O Peugeot 2008, SUV compacto produzido no Brasil pelo grupo Stellantis, obteve apenas uma estrela no rigoroso teste de segurança do Latin NCAP, anunciado em 5 de junho de 2025, em São Paulo. A nota, que varia de zero a cinco estrelas, reflete deficiências críticas na proteção dos ocupantes, especialmente em colisões frontais, onde o tórax do motorista e as pernas do passageiro apresentaram vulnerabilidades. A estrutura do veículo foi considerada instável, incapaz de suportar impactos mais intensos, levantando preocupações sobre a estratégia de segurança da Stellantis na América Latina. O resultado, o primeiro a não atender às recomendações do Latin NCAP desde o zero estrela do Citroën C3 Aircross em 2024, reacende o debate sobre a priorização de custos em detrimento da segurança.
A divulgação do teste gerou críticas contundentes de especialistas. Alejandro Furas, secretário-geral do Latin NCAP, destacou que o desempenho reflete uma escolha deliberada do fabricante em oferecer veículos com padrões de segurança abaixo do esperado. O caso do Peugeot 2008 não é isolado, já que outros modelos da Stellantis, como Fiat Pulse e Jeep Renegade, também obtiveram notas baixas recentemente.
Apesar das falhas, o SUV apresentou pontos positivos, como boa proteção em impactos laterais e eficácia na proteção cervical em colisões traseiras. Esses aspectos, porém, não foram suficientes para compensar as lacunas em segurança.
- Principais problemas identificados:
- Estrutura instável em colisões frontais.
- Proteção inadequada ao tórax do motorista.
- Vulnerabilidade nas pernas do passageiro.
- Ausência de equipamentos avançados de segurança ativa.
Desempenho preocupante em colisões frontais
O teste de colisão frontal com barreira deformável, que simula um impacto com outro veículo, foi o ponto mais crítico para o Peugeot 2008. A análise mostrou que o tórax do motorista sofreu exposição significativa a lesões, enquanto a coxa do passageiro ao lado também apresentou proteção insuficiente. Esses resultados indicam que, em um acidente real, os ocupantes poderiam enfrentar riscos graves. A Latin NCAP enfatizou que a falta de tecnologias como pré-tensionadores nos cintos de segurança contribuiu para o baixo desempenho.
Além disso, a estrutura do habitáculo foi classificada como “incapaz de suportar cargas mais elevadas”. Essa instabilidade compromete a integridade do veículo em cenários de alta energia, como acidentes em rodovias. Para especialistas, o problema reflete uma decisão de engenharia que privilegia a redução de custos, uma prática que tem sido recorrente em alguns modelos da Stellantis vendidos na América Latina.
Resultados positivos em outros testes
Nem tudo foi negativo no desempenho do Peugeot 2008. Nos testes de impacto lateral, o SUV demonstrou capacidade de proteger o corpo dos ocupantes, com resultados considerados bons. A proteção ao pescoço em colisões traseiras, avaliada no teste de chicote cervical (whiplash), também obteve pontuação satisfatória. Esses aspectos mostram que o veículo possui qualidades em cenários específicos, mas não suficientes para elevar sua nota geral.
A presença de dois airbags e controle eletrônico de estabilidade (ESC) como itens de série foi um ponto positivo, embora o Latin NCAP tenha criticado a ausência de tecnologias de assistência ao motorista, como frenagem autônoma de emergência (AEB), mesmo como opcionais.
Histórico da Stellantis no Latin NCAP
O grupo Stellantis, que reúne marcas como Peugeot, Citroën, Fiat e Jeep, enfrenta uma série de resultados desfavoráveis nos testes do Latin NCAP nos últimos anos. Desde 2021, nenhum modelo da empresa avaliado sob os protocolos mais recentes, em vigor desde 2020, conseguiu mais de duas estrelas. Essa tendência tem gerado críticas de organizações de segurança e consumidores, que questionam a estratégia da montadora na região.
Entre os resultados mais recentes:
- Citroën C3 Aircross (2024): 0 estrela.
- Fiat Pulse (2023): 2 estrelas.
- Jeep Renegade (2023): 1 estrela.
- Fiat Strada (2022): 1 estrela.
- Fiat Argo/Cronos (2021): 0 estrela.
O melhor desempenho de um veículo Stellantis no Brasil foi a Fiat Toro, que obteve quatro estrelas em 2018, antes da fusão que formou o grupo. Esse histórico contrasta com a capacidade da Stellantis de produzir veículos com altos padrões de segurança em mercados como a Europa, onde os mesmos modelos frequentemente recebem cinco estrelas em testes do Euro NCAP.

Críticas de especialistas à Stellantis
Stephan Brodziak, presidente do conselho de administração do Latin NCAP, foi enfático ao criticar a Stellantis. Ele afirmou que o resultado do Peugeot 2008 é “inaceitável” e reflete uma falta de compromisso com a segurança básica na América Latina. Segundo Brodziak, a montadora possui tecnologia e conhecimento para fabricar veículos mais seguros, mas opta por configurações de baixo custo que comprometem a proteção dos ocupantes.
Alejandro Furas, secretário-geral do Latin NCAP, reforçou a crítica, destacando que a Stellantis parece tratar a segurança na América Latina como secundária. Ele comparou a situação com os padrões europeus, onde a empresa oferece modelos com equipamentos avançados e estruturas mais robustas. Furas defendeu a adoção de regulamentações mais rigorosas na região para obrigar os fabricantes a elevarem os padrões de segurança.
Comparação com concorrentes
O desempenho do Peugeot 2008 contrasta com o de concorrentes diretos no mercado latino-americano. Modelos como o Volkswagen Taigun, fabricado na Índia, e o BYD Dolphin Plus, primeiro veículo elétrico a alcançar cinco estrelas no Latin NCAP, demonstram que é possível oferecer segurança robusta mesmo em veículos acessíveis. O Renault Kardian, avaliado em 2024, também obteve quatro estrelas, destacando-se pela proteção em impactos frontais e laterais.
Esses resultados reforçam a percepção de que a Stellantis está ficando atrás de outras montadoras na região. Enquanto marcas como Toyota, Volkswagen e BYD investem em equipamentos de segurança ativa e passiva como padrão, o Peugeot 2008 e outros modelos Stellantis mantêm configurações mínimas, com apenas dois airbags e sem tecnologias avançadas.
Reação da Stellantis aos resultados
A Stellantis respondeu aos resultados do Latin NCAP com uma nota oficial, defendendo que o Peugeot 2008 cumpre as regulamentações de segurança vigentes nos mercados onde é vendido. A empresa destacou que a segurança é considerada desde a fase inicial de desenvolvimento e que a plataforma CMP, usada no SUV, oferece uma estrutura robusta. No entanto, a montadora não anunciou medidas imediatas para corrigir as falhas apontadas ou oferecer versões mais seguras do modelo.
A resposta foi considerada insuficiente por especialistas, que esperavam um compromisso claro da Stellantis em revisar os padrões de segurança de seus veículos na América Latina. A ausência de planos para incluir tecnologias como AEB ou airbags laterais como itens de série alimentou as críticas à estratégia da empresa.
Padrões de segurança na América Latina
A América Latina enfrenta desafios históricos na regulamentação de segurança veicular. Diferentemente da Europa, onde normas como as do Euro NCAP são obrigatórias, países como o Brasil ainda permitem a comercialização de veículos com equipamentos mínimos de segurança. A legislação brasileira, por exemplo, exige apenas dois airbags e ESC como itens obrigatórios desde 2024, mas não regula tecnologias avançadas ou padrões estruturais mais rigorosos.
O Latin NCAP tem desempenhado um papel crucial ao expor essas lacunas e pressionar montadoras a melhorarem seus veículos. Desde sua criação em 2010, o programa já testou centenas de modelos, incentivando mudanças como a adoção de airbags e ESC como padrão em diversos mercados. No entanto, resultados como o do Peugeot 2008 mostram que ainda há um longo caminho a percorrer.
Importância dos testes de segurança
Os testes do Latin NCAP avaliam quatro categorias principais:
- Proteção de ocupantes adultos: Impactos frontais, laterais e de poste.
- Proteção de ocupantes infantis: Segurança de sistemas de retenção e cadeirinhas.
- Proteção de pedestres: Impacto na cabeça, pernas e pélvis.
- Assistência à segurança: Tecnologias como AEB, alerta de cinto e ESC.
No caso do Peugeot 2008, a pontuação foi de 32,13% para ocupantes adultos, 29,10% para ocupantes infantis, 46,07% para pedestres e 34,88% para assistência à segurança. Esses números refletem um desempenho bem abaixo de modelos concorrentes, que frequentemente superam 70% em pelo menos duas categorias.
Cenário do mercado automotivo
O Peugeot 2008 é vendido no Brasil como um SUV compacto, competindo com modelos como Volkswagen T-Cross, Chevrolet Tracker e Renault Captur. Apesar de oferecer design moderno e opções de motorização eficientes, como o 1.0 turbo, o veículo tem lutado para ganhar espaço em um mercado dominado por concorrentes com melhor reputação em segurança. As vendas da Peugeot no Brasil permanecem modestas, com a marca enfrentando dificuldades para superar a percepção de baixa confiabilidade em comparação com rivais.
Os resultados do Latin NCAP podem agravar esse cenário, especialmente em um momento em que os consumidores estão mais atentos à segurança veicular. Pesquisas mostram que 68% dos compradores de carros novos no Brasil consideram os resultados de crash tests como um fator decisivo na escolha do veículo.
Evolução dos protocolos do Latin NCAP
Desde 2020, o Latin NCAP adota protocolos mais rigorosos, unificando as avaliações de proteção para adultos e crianças em uma única nota de estrelas. As exigências incluem testes de impacto lateral com poste, avaliação de tecnologias de assistência ao motorista e maior peso para a proteção de pedestres. Essas mudanças tornaram os testes mais desafiadores, mas também mais alinhados com padrões globais, como os do Euro NCAP.
A evolução dos protocolos expôs as deficiências de modelos projetados para mercados emergentes, como o Peugeot 2008. Enquanto montadoras como Volkswagen e Toyota adaptaram seus veículos para atender às novas exigências, a Stellantis tem enfrentado dificuldades para acompanhar o ritmo, especialmente em modelos fabricados no Brasil.
Expectativas para o futuro
O Latin NCAP tem intensificado sua campanha por regulamentações mais rigorosas na América Latina, defendendo a adoção de etiquetas de segurança obrigatórias nos veículos novos. Essa medida, já implementada em mercados como a Austrália, permitiria aos consumidores comparar diretamente os níveis de segurança dos modelos disponíveis.
Para a Stellantis, os resultados recentes representam um alerta. A empresa enfrenta pressão para revisar sua estratégia de segurança na região, especialmente em um mercado onde concorrentes como BYD e Volkswagen estão ganhando destaque com modelos de cinco estrelas. A introdução de tecnologias como airbags laterais, AEB e estruturas mais robustas pode ser um caminho para recuperar a confiança dos consumidores.