A garagem de uma casa em Alvorada, no Rio Grande do Sul, não abriga carros ou ferramentas, mas berços, mamadeiras e pincéis. Ali, Jhosi Silva, 39 anos, transforma pedaços de vinil em bebês reborn, bonecas hiper-realistas que conquistam crianças, colecionadores e até idosos. O ateliê, batizado de Jhosi Silva Reborn Art, é um dos muitos que florescem no Brasil, onde a arte reborn se consolida como negócio e expressão criativa. Cada boneca leva dias para ser concluída, com detalhes que vão de veias pintadas à mão a cabelos implantados fio a fio.
O fenômeno dos bebês reborn, que viralizou nas redes sociais, não é novo. Desde os anos 1990, artistas nos Estados Unidos começaram a criar bonecas com realismo impressionante, e a prática chegou ao Brasil nos últimos 20 anos. Hoje, ateliês como o de Jhosi e de Priscila Boniberg, em Porto Alegre, atendem a um público diverso, que busca desde brinquedos realistas para crianças até peças personalizadas para colecionadores. A produção artesanal exige paciência, investimento em materiais importados e um olhar atento para capturar a essência de um recém-nascido.
O mercado de bebês reborn no Brasil cresce em meio a debates. Enquanto alguns veem a prática como uma forma de arte ou terapia, outros questionam vídeos que mostram encenações exageradas, como “partos” simulados ou consultas médicas fictícias. Esses conteúdos, muitas vezes criados para engajamento online, geram críticas e mal-entendidos sobre o trabalho das artistas. No entanto, as “maternidades” reborn – como são chamados os ateliês – seguem focadas em atender demandas variadas, de crianças a adultos que buscam conexão emocional.
- Arte minuciosa: Cada boneca passa por mais de 20 camadas de pintura para simular pele humana.
- Personalização: Clientes pedem detalhes como sinais de nascença ou semelhanças com familiares.
- Demanda crescente: Ateliês relatam aumento na procura por cursos de arte reborn.
- Público variado: Crianças, colecionadores e idosos estão entre os principais compradores.
Origem de um ofício artesanal
A arte reborn surgiu nos Estados Unidos na década de 1990, quando colecionadores começaram a transformar bonecas comuns em peças hiper-realistas. No Brasil, o movimento ganhou força nos últimos 15 anos, com artistas como Jhosi Silva e Priscila Boniberg se destacando. Essas profissionais, conhecidas como “cegonhas”, trabalham em ateliês caseiros, muitas vezes adaptados em garagens ou quartos. O processo começa com a compra de kits importados, que incluem cabeça e membros de vinil ou silicone, e exige habilidades como pintura, implante de cabelo e montagem.
Jhosi, que deixou a profissão de professora para se dedicar à arte reborn, produz cerca de quatro bonecas por mês. Cada peça pode custar entre R$ 1,5 mil e R$ 4,2 mil, dependendo do nível de personalização. A artista explica que o trabalho é lento e detalhado, com camadas de tinta aplicadas para criar texturas realistas, como manchas de pele ou dobras. O implante de cabelo, feito com pelos de animais como cabra angorá, pode levar até seis horas. O resultado é uma boneca que, à primeira vista, pode ser confundida com um bebê real.
O ateliê de Priscila, no bairro Rubem Berta, em Porto Alegre, segue um ritmo semelhante. Inspirada pela filha Paula, que aos 11 anos sonhava em criar bonecas, Priscila transformou o hobby em negócio. Hoje, ela produz cerca de uma boneca a cada 10 dias, atendendo pedidos de todo o Brasil. A empreendedora destaca que a personalização é o diferencial: clientes enviam fotos de familiares ou pedem características específicas, como olhos azuis ou cabelos cacheados.
- Kits importados: Custam até R$ 1,4 mil e são a base para a criação das bonecas.
- Pintura detalhada: Artistas usam técnicas para simular veias e tons de pele.
- Cabelos realistas: Implantados fio a fio, com materiais como pelo de lhama.
- Tempo de produção: Uma boneca pode levar até 10 dias para ficar pronta.

Público diverso busca personalização
Quem compra bebês reborn no Brasil forma um grupo heterogêneo. Crianças, incentivadas por vídeos nas redes sociais, representam a maior parte da clientela de ateliês como o de Jhosi. Elas buscam bonecas realistas para brincar, muitas vezes acompanhando as mães, que também se envolvem na personalização. Colecionadores adultos, por outro lado, valorizam as bonecas como obras de arte, exibindo-as em vitrines ou participando de eventos especializados.
Priscila Boniberg observa uma mudança no perfil dos clientes nos últimos anos. Durante a pandemia, a demanda infantil cresceu, mas adultos também passaram a procurar as bonecas por motivos emocionais. Algumas mulheres compram para lidar com a ausência de filhos que cresceram, enquanto outras, que não podem ter filhos, encontram nas bonecas uma forma de conexão afetiva. Idosos, especialmente avós que vivem sozinhos, também encomendam peças para reviver memórias ou preencher lacunas emocionais.
Os pedidos de personalização são frequentes. Clientes solicitam bonecas que lembram filhos pequenos, netos ou até casais fictícios, com traços que representam a união de duas pessoas. Em alguns casos, as bonecas têm função decorativa, colocadas em quartos ou salas como objetos de memória. O custo elevado, que pode chegar a R$ 9,5 mil para modelos de silicone, reflete o trabalho artesanal e os materiais importados usados na produção.
Viralização nas redes sociais
A popularidade dos bebês reborn explodiu nas redes sociais, especialmente no TikTok e no Instagram, onde vídeos de “maternidades” e rotinas com bonecas acumulam milhões de visualizações. Influenciadoras como Nane Reborn e Mylla Reborn compartilham conteúdos que mostram cuidados com as bonecas, como trocas de fralda ou passeios. Esses vídeos, muitas vezes encenados para engajamento, geram tanto fascínio quanto críticas, com comentários que questionam a saúde mental das criadoras.
Jhosi Silva, que também produz conteúdo online, explica que muitos vídeos são fictícios e voltados para crianças. Ela realiza “partos” simulados com bonecas de silicone, usando balões e bisturis, mas apenas para gravações. A prática, porém, não é oferecida como serviço. A artista lamenta que esses conteúdos sejam mal interpretados, levando a ataques contra as “cegonhas” e colecionadoras. Em lives no Instagram, Jhosi já recebeu xingamentos e sugestões de que deveria buscar ajuda psicológica.
- Conteúdo infantil: Vídeos são criados para atrair crianças e mães.
- Encenações polêmicas: “Partos” e consultas médicas fictícias geram críticas.
- Engajamento online: Postagens podem alcançar milhões de visualizações.
- Reação negativa: Comentários chamam artistas de “loucas” ou “desocupadas”.
- Estratégia de marketing: Viralização impulsiona vendas e cursos.
Aspectos terapêuticos da arte reborn
Embora os vídeos polêmicos dominem as manchetes, os bebês reborn têm aplicações terapêuticas reconhecidas. Em países como a Europa, bonecas realistas são usadas em tratamentos para idosos com Alzheimer, estimulando memórias afetivas e promovendo socialização. No Brasil, psicólogos relatam que as bonecas podem ajudar mulheres que enfrentam luto por perdas gestacionais ou infertilidade, oferecendo uma forma de expressão emocional.
A psicóloga Arieli Groff, especialista em maternidade e luto, destaca que o uso lúdico das bonecas é comum e saudável. Ela alerta, no entanto, para casos em que a relação com a boneca substitui conexões humanas ou indica perda de contato com a realidade. Nesses cenários, a busca por acompanhamento psicológico é recomendada. Para a maioria dos colecionadores, as bonecas são objetos de afeto, usados para reviver a infância ou decorar ambientes.
Jhosi e Priscila reforçam que a maioria de seus clientes mantém uma relação equilibrada com as bonecas. Muitos compram para brincar com filhos ou netos, enquanto outros as veem como peças de coleção. A personalização, como a criação de bonecas com traços de familiares, também tem função emocional, permitindo que clientes eternizem momentos ou pessoas queridas.
Críticas e machismo no debate público
A viralização dos bebês reborn trouxe não apenas visibilidade, mas também críticas. Comentários nas redes sociais frequentemente ridicularizam as artistas e colecionadoras, com termos como “loucas” ou “desocupadas”. Caetano Moreira Silveira Jr., marido de Priscila, questiona o tom machista dessas reações, comparando o hobby a coleções masculinas, como action figures, que raramente enfrentam o mesmo escrutínio.
Especialistas apontam que o incômodo com os bebês reborn reflete expectativas sociais sobre a maternidade. Mulheres que brincam com bonecas são vistas como infantis, enquanto homens com hobbies semelhantes são aceitos. A psicóloga Arieli Groff reforça que a sociedade tende a julgar práticas que desafiam normas, especialmente quando envolvem mulheres. Ela defende a importância de diferenciar o uso simbólico das bonecas de casos raros de apego excessivo.
- Críticas machistas: Mulheres são chamadas de “infantis” por colecionar bonecas.
- Comparação desigual: Hobbies masculinos enfrentam menos julgamento.
- Estigma social: Colecionadoras relatam xingamentos em lives e redes.
- Defesa da arte: Especialistas pedem mais compreensão sobre o hobby.
Mercado em expansão
O mercado de bebês reborn no Brasil está em crescimento, impulsionado pela viralização nas redes sociais. Ateliês como os de Jhosi e Priscila recebem pedidos de todo o país, com alguns clientes internacionais. Além das bonecas, as artistas oferecem cursos para ensinar a arte reborn, que atraem desde curiosos até empreendedores interessados em abrir seus próprios ateliês. Jhosi relata que a procura por seus cursos triplicou nos últimos meses.
Os preços das bonecas variam conforme o material e a complexidade. Modelos de vinil custam a partir de R$ 1,5 mil, enquanto os de silicone, mais realistas, podem chegar a R$ 9,5 mil. Kits importados, solventes naturais e pelos para cabelo elevam os custos de produção, mas a demanda por personalização mantém o mercado aquecido. Eventos como encontros de colecionadores, como o realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, também impulsionam a comunidade reborn.
Priscila Boniberg destaca que a pandemia foi um marco para o setor. Com mais pessoas em casa, a busca por hobbies e conexões emocionais cresceu, aumentando a procura por bonecas. Hoje, o mercado atende desde crianças que veem vídeos no TikTok até idosos que buscam companhia. A personalização, como bonecas que representam netos ou filhos, é um dos principais atrativos.
Processo artesanal detalhado
Criar um bebê reborn exige paciência e precisão. O processo começa com a escolha do kit, que inclui cabeça, braços e pernas moldados em vinil ou silicone. Artistas como Jhosi aplicam mais de 20 camadas de tinta, usando pincéis finos para simular veias, manchas e tons de pele. A pintura é selada em máquinas de secagem, garantindo durabilidade. O implante de cabelo, feito fio a fio, pode levar horas, com materiais como pelo de cabra ou alpaca.
A montagem final inclui a adição de olhos de vidro, cílios e peso interno, que dá à boneca a sensação de um bebê real. Algumas artistas, como Priscila, oferecem acessórios como mamadeiras e roupas personalizadas. O cuidado com os detalhes é o que diferencia as bonecas reborn de brinquedos comuns, transformando-as em peças de arte. Clientes frequentemente elogiam o realismo, enviando fotos das bonecas em cenários decorativos ou brincadeiras.
- Pintura complexa: Mais de 20 camadas para criar texturas realistas.
- Materiais importados: Kits e solventes custam centenas de reais.
- Cabelos naturais: Pelos de animais garantem toque suave.
- Acessórios: Enxovais e ninhos acompanham as bonecas.
- Peso realista: Bonecas têm enchimento para simular bebês.
Eventos e comunidade reborn
A comunidade reborn no Brasil organiza eventos que reúnem artistas, colecionadores e entusiastas. Em abril de 2025, o Parque Ibirapuera, em São Paulo, foi palco de um encontro com dezenas de “mães” de bebês reborn. O evento incluiu trocas de experiências, exibição de bonecas e atividades lúdicas, atraindo até influenciadores como Chico Barney. Esses encontros fortalecem a rede de apoio entre colecionadores e promovem a arte reborn.
No exterior, o fenômeno também ganha força. Em Orlando, nos Estados Unidos, a loja MacroBaby criou uma “maternidade” cenográfica, onde clientes participam de simulações de adoção, com direito a certidão de nascimento e teste do pezinho. No Brasil, eventos como o Dia da Cegonha Reborn, instituído no Rio de Janeiro em 4 de setembro, homenageiam as artistas e destacam o impacto emocional do ofício. Esses momentos reforçam a conexão entre criadores e clientes.
Polêmicas e esclarecimentos
Apesar do crescimento, o mercado reborn enfrenta desafios com a desinformação. Vídeos que mostram bonecas sendo levadas a hospitais ou consultas médicas fictícias geram reações negativas. Artistas como Jhosi esclarecem que esses conteúdos são encenações para atrair visualizações, não refletindo a realidade da comunidade reborn. A viralização, embora impulsione vendas, também aumenta os ataques online, com comentários que ridicularizam o trabalho das “cegonhas”.
Priscila Boniberg reforça que a maioria dos clientes usa as bonecas de forma lúdica ou decorativa. Casos extremos, como a disputa judicial por uma boneca em Goiás, são exceções e não representam o setor. A advogada Suzana Ferreira, que revelou o caso, destacou que a boneca em questão tinha uma rede social monetizada, o que motivou a briga pela “guarda”. Esses episódios, embora raros, alimentam debates sobre os limites entre brincadeira e obsessão.
- Vídeos fictícios: Encenações são criadas para engajamento nas redes.
- Desinformação: Casos isolados geram estigma sobre a comunidade.
- Esclarecimentos: Artistas defendem o caráter lúdico das bonecas.
- Casos raros: Disputas judiciais são exceções, não a regra.