O velório de Arlindo Cruz, ícone do samba brasileiro, realizado no dia 9 de agosto de 2025, na quadra da escola de samba Império Serrano, em Madureira, Rio de Janeiro, transformou a despedida do artista em uma celebração vibrante de sua vida e legado. Aos 66 anos, o sambista faleceu na sexta-feira, 8 de agosto, vítima de falência múltipla de órgãos, após anos enfrentando sequelas de um AVC sofrido em 2017. A cerimônia, marcada pela tradição africana do gurufim, reuniu familiares, amigos, artistas e fãs, que cantaram seus sucessos e celebraram sua trajetória com música, dança e chopp, conforme desejo do próprio Arlindo. Figuras como Carlinhos de Jesus, Zeca Pagodinho e Mumuzinho prestigiaram o evento, destacando a importância do compositor para a cultura brasileira. O evento, que seguiu até a madrugada, reforçou a força do samba como expressão de resistência e alegria, mesmo diante da perda.
A quadra do Império Serrano, coração do samba carioca, foi palco de uma homenagem à altura de Arlindo Cruz. Vestidos de branco, os presentes entoaram canções como “O Show Tem que Continuar” e “Meu Lugar”, enquanto lembranças do artista ecoavam em discursos emocionados. A escolha pelo gurufim, uma prática ancestral que celebra a vida em vez de focar na morte, trouxe um tom único à despedida, com atabaques e rodas de samba.
Familiares, como o filho Arlindinho e a esposa Babi Cruz, estiveram no centro da organização, garantindo que a vontade do sambista fosse respeitada. A presença de coroas de flores enviadas por artistas, escolas de samba e até pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a relevância de Arlindo para o Brasil.
- Gurufim: cerimônia de origem africana que celebra a vida com música e confraternização.
- Homenagens: artistas como Zeca Pagodinho e Mumuzinho reforçaram o legado de Arlindo.
- Local: quadra do Império Serrano, em Madureira, foi escolhida por sua ligação com o sambista.
- Legado: mais de 800 músicas compostas, incluindo hinos do samba brasileiro.
Homenagem vibrante na quadra do Império Serrano
A cerimônia na quadra do Império Serrano começou no início da noite de sábado, com uma abertura marcada por atabaques do terreiro Ilê Osè Yobá, frequentado por Arlindo, que era filho de Xangô. A roda de samba que se formou logo após trouxe à tona sucessos como “O Bem” e “Camarão que Dorme a Onda Leva”, cantados por Arlindinho, que emocionou a todos ao tocar cavaquinho em tributo ao pai. A presença de chopp, como pedido pelo sambista, reforçou o clima de celebração, mesmo em meio à saudade.
Carlinhos de Jesus, coreógrafo e amigo próximo de Arlindo, compareceu ao velório em uma cadeira de rodas, devido a uma bursite trocantérica bilateral diagnosticada em junho de 2025. Emocionado, ele destacou a importância do sambista para a cultura nacional, afirmando que “o Brasil está de luto, principalmente os sambistas”. Sua fala reflete o impacto de Arlindo, que transcendeu o universo do samba e marcou gerações com sua poesia e melodia.
- Presença de Carlinhos de Jesus: apesar das limitações físicas, fez questão de homenagear o amigo.
- Roda de samba: sucessos de Arlindo foram entoados, mantendo viva sua essência.
- Atabaques: ritual inicial conectou a cerimônia às raízes africanas do samba.
Legado de Arlindo Cruz na música brasileira
Arlindo Cruz, nascido em 14 de setembro de 1958, no Rio de Janeiro, é reconhecido como um dos maiores sambistas de todos os tempos. Com mais de 800 músicas cadastradas no Ecad, sua obra abrange clássicos como “Meu Lugar”, “O Show Tem que Continuar” e “Bagaço da Laranja”. Sua trajetória começou nas rodas de samba do Cacique de Ramos, onde tocou ao lado de nomes como Beth Carvalho e Jorge Aragão, antes de integrar o Fundo de Quintal, grupo que revolucionou o samba nas décadas de 1970 e 1980.
Após deixar o grupo em 1993, Arlindo seguiu carreira solo, lançando álbuns marcantes como “Sambista Perfeito” (2008) e “Batuques e Romances” (2011). Suas composições também ganharam vida nas vozes de artistas como Zeca Pagodinho, Alcione e Mart’nália, consolidando seu papel como um dos maiores compositores do gênero. Além disso, sua ligação com o carnaval foi intensa, com 12 sambas-enredo compostos para o Império Serrano, incluindo sucessos como “Jorge Amado, Axé Brasil” (1989).
- Cacique de Ramos: berço de sua carreira, onde se conectou com grandes sambistas.
- Fundo de Quintal: grupo que marcou sua trajetória por 12 anos.
- Sambas-enredo: contribuições para o Império Serrano e outras escolas de samba.
- Carreira solo: álbuns como “Sambista Perfeito” consolidaram sua fama.
Emoção e apoio de artistas e personalidades
A morte de Arlindo Cruz gerou comoção no meio artístico e político. Zeca Pagodinho, amigo de longa data, descreveu o sambista como um “irmão” e destacou sua generosidade e talento. Mumuzinho, que considerava Arlindo um “pai na música”, lamentou a perda e reforçou a importância de suas composições para novas gerações. Marcelo D2, Péricles e Martinho da Vila também prestaram homenagens, destacando a influência de Arlindo no samba e na cultura brasileira.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva emitiu uma nota oficial, chamando Arlindo de “sambista perfeito” e destacando sua poesia e generosidade. Clubes de futebol, como Flamengo, Corinthians e Botafogo, também se manifestaram, reconhecendo o sambista como um ícone que levou o nome de seus times em suas canções. A prefeitura do Rio decretou luto oficial de três dias, reforçando a relevância do artista para a cidade.
- Homenagens de artistas: Zeca Pagodinho, Mumuzinho e Marcelo D2 destacaram o impacto de Arlindo.
- Nota de Lula: presidente reconheceu o sambista como um dos maiores talentos do Brasil.
- Clubes de futebol: Flamengo e outros times lamentaram a perda do torcedor apaixonado.
Gurufim: uma celebração à vida
A escolha pelo gurufim para o velório reflete a essência de Arlindo Cruz, que sempre defendeu a alegria e a resistência através do samba. Essa tradição, trazida por africanos escravizados, transforma o luto em uma celebração da trajetória do falecido, com música, dança e comida. No caso de Arlindo, a quadra do Império Serrano se tornou um espaço de comunhão, onde fãs e amigos compartilharam histórias e cantaram seus sucessos até a madrugada.
Babi Cruz, esposa do sambista, foi uma das responsáveis por garantir que o evento seguisse os desejos de Arlindo. Ela destacou que, apesar da dificuldade, a celebração com chopp e churrasco era uma forma de honrar a memória do marido. Arlindinho, por sua vez, prometeu seguir o legado do pai, mantendo viva a luta e a paixão pelo samba.
- Origem do gurufim: prática africana que celebra a vida em vez de focar na morte.
- Participação da família: Babi e Arlindinho organizaram o evento conforme desejo do sambista.
- Continuidade do legado: Arlindinho reforçou compromisso com a música do pai.
Últimos anos e desafios de saúde
Arlindo Cruz enfrentava complicações de saúde desde março de 2017, quando sofreu um AVC hemorrágico enquanto se preparava para um show em Osasco. O episódio o deixou com sequelas graves, como dificuldades de mobilidade e fala, encerrando prematuramente sua carreira. Nos últimos anos, ele passou por diversas internações, incluindo tratamentos para pneumonias e uma infecção por bactéria resistente, que agravou seu quadro em 2025.
Apesar das limitações, Arlindo foi homenageado em vida, como no carnaval de 2023, quando desfilou na Sapucaí como enredo do Império Serrano. Acompanhado por Babi, filhos e amigos, ele participou do desfile em um carro alegórico, em um momento marcante para o samba carioca. Sua força e legado continuaram inspirando mesmo nos momentos mais difíceis.
- AVC de 2017: episódio que mudou a trajetória do sambista, limitando sua carreira.
- Homenagem em 2023: desfile como enredo do Império Serrano foi um marco.
- Internações: pneumonias e infecções marcaram os últimos anos do artista.
Impacto cultural e perpetuação do legado
A obra de Arlindo Cruz transcende o samba e se conecta à identidade cultural do Brasil. Suas letras, que falam de amor, fé e resistência, continuam a inspirar novas gerações de sambistas. Escolas de samba, como Vila Isabel e Grande Rio, também foram marcadas por suas composições, que trouxeram narrativas ricas para o carnaval. A influência de Arlindo é sentida em rodas de samba, rádios e até em jingles, como o “Samba da Globalização” para a TV Globo.
Arlindinho, seu filho, já se consolida como um dos herdeiros de seu legado, com projetos como o “Pagode 2 Arlindos”, gravado em 2017. A biografia “O Sambista Perfeito”, lançada em 2025 por Marcos Salles, também reforça a importância de Arlindo, detalhando sua trajetória e lutas pessoais, incluindo sua batalha contra o vício em cocaína, superado antes do AVC.
- Influência no carnaval: sambas-enredo para diversas escolas marcaram gerações.
- Herança musical: Arlindinho segue os passos do pai com projetos próprios.
- Biografia: livro lançado em 2025 detalha a vida e os desafios do sambista.
- Conexão cultural: letras de Arlindo refletem a alma do povo brasileiro.