a logística robusta reduza a necessidade de uma fábrica completa em Camaçari, transformando o complexo em um centro de distribuição para a América Latina.
- Frota atual: Quatro navios Ro-Ro com capacidade de 28 mil veículos por viagem.
- Expansão: Oito navios até 2026, transportando até 58 mil veículos por viagem.
- Recorde: 7 mil carros importados em uma única viagem em abril de 2025.
- Fábrica chinesa: Zhengzhou produzirá 1 milhão de unidades por ano em 2025.
Modelos em destaque
O Dolphin Mini, um hatch compacto elétrico, é a aposta inicial da BYD para a produção em Camaçari. Lançado no Brasil em fevereiro de 2024, o modelo vendeu quase 22 mil unidades em 2024, liderando o ranking de carros elétricos. Em 2025, já emplacou 6,5 mil exemplares até março, ocupando a 23ª posição entre os veículos mais vendidos. Com preço a partir de R$ 118,8 mil, o Dolphin Mini oferece 75 cv de potência, 13,7 mkgf de torque e autonomia de 280 km, segundo o Inmetro.
O Song Pro, um SUV médio híbrido plug-in, complementa a linha inicial. O modelo, lançado em julho de 2024, registra cerca de mil unidades vendidas por mês. Equipado com um motor 1.5 flex, que aceita gasolina ou etanol, o Song Pro terá um sistema de pré-aquecimento para reduzir emissões na partida a frio. A produção desse motor em Camaçari está confirmada, mas a dependência de baterias importadas, ao menos inicialmente, limita a nacionalização.
A BYD planeja expandir a oferta com outros modelos, como o Yuan Plus, o Dolphin e o King, além da picape Shark. A montadora também desenvolve dois veículos exclusivos para o mercado brasileiro, incluindo uma picape compacta apelidada de “Baby Shark”, voltada para competir com a Fiat Strada. Esses lançamentos estão previstos para o final de 2025 ou início de 2026.
Investimento e infraestrutura
A BYD adquiriu o complexo de Camaçari, que pertenceu à Ford até 2021, por R$ 287,8 milhões em 2023. A área de 4,6 milhões de metros quadrados está sendo transformada com a construção de 26 novas instalações, incluindo galpões de produção, uma pista de testes e armazéns. A primeira fase ocupa 1 milhão de metros quadrados, e os antigos prédios da Ford serão demolidos para dar lugar a estruturas modernas.
O investimento inicial de R$ 3 bilhões foi ampliado para R$ 5,5 bilhões, refletindo a ambição da BYD de tornar Camaçari um hub de inovação. A montadora planeja construir residências para até 4,2 mil funcionários, a 3,5 km da fábrica, seguindo o modelo de sua sede em Shenzhen, na China. Um centro de pesquisa e desenvolvimento também está nos planos, com 2 mil profissionais dedicados a adaptar veículos às preferências brasileiras, como o uso de etanol.
- Aquisição: R$ 287,8 milhões pelo terreno da Ford em 2023.
- Infraestrutura: 26 novas instalações, incluindo pista de testes e armazéns.
- Residências: Complexo habitacional para 4,2 mil funcionários.
- Pesquisa: Centro de P&D com 2 mil profissionais.
Estratégia para o mercado brasileiro
A BYD já detém 2,98% do mercado automotivo brasileiro, ocupando a décima posição em vendas de carros e veículos comerciais leves. Em novembro de 2024, a montadora registrou um recorde de 12,3 mil unidades vendidas, impulsionadas pelas promoções de Black Friday. A empresa projeta um crescimento de 50% em 2025, mesmo com previsões de estabilidade no setor automotivo. A produção local é vista como essencial para reduzir custos e competir com marcas tradicionais.
A aposta em veículos híbridos flex, como o Song Pro, reflete a adaptação da BYD às peculiaridades do mercado brasileiro. O etanol, destacado por Stella Li como uma força do país, será central na estratégia da montadora. A produção de motores flex em Camaçari, com tecnologia para minimizar emissões, reforça o compromisso com a sustentabilidade. No entanto, a importação de baterias Blade, de fosfato de ferro-lítio, pode limitar a competitividade de preço no curto prazo.
A BYD também enfrenta resistência de concorrentes, que acusam a montadora de praticar concorrência desleal devido a subsídios do governo chinês. A Anfavea, associação das montadoras, propôs elevar os impostos sobre kits SKD e CKD, o que poderia encarecer a operação da BYD. Apesar disso, a empresa mantém o discurso de integração ao mercado brasileiro, com planos de ser vista como uma marca local.
Expansão na América Latina
A fábrica de Camaçari não atenderá apenas o Brasil, mas também servirá como base de exportação para outros países da América Latina. A localização estratégica, próxima a portos, facilita a distribuição de veículos para mercados como Argentina, Chile e Colômbia. A BYD já comercializa modelos como o Dolphin e o Yuan Plus em diversos países da região, e a produção local pode reduzir custos logísticos e tarifas de importação.
A montadora planeja consolidar sua presença na América Latina com uma oferta diversificada de veículos elétricos e híbridos. O Dolphin Mini, por exemplo, foi lançado simultaneamente no Brasil e no México em 2024, tornando-se um sucesso em ambos os mercados. A “Baby Shark”, picape compacta em desenvolvimento, também terá foco regional, mirando a demanda por veículos versáteis em países com forte cultura de picapes.
- Exportação: Camaçari será hub para Argentina, Chile, Colômbia e outros.
- Modelos regionais: Dolphin Mini e “Baby Shark” voltados para a América Latina.
- Logística: Proximidade com portos reduz custos de distribuição.
- Presença atual: BYD já opera em mais de 10 países da região.
Tecnologia e inovação
A BYD destaca sua expertise em tecnologias de eletrificação, como a bateria Blade, que equipa o Dolphin Mini. Com 38,9 kWh, a bateria oferece até 340 km de autonomia em condições reais, segundo testes do ciclo WLTP. A recarga rápida, de 30% a 80% em 30 minutos, é outro diferencial do modelo. A montadora planeja nacionalizar a produção de baterias em Camaçari, mas ainda não definiu um prazo para isso.
O motor 1.5 flex do Song Pro, projetado para etanol e gasolina, incorpora inovações como o pré-aquecimento do combustível, eliminando a necessidade de um tanquinho auxiliar. A tecnologia híbrida plug-in da BYD, chamada DM-i, combina eficiência energética com desempenho, permitindo ao Song Pro rodar dezenas de quilômetros em modo elétrico. Essas inovações serão centrais na estratégia da montadora para conquistar o consumidor brasileiro.
A criação de um centro de pesquisa em Camaçari reforça o foco em inovação. A BYD planeja adaptar seus veículos às preferências locais, como o desenvolvimento de picapes compactas e SUVs híbridos otimizados para etanol. A meta é transformar a planta baiana em um “Vale do Silício” automotivo, com impacto global na pesquisa de mobilidade sustentável.
Desafios regulatórios
A operação da BYD em Camaçari enfrenta barreiras regulatórias no Brasil. A proposta da Anfavea para elevar os impostos sobre kits SKD e CKD, de 16% e 18% para 35%, pode encarecer a montagem inicial da montadora. A medida, defendida por concorrentes como Toyota e Volkswagen, visa proteger a indústria local, mas é criticada pela BYD como uma tentativa de frear sua expansão.
O aumento gradual do Imposto de Importação para veículos elétricos e híbridos, que chegará a 25% para elétricos puros e 28% para híbridos plug-in em julho de 2025, também pressiona a BYD a acelerar a produção local. A montadora pediu ao governo federal incentivos fiscais para a montagem de kits, mas a negociação segue em aberto. A resolução dessas questões será crucial para o sucesso do projeto em Camaçari.
- Impostos atuais: 16% (SKD) e 18% (CKD), com proposta de aumento para 35%.
- Importação: Tarifas de 25% (elétricos) e 28% (híbridos plug-in) a partir de julho de 2025.
- Negociação: BYD busca incentivos fiscais para montagem local.
- Concorrência: Anfavea defende medidas para proteger montadoras tradicionais.
Contratações e impacto local
A BYD iniciou o processo de contratações para a fábrica de Camaçari em janeiro de 2025, com 2 mil vagas abertas. Outras 3 mil posições serão preenchidas em maio, e mais 5 mil em agosto, totalizando 10 mil empregos diretos até o fim do ano. As vagas abrangem áreas como produção, logística e pesquisa, com prioridade para profissionais da Bahia. A montadora também planeja treinar engenheiros e técnicos locais para liderar projetos de inovação.
O impacto econômico na região é significativo. A construção da fábrica já gerou 1,2 mil empregos temporários, e a operação plena deve impulsionar indústrias correlatas, como fornecedores de peças e serviços logísticos. A promessa de 20 mil empregos diretos e indiretos até 2026 reforça o potencial de Camaçari como polo industrial. No entanto, a lentidão nas contratações e a falta de clareza sobre os prazos mantêm os trabalhadores em alerta.
Recepção no mercado
O Dolphin Mini e o Song Pro chegam ao mercado brasileiro com forte apelo. O hatch elétrico, com preço acessível e autonomia adequada para o uso urbano, conquistou consumidores em busca de mobilidade sustentável. O Song Pro, por sua vez, compete em um segmento concorrido de SUVs médios, enfrentando modelos como o Toyota Corolla Cross e o Jeep Compass. A produção local pode reduzir os preços, aumentando a competitividade dos modelos.
A BYD também investe em parcerias para expandir sua rede de recarga. Uma colaboração com a Shell prevê a instalação de pontos de recarga rápida em postos de combustíveis, facilitando a adoção de veículos elétricos. A montadora já opera 30 concessionárias no Brasil e planeja chegar a 100 até o fim de 2025, garantindo maior capilaridade no atendimento ao cliente.
- Vendas 2024: Dolphin Mini com 22 mil unidades; Song Pro com mil unidades mensais.
- Rede de recarga: Parceria com a Shell para pontos de recarga rápida.
- Concessionárias: 30 em operação, com meta de 100 até o fim de 2025.
- Competitividade: Produção local pode reduzir preços de Dolphin Mini e Song Pro.