Sly Stone, criador do som único da Family Stone, morre aos 82 anos em paz

Sylvester Stewart, conhecido como Sly Stone, faleceu aos 82 anos na última segunda-feira, 9 de junho de 2025, vítima de uma longa batalha contra a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e outros problemas de saúde. O líder da banda Sly & the Family Stone, que revolucionou a música nas décadas de 1960 e 1970 ao fundir funk, rock, soul e pop, morreu cercado por seus três filhos, amigos próximos e familiares. Sua morte, confirmada por um comunicado da família, marca o fim da trajetória de um dos artistas mais inovadores da história, cujo trabalho influenciou gerações de músicos. A notícia abalou fãs ao redor do mundo, mas sua obra, marcada por hinos como “Everyday People” e “Dance to the Music”, continua a inspirar. A família revelou que Stone finalizou recentemente o roteiro de sua cinebiografia, um projeto aguardado com expectativa.
Nascido no Texas em 1943, Stone começou sua carreira ainda criança, cantando com os irmãos no grupo The Stewart Four. Sua genialidade musical floresceu na Califórnia, onde se destacou como produtor, DJ e, posteriormente, líder de uma banda que quebrou barreiras raciais e de gênero. O impacto de Sly & the Family Stone vai além da música, representando um marco cultural de união e celebração em tempos turbulentos.
- Principais contribuições de Sly Stone:
- Criação de um som híbrido que misturava funk, rock, soul e pop.
- Letras que promoviam igualdade e solidariedade, como em “Everyday People”.
- Performances ao vivo memoráveis, incluindo o lendário show no Woodstock de 1969.
- Influência em artistas como Prince, Miles Davis e Red Hot Chili Peppers.
A trajetória de Stone, no entanto, também foi marcada por desafios pessoais, incluindo lutas contra o vício em drogas e períodos de reclusão. Sua história é um testemunho da genialidade e da complexidade de um artista que mudou o curso da música popular.
Origens de um visionário
Sylvester Stewart cresceu em uma família musical no Texas, onde começou a cantar gospel aos quatro anos ao lado dos irmãos Rose, Freddie e Vaetta. Em 1952, o grupo The Stewart Four lançou seu primeiro single, “On the Battlefield”, marcando o início de sua jornada. Após a mudança da família para a Califórnia, Stone mergulhou na vibrante cena musical da Bay Area. Como produtor na Autumn Records, ele trabalhou em sucessos como “C’mon and Swim”, de Bobby Freeman, e “Somebody to Love”, da banda The Great Society. Sua experiência como DJ nas rádios KSOL e KDIA também moldou sua visão de uma música sem barreiras raciais, uma ideia que ele levaria adiante com a Family Stone.
Na adolescência, Stone já demonstrava versatilidade, tocando múltiplos instrumentos e escrevendo canções que misturavam gêneros. Sua habilidade de unir diferentes estilos musicais foi fundamental para o som inovador que ele desenvolveria anos depois.
Formação da Family Stone
A banda Sly & the Family Stone começou a tomar forma entre 1966 e 1967, reunindo um grupo diversificado que incluía os irmãos de Stone, Rose e Freddie, os primos Greg Errico e Jerry Martini, o baixista Larry Graham e a trompetista Cynthia Robinson. A formação, que misturava homens e mulheres, negros e brancos, era incomum para a época e refletia a visão utópica de Stone. O single “Dance to the Music”, lançado em 1968, foi o primeiro grande sucesso da banda, com sua energia contagiante e arranjos inovadores.
A banda se destacava não apenas pelo som, mas também pela mensagem. Canções como “Life” e “Stand!” abordavam temas de superação e unidade, ressoando com o público em meio às tensões sociais dos anos 1960. A performance eletrizante de “I Want to Take You Higher” no festival de Woodstock, em 1969, consolidou a banda como um fenômeno cultural, atraindo multidões de diferentes origens.
Apogeu musical e cultural
No final dos anos 1960, Sly & the Family Stone estava no auge. Hits como “Everyday People”, que pregava igualdade com a frase “I am no better and neither are you”, dominaram as paradas. A banda também lançou “Hot Fun in the Summertime” e “Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)”, que combinavam ritmos dançantes com letras profundas. O som da Family Stone era uma fusão única: grooves de funk, solos de rock, harmonias de soul e elementos de pop, criando uma sonoridade que transcendia gêneros.
O impacto cultural da banda ia além da música. Em uma era marcada por conflitos raciais e protestos, Sly & the Family Stone representava a possibilidade de harmonia. Shows da banda reuniam públicos diversos, e sua formação multirracial desafiava as normas da indústria musical. Stone, como frontman, exibia carisma e uma energia que cativavam plateias.
Mudança de tom e desafios
O início dos anos 1970 trouxe mudanças no som e na trajetória de Stone. O álbum There’s a Riot Goin’ On, lançado em 1971, marcou uma virada. Gravado com a ajuda de Bobby Womack e uma drum machine, o disco apresentava um tom mais sombrio e introspectivo, refletindo as dificuldades pessoais de Stone e o desmoronamento do otimismo dos anos 1960. Canções como “Family Affair” mantinham a genialidade, mas revelavam uma vulnerabilidade até então pouco vista.
A produção do álbum foi caótica, com Stone enfrentando problemas de saúde e vícios. A banda começou a se desintegrar, com tensões internas e saídas de membros importantes, como Larry Graham. Apesar disso, There’s a Riot Goin’ On é considerado uma obra-prima, influenciando artistas de diversos gêneros, do jazz ao hip-hop.
- Momentos marcantes de There’s a Riot Goin’ On:
- Uso pioneiro de uma drum machine, antecipando tendências do funk e do hip-hop.
- Letras que abordavam paranoia e desilusão, contrastando com o otimismo anterior.
- Colaboração com Bobby Womack, que trouxe uma nova textura ao som.
Declínio e tentativas de retorno
A década de 1970 foi marcada por altos e baixos. Em 1974, Stone se casou com Kathy Silva em um palco no Madison Square Garden, diante de 20 mil pessoas, mas o casamento terminou logo depois, assim como a banda. Silva, que deu à luz o filho de Stone, Sylvester Jr., relatou abusos e um ambiente marcado por drogas. Stone também teve duas filhas, Sylvette e Novena Carmel, mas sua vida pessoal continuou instável.
Nos anos seguintes, Stone tentou retomar a carreira com álbuns como Heard Ya Missed Me, Well I’m Back (1976) e Back on the Right Track (1979), mas nenhum alcançou o sucesso de outrora. Sua luta contra o vício em drogas levou a prisões por posse de cocaína nos anos 1980 e a uma internação em um centro de reabilitação em 1989.
Reconhecimento e legado
Apesar dos desafios, o impacto de Sly Stone permaneceu. Em 1993, Sly & the Family Stone foi introduzido no Rock & Roll Hall of Fame, celebrando sua influência. Em 2006, Stone fez uma breve aparição no Grammy Awards, mas sua saúde frágil limitou sua participação. Em 2011, relatos indicavam que ele vivia em uma van em Los Angeles, mas ele lançou I’m Back! Family & Friends, um álbum de regravações que não recuperou sua antiga glória.
A influência de Stone é inegável. Artistas como Miles Davis, Herbie Hancock e Prince incorporaram elementos do som da Family Stone em seus trabalhos. Bandas como Red Hot Chili Peppers e The Roots regravaram suas canções, enquanto o hip-hop sampleou seus grooves.
Projetos finais e documentário
Nos últimos anos, Stone voltou aos holofotes com sua autobiografia, Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin), publicada em 2023, que detalhou sua vida e carreira. Em 2025, o documentário Sly Lives! (The Burden of Black Genius), dirigido por Questlove, explorou seu legado e os desafios de carregar o peso de sua genialidade. O filme contou com depoimentos de artistas como George Clinton, Chaka Khan e D’Angelo, reforçando a relevância de Stone.
A família de Stone anunciou que ele concluiu o roteiro de uma cinebiografia antes de sua morte, um projeto que promete lançar nova luz sobre sua vida. Questlove, que manteve contato regular com Stone, destacou seu otimismo recente e sua empolgação com novos projetos musicais.
Herança cultural duradoura
O som criado por Sly Stone continua a ecoar na música contemporânea. Sua habilidade de misturar gêneros e promover mensagens de união o tornou um ícone atemporal. De festivais a estúdios, sua influência é sentida em cada riff de funk e em cada letra que celebra a diversidade.
A banda Sly & the Family Stone não apenas mudou a música, mas também desafiou as divisões sociais de sua época. Seus shows vibrantes e sua formação diversa abriram portas para uma nova geração de artistas. Stone, com sua genialidade e imperfeições, deixou um legado que transcende gerações.
