Com mais de 16 milhões de brasileiros vivendo com diabetes, o país enfrenta um desafio de saúde pública que exige atenção imediata. A doença, que cresceu 403% nos últimos 25 anos, segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), afeta pessoas como José Maria Melo, de 58 anos, que perdeu dedos devido a complicações de um diagnóstico tardio em Belém (PA). Celebrado em 26 de junho, o Dia Nacional do Diabetes reforça a importância de identificar sintomas precocemente e adotar medidas preventivas. No Pará, cerca de 440 mil pessoas convivem com a condição, muitas sem saber, já que 70% dos casos são diagnosticados tardiamente. A prevenção, aliada ao controle médico, é crucial para evitar complicações graves, como amputações e problemas cardiovasculares.
A história de José Maria reflete a realidade de muitos brasileiros. Após um pequeno ferimento no dedo em 2017, ele enfrentou uma infecção que evoluiu rapidamente, resultando na amputação de um dedo e, posteriormente, em outros procedimentos. A experiência o levou a transformar seus hábitos, adotando uma alimentação mais saudável e prática regular de exercícios. Casos como esse destacam a necessidade de conscientização sobre os sinais da doença e a importância de buscar ajuda médica ao menor indício de sintomas.
O diabetes, especialmente o tipo 2, que representa 90% dos casos no Brasil, está diretamente ligado a fatores como obesidade, sedentarismo e dieta inadequada. A seguir, alguns sinais que merecem atenção:
- Sede excessiva e aumento da frequência urinária;
- Feridas que demoram a cicatrizar;
- Manchas escuras no pescoço;
- Infecções recorrentes.
A endocrinologista Rafaela Miranda, do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB) em Belém, enfatiza que a detecção precoce pode mudar o curso da doença. O hospital, vinculado à Rede Ebserh, é referência no atendimento a pacientes com diabetes no Pará, oferecendo cuidados multidisciplinares pelo SUS.
Sinais silenciosos e diagnóstico tardio
A natureza silenciosa do diabetes é um dos maiores desafios para seu controle. Muitas pessoas convivem com a doença sem perceber, até que complicações graves se manifestem. No Brasil, a IDF estima que cerca de 7 milhões de casos permanecem sem diagnóstico. No Pará, a situação não é diferente, com milhares de pessoas descobrindo a condição apenas quando enfrentam problemas como infecções ou danos neurológicos.
A médica Rafaela Miranda explica que sintomas como sede intensa e micção frequente surgem quando os níveis de glicose já estão muito elevados. Feridas que não cicatrizam, outro sinal comum, podem evoluir para infecções graves, como no caso de José Maria. Além disso, manchas escuras na pele, conhecidas como acantose nigricans, indicam resistência à insulina, um precursor do diabetes tipo 2.
A demora no diagnóstico agrava o quadro, aumentando o risco de complicações. Dados do Ministério da Saúde apontam que 20% dos pacientes com diabetes tipo 2 desenvolvem problemas renais, enquanto 10% enfrentam perda de visão. A neuropatia diabética, que causa formigamento e dor, afeta cerca de 30% dos casos não controlados.
Fatores de risco em alta
O aumento de 403% nos casos de diabetes no Brasil reflete mudanças no estilo de vida da população. O consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares e gorduras, aliado ao sedentarismo, impulsionou a prevalência do diabetes tipo 2. A obesidade, presente em 25% da população adulta brasileira, segundo o IBGE, é um dos principais gatilhos da doença.
No diabetes tipo 1, que afeta cerca de 10% dos pacientes, a causa é autoimune, com o corpo atacando as células produtoras de insulina. Já o tipo 2 está mais associado a fatores evitáveis. A urbanização acelerada, que reduziu a prática de atividades físicas e aumentou o acesso a alimentos industrializados, contribuiu para o cenário atual.
Crianças e adolescentes também estão no radar. Dados da IDF mostram que o diabetes tipo 2, antes raro em jovens, agora cresce entre menores de 18 anos, especialmente em áreas urbanas. A falta de hábitos saudáveis desde cedo é apontada como uma das causas.
Prevenção como aliada
A boa notícia é que o diabetes tipo 2 pode ser prevenido com mudanças simples no dia a dia. A prática regular de exercícios físicos é uma das medidas mais eficazes. Caminhadas, natação ou outras atividades moderadas, realizadas por 150 minutos por semana, ajudam a regular a glicemia e reduzir o risco de complicações.
A alimentação também desempenha um papel central. Consumir 400 gramas de frutas, legumes e verduras por dia, como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS), melhora o controle glicêmico e fortalece a saúde geral. Alimentos ricos em fibras, como grãos integrais, são especialmente indicados.
Outro ponto crucial é o controle do peso. Perder 10% do peso corporal, de forma gradual, pode reduzir significativamente o risco de desenvolver a doença. Para quem já vive com diabetes, manter o peso saudável ajuda a evitar complicações.

Atendimento especializado no SUS
No Pará, o Hospital Universitário João de Barros Barreto é um dos principais centros de referência para o tratamento do diabetes. A unidade oferece atendimento multidisciplinar, com endocrinologistas, nutricionistas e outros profissionais, garantindo um acompanhamento completo. Pacientes com suspeita de diabetes podem buscar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação inicial. Se necessário, são encaminhados ao hospital por meio do sistema de regulação da Secretaria Municipal de Saúde de Belém.
O atendimento no HUJBB inclui orientação sobre mudanças no estilo de vida, prescrição de medicamentos, como insulina ou hipoglicemiantes orais, e monitoramento regular. A equipe também realiza atividades educativas, ensinando os pacientes a reconhecer sinais de alerta e gerenciar a doença.
Mudança de hábitos que transforma
A história de José Maria Melo é um exemplo de como a mudança de hábitos pode fazer a diferença. Após o diagnóstico, ele abandonou o consumo de bebidas alcoólicas e reduziu a ingestão de farinhas, comuns na culinária paraense. A prática de exercícios leves, como caminhadas, também passou a fazer parte de sua rotina.
Hoje, ele controla os níveis de glicose com acompanhamento médico regular e segue uma dieta balanceada. “Se eu não tivesse mudado, talvez não estivesse aqui”, reflete. Sua experiência reforça a importância de ouvir o corpo e buscar ajuda ao primeiro sinal de problema.
Educação para a prevenção
Campanhas como o Dia Nacional do Diabetes, celebrado em 26 de junho, são essenciais para educar a população. No Pará, ações de conscientização incluem palestras em unidades de saúde, distribuição de materiais informativos e exames gratuitos de glicemia. Essas iniciativas visam alcançar comunidades com menor acesso à informação, onde o diagnóstico tardio é mais comum.
Escolas também têm papel importante. Ensinar crianças sobre a importância de uma alimentação saudável e da atividade física pode prevenir o surgimento do diabetes no futuro. Programas de educação em saúde, apoiados pelo SUS, já mostram resultados em algumas cidades paraenses.
Avanços no tratamento
Nos últimos anos, o Brasil ampliou o acesso a tratamentos para o diabetes pelo SUS. Medicamentos como metformina e insulina são distribuídos gratuitamente, e novas tecnologias, como bombas de insulina, começam a chegar a pacientes com diabetes tipo 1. No HUJBB, exames avançados, como a hemoglobina glicada, ajudam a monitorar o controle da doença a longo prazo.
A pesquisa também avança. Estudos conduzidos em universidades brasileiras, incluindo a UFPA, buscam novas formas de prevenir e tratar o diabetes. Projetos voltados para o pé diabético, uma das complicações mais temidas, desenvolvem curativos avançados e técnicas para melhorar a cicatrização.
Importância do acompanhamento contínuo
Pacientes diagnosticados precisam de acompanhamento regular para evitar complicações. Consultas periódicas com endocrinologistas, exames de rotina e adesão ao tratamento são fundamentais. No caso do diabetes tipo 2, o controle da glicemia pode ser feito com medicamentos orais, enquanto o tipo 1 exige injeções diárias de insulina.
A atenção a outras condições, como hipertensão e colesterol alto, também é essencial, já que elas aumentam o risco de problemas cardiovasculares em diabéticos. O SUS oferece programas de acompanhamento para doenças crônicas, com equipes treinadas para orientar os pacientes.