crise financeira que assola a Neta Auto, marca chinesa de veículos elétricos, alcançou proporções alarmantes em 2025, com reflexos diretos no Brasil, onde a empresa emplacou apenas 46 carros desde sua chegada. A controladora Hozon Auto enfrenta um processo de revisão de falência na China, desencadeado por dívidas acumuladas com fornecedores, acionistas e até concessionários. A situação, que se arrasta desde o final de 2024, ganhou novos contornos com a frustração de um aporte financeiro esperado de US$ 500 milhões, que prometia reativar as operações da companhia. No mercado global, a Neta viu suas vendas despencarem, enquanto no Brasil, a operação local enfrenta desafios logísticos e comerciais.
No Brasil, a Neta Auto iniciou suas atividades em agosto de 2024 com grandes expectativas, trazendo os modelos Aya e Neta X ao mercado de veículos elétricos. Contudo, a realidade foi bem diferente das projeções. A marca enfrenta baixa procura, veículos encalhados em estoques e até a interrupção de planos de expansão, como a abertura de uma nova concessionária em Niterói, no Rio de Janeiro. A situação reflete o cenário crítico vivido pela empresa em outros mercados, como China e Tailândia, onde protestos de concessionários e credores se intensificaram.
- Fatos principais da crise:
- Processo de revisão de falência iniciado por dívida de US$ 730 mil com a Yuxing Advertising.
- Queda de 98% nas vendas na China em janeiro de 2025.
- Apenas 46 veículos emplacados no Brasil até abril de 2025.
- Dívidas globais da Hozon Auto chegam a US$ 1,4 bilhão.
Origem dos problemas financeiros
A crise da Neta Auto teve início no final de 2024, quando a empresa enfrentou uma drástica redução nas vendas no mercado chinês, seu principal polo de atuação. Em seu auge, em meados de 2022, a companhia chegava a emplacar 18 mil unidades por mês na China. No entanto, os números de 2025 mostram um colapso: apenas 400 unidades foram vendidas em fevereiro, segundo dados da consultoria Marklines. A produção também foi severamente impactada, com apenas 48 veículos fabricados no país ao longo do ano. A combinação de baixa demanda e dificuldades financeiras levou a Hozon Auto a acumular dívidas expressivas, estimadas em quase R$ 8 bilhões.
Na tentativa de conter a crise, a Neta Auto propôs, em março de 2025, um plano de reestruturação que incluía a conversão de 70% das dívidas com fornecedores em ações da Hozon Auto. A iniciativa, que envolveu 134 fornecedores, incluindo gigantes como CATL e Gotion High-Tech, visava aliviar a pressão financeira e retomar a produção. Apesar do apoio inicial, a estratégia não foi suficiente para estabilizar as finanças, e a empresa continuou enfrentando disputas judiciais, com mais de 400 processos em andamento.
A agência de publicidade Yuxing Advertising, credora de US$ 730 mil, foi a responsável por iniciar o processo de revisão de falência nos tribunais chineses. O pedido, protocolado em maio de 2025, reflete a insatisfação de fornecedores que aguardam pagamento por serviços prestados entre 2022 e 2023. Embora a Hozon Auto negue a falência e classifique o processo como um procedimento padrão, o caso expôs a fragilidade da empresa em cumprir suas obrigações financeiras.
Reações no mercado chinês
Na China, a crise da Neta Auto gerou uma onda de protestos entre concessionários e fornecedores. Em abril de 2025, dezenas de concessionários se reuniram em frente à fábrica da marca em Tongxiang, na província de Zhejiang, exigindo providências contra o que classificaram como um “calote” da empresa. A insatisfação se deveu à falta de repasses financeiros e ao atraso na entrega de veículos, o que comprometeu a operação de diversas revendas. A situação ganhou destaque na mídia local, com relatos de concessionários enfrentando prejuízos significativos.
Além dos protestos, a Neta Auto também enfrentou rumores de uma possível aquisição pela Toyota, que poderia resgatar a empresa da crise. As especulações, que circularam em maio de 2025, sugeriam que a gigante japonesa estaria interessada em incorporar a Neta para fortalecer sua presença no mercado de veículos elétricos chinês. No entanto, a Toyota negou categoricamente os rumores. Xu Yiming, chefe de comunicação da empresa na China, afirmou que a companhia “nunca considerou” a aquisição e pediu esclarecimentos sobre a origem das informações.
- Impactos no mercado chinês:
- Produção reduzida a 48 veículos em 2025.
- Vendas caíram de 18 mil unidades mensais em 2022 para 400 em fevereiro de 2025.
- Protestos de concessionários em Zhejiang por atrasos nos pagamentos.
- Mais de 400 disputas judiciais em andamento contra a Hozon Auto.
Operações na Tailândia sob pressão
A Tailândia, um dos mercados estratégicos da Neta Auto, também sentiu os reflexos da crise. Em abril de 2025, a empresa emplacou apenas 129 veículos no país, uma queda significativa em relação às 985 unidades licenciadas em janeiro. Apesar disso, a Neta Auto Tailândia emitiu comunicados reforçando seu compromisso com o mercado local, onde possui mais de 25 mil proprietários de veículos. A empresa anunciou a construção de um novo Centro de Distribuição de Peças de Reposição, previsto para entrar em operação em maio de 2025, com o objetivo de melhorar o fornecimento de peças e reduzir o tempo de espera para reparos.
Para conter os rumores de falência, a Neta Auto Tailândia esclareceu que o processo iniciado pela Yuxing Advertising é apenas uma revisão judicial, e não uma declaração oficial de falência. A companhia destacou que está negociando ativamente com fornecedores para resolver as dívidas e implementar medidas como a otimização organizacional e a busca por novos financiamentos. Entre as estratégias, está a assinatura de acordos de troca de dívida por capital, que já contam com o apoio de grandes fornecedores.
A operação tailandesa também enfrenta desafios logísticos. A demora no fornecimento de peças de reposição tem gerado insatisfação entre os consumidores, que relatam longos períodos de espera para reparos. A construção do novo centro de distribuição é vista como uma tentativa de reverter esse cenário e recuperar a confiança dos clientes no país.
Desempenho no Brasil
No Brasil, a Neta Auto chegou com promessas ambiciosas, mas os resultados foram decepcionantes. Desde sua estreia em agosto de 2024, a marca emplacou apenas 46 veículos, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Em janeiro de 2025, foram 19 unidades, seguidas por oito em fevereiro, nove em março e apenas seis em abril. Os modelos Aya e Neta X, posicionados como concorrentes de veículos como o BYD Dolphin e o Yuan Plus, não conseguiram atrair consumidores, mesmo com preços competitivos e promoções agressivas.
Na concessionária Potenza, no Rio de Janeiro, os veículos estão sendo oferecidos com descontos de R$ 10 mil, além de benefícios como financiamento com taxa zero, IPVA grátis, Wallbox e emplacamento sem custo. Mesmo com subsídios que chegam a R$ 25 mil por veículo, a procura permanece baixa, e os carros acumulam poeira nos estoques. A situação é agravada pela suspensão de planos de expansão, como a abertura de uma nova revenda em Niterói, que foi interrompida devido à incerteza financeira da marca.
- Números da Neta no Brasil:
- Total de 46 veículos emplacados desde agosto de 2024.
- 19 unidades em janeiro, 8 em fevereiro, 9 em março e 6 em abril de 2025.
- Descontos de R$ 10 mil e subsídios de até R$ 25 mil por veículo.
- Site oficial da marca no Brasil fora do ar para manutenção.
O site da Neta Auto no Brasil, que deveria ser uma vitrine para os modelos Aya e Neta X, está fora do ar desde abril de 2025, exibindo apenas uma mensagem de manutenção. A última atualização no perfil oficial da marca no Instagram foi feita em 17 de abril, e a página no LinkedIn da operação brasileira foi desativada, sinalizando a paralisação das atividades de comunicação.
Estratégias de recuperação
Apesar da crise, a Hozon Auto tem buscado alternativas para evitar a falência. Além do plano de conversão de dívidas em ações, a empresa anunciou a obtenção de uma linha de crédito de 10 bilhões de baht tailandeses (cerca de US$ 215 milhões) na Tailândia, em março de 2025. O financiamento, destinado a estabilizar as operações no país, é parte de um esforço maior para retomar a produção e cumprir compromissos com fornecedores. A Neta também planeja atrair novos investidores, com negociações em andamento para um aporte que substitua o investimento de US$ 500 milhões que não se concretizou.
Outro movimento estratégico foi a assinatura de acordos de cooperação com grandes clientes, como empresas de mobilidade e frotistas, para garantir a demanda por seus veículos. A companhia também está promovendo uma reestruturação interna, com a redução de custos operacionais e a otimização de processos. Na Tailândia, a Neta Auto prometeu iniciar o pagamento de dívidas a concessionários e fornecedores entre abril e maio de 2025, antes de retomar a produção total de veículos elétricos.
Na China, a empresa enfrenta um cenário mais complexo. A Hozon Auto anunciou a dissolução de parte de sua equipe de pesquisa e desenvolvimento em Xangai, uma medida que gerou críticas entre os fornecedores, que temem a incapacidade da empresa de lançar novos modelos competitivos. A produção limitada a 48 veículos em 2025 reflete a dificuldade em manter as fábricas operacionais diante da falta de recursos financeiros.
Disputas judiciais em destaque
As mais de 400 disputas judiciais enfrentadas pela Hozon Auto são um dos principais entraves para sua recuperação. Além do processo iniciado pela Yuxing Advertising, a empresa está envolvida em cerca de 90 ações de execução, nas quais credores buscam o pagamento de dívidas por meios legais. Os tribunais chineses têm analisado os casos individualmente, mas a acumulação de processos aumenta a pressão sobre a companhia, que já enfrenta dificuldades para acessar novos financiamentos.
O pedido de revisão de falência, embora não signifique uma falência declarada, permite que os tribunais avaliem a situação financeira da Hozon Auto. Sob a lei chinesa, os credores têm o direito de solicitar esse tipo de revisão quando as dívidas não são quitadas, o que pode levar a medidas como a reestruturação forçada ou, em casos extremos, a liquidação de ativos. A Hozon Auto afirmou que está comprometida em resolver as disputas por meio de negociações diretas com os credores, mas a falta de progresso em alguns casos tem gerado desconfiança no mercado.
- Detalhes das disputas judiciais:
- 400 processos judiciais em andamento, incluindo ações de fornecedores e acionistas.
- 90 ações de execução para cobrança de dívidas.
- Revisão de falência solicitada pela Yuxing Advertising por dívida de US$ 730 mil.
- Negociações em curso para evitar a escalada dos processos.
Repercussão entre consumidores
A crise da Neta Auto também afetou a confiança dos consumidores, especialmente na Tailândia e no Brasil. Na Tailândia, os proprietários de veículos da marca expressaram preocupação com a disponibilidade de peças de reposição e a qualidade do atendimento pós-venda. Em fóruns online e comunidades de usuários, há relatos de atrasos de semanas para reparos simples, o que levou a Neta a priorizar a construção do novo centro de distribuição de peças. A empresa espera que a iniciativa, que deve entrar em operação em maio de 2025, melhore a experiência dos clientes e reduza as reclamações.
No Brasil, os poucos consumidores que adquiriram os modelos Aya e Neta X enfrentam incertezas sobre a continuidade da operação da marca. A paralisação do site oficial e a ausência de comunicação nas redes sociais aumentaram a percepção de abandono da marca no país. Alguns proprietários relataram dificuldades em obter informações sobre manutenção e garantia, o que compromete a reputação da Neta em um mercado já competitivo.
A Neta Auto Tailândia, em seu comunicado, destacou que a marca mantém a confiança de mais de 25 mil proprietários no país e que está comprometida em proteger os direitos dos consumidores. A empresa afirmou que os veículos da Neta continuam sendo uma escolha popular entre os tailandeses, especialmente por serem o primeiro carro elétrico de muitos clientes. No entanto, a falta de ações concretas no Brasil sugere que a operação local enfrenta desafios ainda mais profundos.
Medidas de reestruturação global
A Hozon Auto anunciou uma série de medidas para tentar reverter a crise global. Além da linha de crédito obtida na Tailândia, a empresa está negociando com novos investidores para injetar capital e retomar a produção em larga escala. Um grupo de investidores, liderado pelo executivo Yuqun Zeng, comprometeu-se a aportar 2 bilhões de yuans (cerca de US$ 280 milhões) em março de 2025, mas os detalhes do acordo ainda não foram finalizados.
A reestruturação organizacional também inclui a redução de 400 empregos na Tailândia, como parte de um plano para cortar custos e focar em mercados prioritários. A medida, anunciada em maio de 2025, gerou críticas entre os funcionários, que alegam falta de transparência no processo. Apesar disso, a Neta Auto afirmou que a redução é necessária para garantir a sustentabilidade das operações no longo prazo.
- Iniciativas de reestruturação:
- Linha de crédito de 10 bilhões de baht tailandeses (US$ 215 milhões).
- Negociações para aporte de 2 bilhões de yuans com novos investidores.
- Redução de 400 empregos na Tailândia.
- Conversão de 70% das dívidas com fornecedores em ações.
A empresa também planeja lançar novos modelos para recuperar a competitividade no mercado de veículos elétricos. O cupê elétrico GT, prometido para o Brasil, ainda não chegou às lojas, e sua estreia foi adiada indefinidamente devido à crise. Na China, a Neta Auto aposta na cooperação com grandes clientes, como empresas de mobilidade urbana, para garantir pedidos firmes e estabilizar as finanças.
Cronologia dos eventos
A trajetória da Neta Auto em 2024 e 2025 é marcada por uma sequência de desafios financeiros e operacionais. A seguir, os principais marcos da crise:
- Final de 2024: Queda nas vendas na China e início da crise financeira, com dívidas acumuladas de US$ 1,4 bilhão.
- Janeiro de 2025: Vendas despencam 98% na China, com apenas 400 unidades emplacadas em fevereiro.
- Março de 2025: Proposta de conversão de 70% das dívidas em ações, apoiada por 134 fornecedores.
- Abril de 2025: Protestos de concessionários em Zhejiang e interrupção da abertura de nova revenda no Brasil.
- Maio de 2025: Pedido de revisão de falência pela Yuxing Advertising e negação de rumores de aquisição pela Toyota.
A combinação desses eventos expôs a fragilidade da Neta Auto em manter sua operação global. Apesar das medidas anunciadas, a empresa ainda enfrenta incertezas sobre sua capacidade de cumprir os compromissos financeiros e retomar o crescimento.
Esforços para manter a operação tailandesa
Na Tailândia, a Neta Auto tem concentrado esforços para preservar sua base de clientes e evitar a deterioração de sua reputação. A construção do novo Centro de Distribuição de Peças de Reposição é uma das prioridades, com previsão de início das operações na última semana de maio de 2025. A iniciativa visa integrar os recursos de peças nacionais e internacionais, reduzindo o tempo de espera para reparos e melhorando a satisfação dos consumidores.
A empresa também anunciou planos para expandir sua rede de assistência técnica no país, com a abertura de novos pontos de atendimento em cidades estratégicas. A medida é vista como uma tentativa de reforçar a confiança dos proprietários, que temem a descontinuidade dos serviços devido à crise financeira. A Neta Auto Tailândia destacou que os 25 mil proprietários no país são uma base sólida para a continuidade das operações, mas a queda nas vendas em abril de 2025 indica que a recuperação será um desafio.
A linha de crédito de 10 bilhões de baht tailandeses, obtida em março de 2025, está sendo utilizada para pagar dívidas com fornecedores e concessionários, com prioridade para os compromissos assumidos entre abril e maio. A empresa espera que o financiamento permita a retomada da produção total de veículos elétricos no segundo semestre de 2025, mas o sucesso da estratégia depende da estabilização das finanças globais da Hozon Auto.