Alexander de Jesus Carlos, conhecido como Choque, líder do tráfico em Manguinhos, realizou uma cirurgia de vesícula no Hospital Samaritano, em Botafogo, Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 2025, após autorização judicial. A decisão, que gerou polêmica, reacendeu debates sobre detentos em hospitais de alto padrão. O procedimento, custeado pelo próprio traficante, levantou questionamentos sobre a origem dos recursos, especialmente porque Choque já se beneficiou da gratuidade judicial. Preso desde 2008, ele também ganhou notoriedade por processar os cantores MC Cabelinho, Filipe Ret e MC Maneirinho pelo uso não autorizado de sua voz na música “7 meiota”, de 2022. A internação, sob escolta policial, durou cinco dias, com alta em 13 de agosto. A Lei de Execução Penal permite tais procedimentos fora do sistema prisional quando não há estrutura adequada, mas o caso expôs desigualdades no acesso à saúde.
A cirurgia de Choque, um dos criminosos mais temidos do Rio, foi realizada em um hospital conhecido pelo luxo, com quartos equipados com poltronas massageadoras, Wi-Fi e amenities diferenciados. O custo estimado do procedimento, uma colecistectomia por vídeo, foi de R$ 24 mil, incluindo diárias hospitalares. A autorização partiu de um juiz da Vara de Execuções Penais, após relatórios médicos indicarem a gravidade do caso, com a vesícula cheia de pus, exigindo um segundo procedimento e tratamento com antibióticos. A demora na alta levou o juiz a expedir um mandado de busca para esclarecer o estado de saúde do detento.
- Motivos da cirurgia: Diagnóstico de pedra na vesícula, com complicações sérias.
- Autorização judicial: Decisão baseada na falta de estrutura no sistema prisional.
- Custos: R$ 20 mil pelo procedimento, mais R$ 4.838,55 em diárias.
- Escolta: Policiais penais acompanharam Choque durante toda a internação.
Autorização judicial para cirurgia provoca debate público
A decisão de permitir que Choque realizasse a cirurgia no Hospital Samaritano gerou ampla discussão. A Lei de Execução Penal, em seu artigo 14, garante que presos tenham acesso à saúde, mesmo fora do sistema prisional, quando necessário. No caso, laudos médicos apontaram que o presídio não dispunha de condições para o procedimento. O juiz responsável analisou o pedido da defesa, que indicou o Samaritano como local adequado, e o Ministério Público deu parecer favorável. A escolha de um hospital de elite, frequentado pela alta sociedade carioca, levantou críticas sobre privilégios a detentos de alta periculosidade.
O caso ganhou ainda mais repercussão devido à trajetória de Choque. Preso desde 2008, ele já foi considerado o traficante mais procurado do Rio. Capturado em João Pessoa, na Paraíba, ele comandava o tráfico em Manguinhos e era conhecido por sua violência, incluindo execuções e torturas. Apesar de preso, sua influência na facção Comando Vermelho permaneceu, embora relatórios recentes indiquem que ele perdeu a liderança após ser espancado por comparsas em Bangu, em 2024.
- Contexto da autorização: Falta de estrutura no presídio para cirurgias complexas.
- Críticas públicas: Uso de hospital de luxo por detento de alta periculosidade.
- Parecer do MP: Favorável à saída, com escolta para garantir segurança.
- Histórico de Choque: Liderança no tráfico e episódios de violência extrema.
Processo contra MC Cabelinho e Filipe Ret
Outro aspecto que tornou o caso de Choque notório foi seu processo contra os cantores MC Cabelinho, Filipe Ret e MC Maneirinho. Em 2022, a música “7 meiota” incluiu, sem permissão, um trecho de uma entrevista antiga de Choque, exibida em um programa de TV. O traficante alegou uso indevido de sua voz e moveu uma ação judicial. O caso terminou em um acordo extrajudicial, no qual Choque recebeu 5% dos lucros dos fonogramas da faixa. Segundo o advogado Daniel Sanchez Borges, parte desses recursos foi usada para custear a cirurgia no Samaritano.
A ação contra os cantores surpreendeu o meio artístico. Choque afirmou ter ficado chocado ao ouvir sua voz na música, e a negociação envolveu, inicialmente, um pedido de R$ 500 mil por danos morais. A gravadora optou pelo acordo financeiro, que, segundo a defesa, também permitiu a doação de parte do valor para uma criança com doença rara em 2024. Esse episódio reforça a complexidade da figura de Choque, que, mesmo preso, mantém influência financeira e jurídica.
- Uso da voz: Trecho de entrevista de TV inserido em “7 meiota” sem autorização.
- Acordo: 5% dos fonogramas pagos a Choque pela gravadora.
- Impacto financeiro: Recursos do acordo ajudaram a custear a cirurgia.
- Doação: Parte do dinheiro destinada a uma causa social em 2024.
Origem dos recursos e questionamentos éticos
O custeio da cirurgia por Choque, estimado em mais de R$ 24 mil, levantou dúvidas sobre a origem de seu dinheiro. Embora a gratuidade judicial tenha sido revogada, devido à comprovação de sua capacidade de pagamento, a fonte de renda do traficante permanece sob escrutínio. Além do acordo com os cantores, a defesa alega que Choque possui outras fontes de renda lícitas, mas não detalhou quais seriam. A polêmica se intensifica porque, enquanto cidadãos comuns enfrentam filas no sistema público de saúde, um detento de alta periculosidade teve acesso a um hospital de alto padrão.
O Hospital Samaritano, com 130 leitos de luxo, é conhecido por sua infraestrutura sofisticada, incluindo quartos com controle automatizado de persianas, TVs e frigobares. A escolha do local, segundo a defesa, considerou a proximidade de uma delegacia e a segurança pública na região de Botafogo. Apesar da legalidade do procedimento, previsto na Lei de Execução Penal, o caso expôs desigualdades no acesso à saúde e gerou críticas de setores da sociedade, que enxergam privilégios indevidos.
- Custo da cirurgia: Aproximadamente R$ 20 mil, mais diárias de R$ 4.838,55.
- Origem do dinheiro: Acordo com cantores e outras fontes não especificadas.
- Infraestrutura do hospital: Quartos de alto padrão com serviços de hotelaria.
- Debate ético: Contraste com dificuldades de acesso à saúde pública.
Trajetória de Choque no crime organizado
Alexander de Jesus Carlos, conhecido como Choque ou 220V, é uma figura central no crime organizado do Rio. Preso em 2008, após ser baleado e escapar de várias operações policiais, ele comandava o tráfico em Manguinhos e no Complexo do Alemão. Escutas telefônicas revelaram sua participação em execuções e torturas, como a morte de um vendedor de drogas em 2008, motivada por desavenças comerciais. Sua reputação de crueldade o tornou temido, mas também alvo de conflitos internos na facção.
Em 2024, Choque foi espancado por comparsas no Complexo de Bangu, perdendo a liderança no Comando Vermelho. O episódio, ocorrido na Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho, resultou em sua internação no pronto-socorro do presídio. Esse evento evidenciou a instabilidade de sua posição na facção, mas não diminuiu sua notoriedade. A cirurgia no Samaritano, meses depois, reforçou sua capacidade de mobilizar recursos e influência, mesmo atrás das grades.
- Prisão: Capturado em 2008, em João Pessoa, após ser o mais procurado do Rio.
- Violência: Envolvido em execuções e torturas, segundo investigações.
- Conflito interno: Espancado em 2024, perdeu liderança na facção.
- Influência: Mantém capacidade financeira e jurídica, mesmo preso.
Repercussão social e política do caso
A internação de Choque no Samaritano gerou indignação em parte da população. Posts em redes sociais criticaram o contraste entre o acesso de um traficante a um hospital de elite e as dificuldades enfrentadas por cidadãos comuns no SUS. A polêmica também chegou a autoridades públicas, que questionaram a falta de transparência sobre o estado de saúde do detento e a demora na alta hospitalar. O juiz da Vara de Execuções Penais exigiu relatórios médicos para esclarecer a situação, reforçando a gravidade do caso.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirmou que Choque retornou ao presídio em 13 de agosto, sob escolta. A Secretaria de Administração Penitenciária informou que o detento foi monitorado durante toda a internação, mas não esclareceu por que o procedimento não foi realizado em uma unidade pública. Especialistas em Direito Penal defendem a legalidade da autorização, mas destacam a necessidade de maior rigor na fiscalização de casos semelhantes.
- Reação pública: Críticas nas redes sociais ao “privilégio” de Choque.
- Ação judicial: Mandado de busca para esclarecer demora na alta.
- Retorno ao presídio: Confirmado em 13 de agosto, com escolta policial.
- Debate jurídico: Legalidade da medida, mas necessidade de transparência.