Na noite de 26 de maio de 2025, o Conselho Deliberativo do Corinthians aprovou o afastamento temporário do presidente Augusto Melo em uma votação histórica no Parque São Jorge, zona leste de São Paulo. Com 176 votos a favor, 57 contra e duas abstenções, o processo de impeachment avançou, motivado por denúncias de irregularidades no contrato de patrocínio com a VaideBet. Osmar Stabile, primeiro vice-presidente, assumiu interinamente o comando do clube, assinando o termo de posse para garantir a continuidade administrativa. A decisão final sobre a destituição de Melo caberá aos sócios, em uma assembleia geral a ser convocada em até cinco dias.
O placar da votação reflete a crise política que abala o Corinthians desde 2024, agravada por investigações da Polícia Civil que indiciaram Melo por associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro. Antes da votação, Melo negou renunciar, afirmando que lutará para permanecer no cargo. A reunião, que começou às 18h, foi marcada por tensão, com conselheiros discutindo o relatório da Comissão de Ética e a defesa do presidente afastado.
- Resultados da votação:
- 236 conselheiros presentes.
- 176 votos a favor do impeachment.
- 57 votos contra.
- Duas abstenções, incluindo Romeu Tuma Jr., presidente do Conselho Deliberativo.
O processo agora depende da assembleia dos sócios, que decidirá o futuro de Melo. Enquanto isso, Stabile, conselheiro vitalício e figura conhecida na política corintiana, assume a presidência interina, prometendo unir o clube e focar em questões esportivas.

Crise no contrato VaideBet
O caso VaideBet é o epicentro da crise que levou ao impeachment de Augusto Melo. Assinado em janeiro de 2024, o contrato de patrocínio máster, no valor de R$ 360 milhões por três anos, foi rescindido pela empresa em junho do mesmo ano após denúncias de irregularidades. Investigações da Polícia Civil apontaram que parte dos pagamentos, cerca de R$ 870 mil, foi repassada a uma empresa ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), levantando suspeitas de lavagem de dinheiro.
Além de Melo, foram indiciados o ex-superintendente de marketing Sérgio Moura, o ex-diretor administrativo Marcelo Mariano e o empresário Alex Cassundé, dono da Rede Media Social Ltda., que constava como intermediadora do acordo. A empresa recebia 7% do valor líquido de cada parcela, totalizando R$ 25,2 milhões ao longo do contrato. A defesa de Melo nega envolvimento, afirmando que ele apenas encaminhou a proposta aos departamentos competentes e assinou o contrato com aprovação interna.
A VaideBet notificou o Corinthians extrajudicialmente antes da rescisão, questionando o uso de empresas “laranjas” nas negociações. O caso ganhou repercussão nacional, manchando a imagem do clube e intensificando a pressão política sobre Melo, que enfrenta outros três pedidos de impeachment relacionados a questões financeiras.
Osmar Stabile no comando
Osmar Stabile, agora presidente interino, é uma figura de longa trajetória no Corinthians. Conselheiro vitalício desde 2006, ele integrou a gestão de Alberto Dualib como vice-presidente de esportes terrestres, período marcado pelo rebaixamento do clube à Série B em 2007. Stabile também concorreu à presidência em 2007 e 2009, sendo derrotado por Andrés Sanchez, e foi candidato a vice em 2012 e 2018, ao lado de Antônio Roque Citadini, sem sucesso.
Fora do clube, Stabile é sócio-fundador da Bendsteel, uma empresa de estamparia de metais fundada em 1997. Em 2019, ele ganhou notoriedade ao financiar um vídeo que fazia apologia à ditadura militar, publicado pelo Palácio do Planalto. Em nota, ele se descreveu como “patriota” e defensor do “contragolpe preventivo” de 1964, gerando críticas de setores da torcida corintiana.
- Histórico de Osmar Stabile no Corinthians:
- Conselheiro vitalício desde 2006.
- Vice-presidente de esportes terrestres na gestão Dualib.
- Candidato à presidência em 2007 e 2009.
- Vice em chapas de Antônio Roque Citadini em 2012 e 2018.
Stabile assumiu a presidência interina com um discurso de união, pedindo o fim das rivalidades políticas e prometendo recolocar o Corinthians nas “páginas esportivas”. Ele já assinou o termo de posse, garantindo acesso a contas bancárias e a continuidade das operações do clube.
Próximos passos do impeachment
O estatuto do Corinthians determina que Romeu Tuma Jr., presidente do Conselho Deliberativo, convoque uma assembleia geral dos sócios em até cinco dias para votar a destituição definitiva de Augusto Melo. A votação, que exige maioria simples, pode ocorrer em até 60 dias, conforme a organização do clube. Se os sócios rejeitarem o impeachment, Melo retorna ao cargo.
Caso a destituição seja confirmada, Stabile permanecerá como presidente interino e terá 30 dias para convocar uma eleição indireta no Conselho Deliberativo. Apenas conselheiros trienais e vitalícios poderão concorrer e votar, escolhendo um novo presidente para cumprir o mandato até o fim de 2026. O estatuto também permite que o novo presidente concorra a um mandato completo no triênio 2027-2029, caso assuma com menos de 18 meses restantes.
A assembleia dos sócios é um momento crucial, pois envolve milhares de associados do clube, incluindo membros das torcidas organizadas, como a Gaviões da Fiel, que pediu o afastamento de Melo em 23 de maio de 2025, citando a preservação da imagem do Corinthians.
Reações à votação
A votação no Conselho Deliberativo foi marcada por tensões. Antes do início, Melo concedeu uma entrevista coletiva, negando renúncia e afirmando que sairia “de cabeça erguida”. Ele destacou conquistas de sua gestão, como salários em dia por sete meses, contratos com a Adidas e a Multipark, e um suposto arrecadamento de R$ 3 bilhões. Melo deixou o Parque São Jorge antes do fim da votação, por volta das 21h10.
A defesa de Melo, liderada pelo advogado Ricardo Cury e reforçada pelo ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, criticou o processo, alegando falta de imparcialidade e uso político das investigações. Romeu Tuma Jr., que se absteve de votar, defendeu o cumprimento do estatuto, mas reconheceu que o momento não é “feliz” para o clube.
- Declarações após a votação:
- Romeu Tuma Jr.: “Não é um momento feliz, mas o processo seguiu o estatuto.”
- Osmar Stabile: “Falo como torcedor que ama o clube e quer união.”
- Augusto Melo: “Não renuncio, vou brigar pelo Corinthians.”
- Gaviões da Fiel: “O afastamento é necessário para preservar o clube.”
A torcida corintiana reagiu de forma dividida. Nas redes sociais, alguns apoiadores de Melo criticaram o Conselho Deliberativo, enquanto outros celebraram o afastamento, exigindo transparência na gestão.
Gestão de Augusto Melo
Augusto Melo assumiu a presidência do Corinthians em 2 de janeiro de 2024, após vencer as eleições de 2023 com apoio de Stabile e outros grupos de oposição à Renovação e Transparência, que dominou o clube por 16 anos. Sua gestão, no entanto, foi marcada por polêmicas desde o início. O caso VaideBet, que prometia ser o maior contrato de patrocínio máster do futebol sul-americano, tornou-se uma crise quando denúncias de repasses a empresas “laranjas” vieram à tona.
Melo também enfrentou críticas por atrasos em premiações e aumento da dívida do clube, que cresceu mais de R$ 800 milhões em 2024. Apesar disso, ele destacou conquistas, como o título do Campeonato Paulista de 2025 e a negociação de direitos de TV. A gestão foi alvo de três outros pedidos de impeachment, relacionados a reprovação de contas e suposta gestão temerária.
Papel do Conselho Deliberativo
O Conselho Deliberativo do Corinthians, composto por 300 membros (200 trienais e 100 vitalícios), é o órgão responsável por decisões estratégicas do clube, incluindo a destituição de presidentes. A votação de 26 de maio contou com 236 conselheiros, um quórum elevado para um processo de impeachment. A decisão foi baseada no artigo 107 do estatuto, que prevê o afastamento por irregularidades ou prejuízo à imagem do clube.
A reunião foi conduzida por Romeu Tuma Jr., que enfrentou críticas da defesa de Melo por suposta parcialidade. O processo começou em agosto de 2024, com um pedido protocolado pelo grupo Movimento Reconstrução SCCP, apoiado por 86 conselheiros, majoritariamente da oposição. A votação foi adiada duas vezes, em novembro e dezembro de 2024, devido a questões judiciais e de segurança.
Perfil de Osmar Stabile
Osmar Stabile, de 68 anos, é uma figura polarizadora no Corinthians. Sua trajetória no clube inclui cargos na gestão Dualib e candidaturas frustradas à presidência. Ele se aliou a Melo em 2023, mas rompeu com o presidente no início de 2025, apoiando o impeachment nos bastidores. Stabile é conhecido por sua postura conservadora, reforçada pelo financiamento do vídeo de 2019 em apoio à ditadura militar.
Na Bendsteel, Stabile atua no setor de usinagem e solda, com experiência em gestão empresarial. No Corinthians, ele promete uma administração focada na recuperação financeira e esportiva, mas enfrenta resistência de torcedores que questionam seu passado político e posições ideológicas.
- Carreira de Stabile fora do clube:
- Sócio-fundador da Bendsteel desde 1997.
- Atuação no setor de estamparia de metais.
- Financiamento de vídeo pró-ditadura em 2019.
Assembleia dos sócios
A assembleia geral dos sócios é o próximo marco no processo de impeachment. Com milhares de associados aptos a votar, o evento pode atrair grande mobilização, especialmente das torcidas organizadas. A Gaviões da Fiel, com mais de 100 mil membros, já se posicionou a favor do afastamento, enquanto outros grupos, como a Camisa 12, ainda não divulgaram posicionamentos oficiais.
O estatuto não define um prazo exato para a assembleia, mas a expectativa é que ela ocorra entre 30 e 60 dias, dependendo da logística do clube. A votação será presencial, no Parque São Jorge, com possibilidade de urnas eletrônicas para agilizar o processo. A decisão dos sócios será definitiva, determinando se Melo retorna ou se o clube segue com uma nova liderança.
Situação financeira do clube
A crise política ocorre em meio a dificuldades financeiras no Corinthians. Em 2024, o clube registrou um aumento de R$ 800 milhões em seu passivo, elevando a dívida total para cerca de R$ 2,1 bilhões. A rescisão do contrato com a VaideBet comprometeu receitas previstas, enquanto atrasos em premiações, como as da Libertadores 2024, geraram insatisfação entre jogadores.
Stabile herda a tarefa de estabilizar as finanças, negociar com credores e garantir o pagamento de salários. A gestão interina também enfrenta o desafio de manter o desempenho esportivo, com o time disputando a Copa Sul-Americana e o Campeonato Brasileiro em 2025.
Repercussão na torcida
A torcida corintiana, conhecida por sua paixão e engajamento, acompanha o processo com atenção. Nas redes sociais, hashtags relacionadas ao impeachment dominaram as discussões em 26 de maio, com opiniões divididas entre apoio a Melo e defesa de mudanças na diretoria. A Gaviões da Fiel emitiu um comunicado exigindo transparência e criticando a crise administrativa.
Eventos esportivos, como o jogo do Corinthians pela Copa Sul-Americana em 27 de maio, foram ofuscados pela crise política. Torcedores organizaram protestos no Parque São Jorge, cobrando explicações do Conselho Deliberativo e da gestão interina. A mobilização da torcida será decisiva na assembleia dos sócios, onde a participação popular pode definir o rumo do clube.
- Posicionamentos da torcida:
- Gaviões da Fiel: apoio ao afastamento de Melo.
- Camisa 12: sem posicionamento oficial até 27 de maio.
- Redes sociais: divisão entre apoio e crítica à gestão Melo.
- Protestos: atos no Parque São Jorge em 26 de maio.