Os países do BRICS, liderados por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, intensificam esforços para criar uma moeda própria voltada ao comércio interno, visando reduzir a dependência do dólar americano, que atingiu R$ 5,3870 em agosto de 2025, menor valor desde junho de 2024. A proposta, defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista em São Paulo no dia 12 de agosto, busca facilitar transações entre os membros do bloco sem a necessidade de conversão para a moeda norte-americana. A iniciativa, discutida na cúpula do Rio de Janeiro em julho de 2025, responde às tensões geopolíticas e à influência dos Estados Unidos no sistema financeiro global. Apesar do entusiasmo, especialistas apontam desafios como integração financeira e estabilidade econômica para viabilizar o projeto. A nova moeda não substituiria o dólar globalmente, mas criaria um sistema alternativo para o bloco.
A ideia de uma moeda própria ganhou força após declarações do ex-presidente americano Donald Trump, que ameaçou impor tarifas de até 10% sobre produtos dos países do BRICS caso avancem com a proposta. Lula destacou que a iniciativa não visa confrontar os EUA, mas fortalecer a soberania econômica dos membros. O debate reflete a busca por maior autonomia financeira em um cenário de crescente influência do bloco, que representa 36% do PIB global.
- Principais objetivos da proposta:
- Reduzir custos de transações internacionais.
- Proteger o bloco contra sanções financeiras.
- Fortalecer moedas locais no comércio intra-bloco.
- Promover integração econômica entre os membros.
O avanço das discussões ocorre em um momento de mudanças no cenário financeiro global, com o dólar enfrentando volatilidade e os BRICS expandindo sua influência com novos membros, como Egito, Irã e Arábia Saudita.
Origem da proposta e reações internacionais
A proposta de uma moeda para o BRICS teve início em 2023, durante a cúpula de Joanesburgo, quando Lula sugeriu um mecanismo de pagamento alternativo ao dólar. Desde então, reuniões técnicas com ministros das Finanças e bancos centrais avançaram na criação de uma plataforma digital, apelidada por especialistas de “Pix internacional”. O sistema permitiria transações diretas em moedas locais, como real, yuan e rublo, sem conversão para dólar. Sergei Lavrov, chanceler russo, afirmou que a iniciativa exige ajustes para garantir compensação e segurança interbancária, mas já mostra progressos.
A reação dos Estados Unidos foi imediata. Donald Trump, em publicações na rede Truth Social, classificou o projeto como uma ameaça ao “poderoso dólar” e prometeu retaliações comerciais. Em 30 de julho de 2025, ele alertou que países do bloco enfrentariam tarifas de até 100% caso implementassem uma moeda alternativa. A postura reflete a preocupação americana com a perda de influência financeira, já que o dólar representa 84% das transações globais, segundo dados da rede SWIFT.
- Fatores que intensificam a resistência dos EUA:
- Dominância do dólar no comércio internacional.
- Uso do sistema SWIFT para impor sanções.
- Crescimento econômico dos BRICS, superando o G7.
Apesar das tensões, líderes do BRICS, como Lula, insistem que a proposta não é antiamericana, mas uma estratégia para maior eficiência comercial e proteção contra instabilidades externas.

Mecanismos propostos para a nova moeda
Diferentemente do euro, a moeda do BRICS não seria uma moeda física unificada, mas um sistema de pagamentos baseado em moedas locais ou uma unidade de conta digital. Especialistas sugerem três modelos principais para sua implementação:
- Moeda digital baseada em CBDCs: Cada país emitiria sua própria moeda digital de banco central, conectada por uma plataforma unificada para transações rápidas e de baixo custo.
- Lastro em commodities: A moeda poderia ser vinculada a recursos como ouro, petróleo ou minerais, garantindo estabilidade e confiança.
- Modelo inspirado nos Direitos Especiais de Saque (DSE): Uma cesta de moedas dos membros, ponderada por suas economias, seria usada como referência para liquidações.
Esses sistemas visam reduzir os custos de conversão cambial e minimizar a exposição à volatilidade do dólar. Em 2025, cerca de 90% do comércio intra-BRICS já ocorre em moedas locais, um salto significativo em relação aos 65% de 2023, segundo dados da rede SWIFT. A plataforma BRICS Pay, em desenvolvimento, é vista como um passo inicial para operacionalizar essas transações.
O Brasil, sob a presidência do bloco em 2025, planeja apresentar avanços concretos na próxima cúpula, com foco na integração de tecnologias como blockchain para agilizar pagamentos.
Obstáculos técnicos e políticos
Embora a proposta seja promissora, sua implementação enfrenta barreiras significativas. A integração financeira entre os países do BRICS exige harmonização de políticas monetárias, algo desafiador devido às diferenças econômicas e políticas. A China, por exemplo, domina o comércio intra-bloco, com o yuan representando 50% das transações, o que gera receios de desequilíbrios em favor de Pequim.
- Principais desafios identificados:
- Divergências políticas, como tensões entre China e Índia.
- Falta de estabilidade macroeconômica em alguns membros.
- Resistência de empresas privadas ao novo sistema.
- Necessidade de acordos multilaterais complexos.
Além disso, a adesão do setor privado é um obstáculo. Exportadores brasileiros, por exemplo, poderiam perder o acesso direto a reservas em dólar, o que afetaria sua flexibilidade em transações internacionais. Bancos centrais também precisariam criar mecanismos para lidar com desequilíbrios comerciais persistentes, evitando que países menos competitivos acumulem dívidas no sistema.
Avanços atuais e estratégias alternativas
Enquanto a moeda do BRICS não se concretiza, o bloco já implementa medidas para reduzir a dependência do dólar. O uso de moedas locais em transações bilaterais cresceu significativamente, com acordos entre Brasil e Argentina, por exemplo, permitindo pagamentos em reais e pesos. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff, também financia projetos em moedas locais, liberando bilhões em real, yuan e rublo.
A cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024, reforçou o compromisso com o BRICS Bridge, um sistema de pagamentos digitais alternativo. Essas iniciativas visam fortalecer a infraestrutura financeira do bloco, que agora inclui novos membros como Emirados Árabes Unidos e Etiópia, ampliando sua representatividade global.
- Iniciativas em andamento:
- Expansão do uso de moedas locais no comércio.
- Desenvolvimento do BRICS Pay para transações digitais.
- Fortalecimento do NDB como alternativa ao FMI.
- Integração de novos membros para maior influência.
O Brasil, com sua experiência no Pix, busca liderar a modernização dos sistemas de pagamento, propondo soluções que reduzam custos e aumentem a eficiência.
Cenário econômico global e implicações
A queda do dólar para R$ 5,3870 em agosto de 2025 reflete um momento de instabilidade no mercado financeiro global, impulsionado por políticas monetárias americanas e tensões comerciais. Os BRICS, representando 46% do PIB global em paridade de poder de compra, veem na desdolarização uma oportunidade para consolidar sua influência. A redução gradual das reservas em dólar, observada em dados do FMI, indica uma tendência global de diversificação monetária, com moedas como o yuan e o rublo ganhando espaço.
A proposta do BRICS também responde à “armamentalização” do dólar, como descrito por especialistas, em que os EUA usam sua moeda para impor sanções, como no caso da Rússia após a invasão da Ucrânia. Um sistema alternativo protegeria os membros contra tais medidas, fortalecendo sua autonomia econômica.
- Benefícios esperados da desdolarização:
- Menor vulnerabilidade a sanções financeiras.
- Redução de custos de transação em até 20%, segundo estimativas.
- Maior competitividade das exportações do bloco.
- Fortalecimento da cooperação entre o Sul Global.
Próximos passos e negociações futuras
O Brasil, durante sua presidência do BRICS em 2025, planeja aprofundar as discussões técnicas sobre a nova moeda, com reuniões previstas para o início de 2026. A cúpula do Rio de Janeiro, em julho de 2025, definiu um cronograma preliminar para testes do BRICS Pay, com foco em transações piloto entre Brasil, China e Rússia. Lula destacou que a proposta será debatida sem pressa, visando consenso entre os membros.
A iniciativa também atrai interesse de outros países do Sul Global, que buscam alternativas ao sistema financeiro dominado pelo Ocidente. A expansão do BRICS para 19 membros reforça sua capacidade de influenciar o comércio global, mas exige maior coordenação para superar barreiras políticas e econômicas.