Brasil

Protesto de carroceiros paralisa Recife com pneus queimados e cavalos nas ruas

Foto: Divulgação/PRF
Protesto Recife - Foto: Divulgação/PRF Protesto Recife - Foto: Divulgação/PRF

Na manhã desta segunda-feira, 16 de junho de 2025, carroceiros da Região Metropolitana do Recife promoveram uma manifestação que resultou na interdição de vias importantes, como a Avenida Governador Agamenon Magalhães, no Espinheiro, e a BR-101, em Jardim São Paulo. O protesto, marcado pela queima de pneus e pela presença de cavalos nas pistas, foi motivado pela proibição da tração animal, estabelecida pela Lei Municipal nº 17.918/2013. Os trabalhadores, que dependem das carroças para seu sustento, reivindicam a regularização da atividade e criticam ações de recolhimento de animais. A mobilização causou grande congestionamento, afetando motoristas e pedestres, enquanto a Prefeitura do Recife mantém diálogo com a categoria, oferecendo alternativas de empregabilidade e um censo para mapear os condutores até 30 de junho.

A manifestação começou nas primeiras horas do dia, no cruzamento das avenidas Norte e João de Barro, antes de se deslocar para outros pontos estratégicos da cidade. O grupo, liderado por figuras como Ronald Amorim, de 34 anos, expressou indignação com o que considera uma abordagem repressiva das autoridades.

  • Principais reivindicações: Regularização do trabalho com tração animal e fim das apreensões de carroças e cavalos.
  • Impacto imediato: Congestionamentos extensos e transtornos para a população local.
  • Resposta oficial: A Prefeitura nega apreensões generalizadas, destacando o foco no combate aos maus-tratos e na transição gradual para outras atividades econômicas.

O ato reflete uma tensão de longa data entre a legislação municipal, que prioriza o bem-estar animal, e a realidade socioeconômica dos carroceiros, muitos dos quais enfrentam dificuldades para se reinserir no mercado de trabalho.

Origem do conflito

A Lei Municipal nº 17.918, sancionada em 2013, proíbe a circulação de veículos de tração animal, a condução de animais com cargas e o trânsito montado no Recife. Regulamentada em 2019 pelo Decreto nº 32.121, a legislação prevê a retirada gradual dessas atividades, com um prazo inicial de dois anos, posteriormente prorrogado. Atualmente, o Decreto nº 36.302/2023 permite a circulação de carroças em horários e vias específicos, mas a meta é a erradicação total até meados de 2025.

Os carroceiros argumentam que a proibição ameaça seu sustento. Muitos, como Ronald Amorim, destacam a falta de alternativas viáveis para trabalhadores com baixa escolaridade. “É o nosso pão de cada dia. Sem as carroças, como vamos sustentar nossas famílias?”, questionou o líder durante o protesto. A categoria também relata casos de apreensões violentas, como no bairro dos Coelhos, onde carroças teriam sido danificadas.

Por outro lado, defensores dos direitos dos animais apontam que a tração animal frequentemente envolve maus-tratos, como o uso de arreios inadequados e jornadas exaustivas para os cavalos. A Secretaria Executiva de Direitos dos Animais (Seda) reforça que a legislação busca proteger os equinos, garantindo-lhes condições dignas.

Ações da prefeitura

A Prefeitura do Recife tem buscado dialogar com os carroceiros desde a regulamentação da lei. Nos últimos anos, reuniões com representantes da categoria e de grupos de vaqueiros resultaram em iniciativas como o Programa Gradual de Retirada de Veículos de Tração Animal. Entre as medidas propostas estão:

  • Censo em andamento: Iniciado em 2 de junho de 2025, o cadastro de condutores e animais segue até o dia 30, com o objetivo de mapear a categoria e oferecer benefícios.
  • Indenização: Condutores que entregarem voluntariamente suas carroças e animais poderão receber compensação financeira.
  • Capacitação profissional: Parcerias com o programa CredPop Recife e o GO Recife visam qualificar os trabalhadores para novas ocupações.
  • Empregos alternativos: Vagas na equipe de limpeza urbana da Emlurb estão sendo oferecidas como opção.

A gestão municipal esclarece que os animais cadastrados recebem microchips de identificação, enquanto as carroças são marcadas com adesivos impermeáveis. A partir de agosto, os condutores serão convocados para validar as informações, iniciando a fase de transição para outras atividades econômicas.

Apesar dessas ações, a resistência dos carroceiros persiste. Eles alegam que as alternativas propostas não atendem às suas necessidades imediatas e que a indenização não compensa os investimentos feitos em animais e equipamentos.

Impactos no trânsito

O protesto de 16 de junho gerou transtornos significativos na mobilidade urbana do Recife. A interdição da Avenida Governador Agamenon Magalhães, uma das principais vias da cidade, causou filas de veículos que se estenderam por quilômetros. Na BR-101, a obstrução parcial no sentido Paulista agravou a situação, com motoristas enfrentando longos atrasos.

Equipes da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) foram mobilizadas para orientar o tráfego, enquanto a Polícia Militar garantiu a segurança no entorno. A Central de Operações de Trânsito da CTTU, que monitora as vias com 112 câmeras, identificou os pontos de maior impacto e sugeriu rotas alternativas, mas o congestionamento persistiu ao longo da manhã.

Motoristas, como Paulo Cordeiro, de 61 anos, expressaram apoio aos manifestantes, mas também frustração com os atrasos. “Eu entendo a luta deles, mas o trânsito está impossível. Precisamos de uma solução que não pare a cidade”, desabafou o motorista de ônibus, que ficou retido no Espinheiro.

Reações da comunidade

A manifestação dividiu opiniões entre os recifenses. Alguns moradores, especialmente das comunidades onde os carroceiros atuam, veem a tração animal como uma tradição e uma necessidade econômica. Outros, alinhados às causas de proteção animal, apoiam a proibição, mas cobram mais assistência social para os trabalhadores.

Paulo Cordeiro, que decidiu apoiar o protesto, defendeu a criação de uma regulamentação que permita a continuidade do trabalho com fiscalizações rigorosas contra maus-tratos. “Não é justo punir quem cuida bem dos animais. O governo precisa encontrar um meio-termo”, sugeriu.

Já grupos de ativismo, como a União Vegana de Ativismo (UVA), criticam a exploração animal em si, considerando que qualquer uso de cavalos para tração configura maus-tratos. A ativista Bárbara Bastos, em audiência pública anterior, destacou a importância de equilibrar os direitos dos animais com políticas de inclusão social para os carroceiros.

Histórico de protestos

A mobilização de 16 de junho não é um evento isolado. Desde a aprovação da Lei nº 17.918, em 2013, os carroceiros organizaram diversas manifestações na capital pernambucana. Em 2023, um protesto semelhante interditou a Avenida Agamenon Magalhães após uma ação de apreensão de carroças em Boa Viagem. Em abril de 2025, outro ato em frente à Câmara de Vereadores do Recife teve como destino a Prefeitura, com demandas similares.

Essas ações refletem a dificuldade de implementar a legislação sem causar impactos socioeconômicos. Dados do Ministério Público apontam que cerca de 1.200 condutores atuam na Região Metropolitana, mas apenas 180 estão cadastrados na Prefeitura do Recife, o que dificulta o planejamento de políticas públicas.

Alternativas em debate

A Prefeitura do Recife aposta em parcerias com cooperativas de reciclagem para fornecer veículos alternativos, como o Cavalo de Lata, um triciclo elétrico movido a energia solar. O equipamento, com autonomia de 60 km e custo operacional de R$ 0,02 a R$ 0,05 por quilômetro, é apresentado como uma solução sustentável e segura.

No entanto, os carroceiros apontam barreiras para adotar essas tecnologias, como o alto custo inicial e a falta de infraestrutura para manutenção. Uma pesquisa conduzida pela Seda revelou que os trabalhadores preferem cursos de capacitação em áreas como mecânica, construção civil e barbearia, indicando a necessidade de programas mais alinhados às suas habilidades e interesses.

Fiscalização e bem-estar animal

O combate aos maus-tratos é uma prioridade da gestão municipal. Desde o início de 2025, 59 animais de grande porte foram recolhidos por estarem em situação de abandono ou maus-tratos, segundo a Prefeitura. O Centro de Vigilância Ambiental (CVA), reformado recentemente, conta com 39 baias individuais e três coletivas, preparadas para receber os cavalos retirados das ruas.

A Secretaria Executiva de Direitos dos Animais também lançou o aplicativo SOS Animal, integrado ao Conecta Recife, que permite denúncias de maus-tratos 24 horas por dia. A ferramenta agiliza a resposta das autoridades, mas não resolve o conflito com os carroceiros, que se sentem criminalizados.

Próximos passos do censo

O censo iniciado em 2 de junho é uma etapa crucial do Programa Gradual de Retirada de Veículos de Tração Animal. Realizado em todas as seis Regiões Político-Administrativas (RPAs) do Recife, o cadastro exige que os condutores apresentem documento de identificação e comprovante de residência. Locais como Imbiribeira, Joana Bezerra e Várzea já receberam equipes de atendimento, com funcionamento das 8h às 12h.

A partir de agosto, os dados coletados serão analisados para definir quem terá acesso aos benefícios prometidos. A Prefeitura destaca que a entrega de animais e carroças será voluntária, mas condicionada à participação no censo. A expectativa é que a iniciativa alcance a maioria dos condutores, reduzindo a resistência à transição.

Mobilização contínua

Líderes como Ronald Amorim alertam que novos protestos podem ocorrer se as demandas não forem atendidas. A possibilidade de bloqueios em outros pontos da cidade ao longo do dia mantém as autoridades em alerta. A CTTU e a Polícia Militar reforçaram o monitoramento, enquanto a Prefeitura busca evitar escaladas no conflito por meio do diálogo.

A tensão entre a proteção animal e a sobrevivência econômica dos carroceiros segue como um desafio para o Recife. As próximas semanas, com o avanço do censo e as negociações com a categoria, serão decisivas para definir o rumo dessa questão.

To Top