Washington sedia nesta segunda-feira (18) um encontro crucial entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, e sete líderes europeus, com foco na guerra entre Ucrânia e Rússia. A reunião, realizada na Casa Branca, busca avançar negociações de paz após a cúpula entre Trump e Vladimir Putin no Alasca, na última sexta-feira (15). Zelensky insiste em garantias de segurança semelhantes ao Artigo 5 da Otan e rejeita ceder territórios, enquanto Trump sinaliza diálogo com Putin, mencionando a possibilidade de uma cúpula tripartite já na próxima sexta-feira (22). O encontro ocorre em meio a tensões, com a Rússia exigindo a anexação de territórios ocupados, como a Crimeia, e a Ucrânia defendendo sua soberania. A presença de líderes europeus reforça o esforço conjunto para conter a ofensiva russa, iniciada em 2022, e definir o futuro do conflito.
A agenda do dia inclui uma reunião bilateral entre Trump e Zelensky no Salão Oval, seguida de um encontro multilateral na Sala Leste com líderes como Emmanuel Macron, da França, e Ursula von der Leyen, da Comissão Europeia. A Casa Branca divulgou um cronograma detalhado, com atividades começando às 13h (horário local) e culminando na reunião multilateral às 15h30. O encontro é visto como um teste para a postura de Trump frente às demandas russas e ao apoio a Kiev.

- Líderes presentes: Emmanuel Macron (França), Keir Starmer (Reino Unido), Friedrich Merz (Alemanha), Ursula von der Leyen (Comissão Europeia), Mark Rutte (Otan), Giorgia Meloni (Itália) e Alexander Stubb (Finlândia).
- Objetivo principal: discutir garantias de segurança para a Ucrânia e possíveis caminhos para a paz.
- Contexto: segue a cúpula Trump-Putin no Alasca, onde não houve acordo de cessar-fogo.
Tensões na mesa de negociações
O encontro desta segunda-feira ocorre sob um clima de cautela, especialmente após a reunião entre Trump e Putin no Alasca, que não resultou em um cessar-fogo imediato. Diplomatas europeus relatam que líderes como Giorgia Meloni, Alexander Stubb e Mark Rutte foram convidados para suavizar possíveis embates verbais de Trump contra Zelensky, que já foi alvo de críticas públicas do presidente americano. Em fevereiro, durante uma visita anterior, Trump chamou Zelensky de “ingrato” em uma reunião tensa no Salão Oval, marcada por interrupções e tom ríspido.
Zelensky, por sua vez, mantém uma postura firme contra as exigências russas. Ele reiterou no domingo (17), em Bruxelas, que a Ucrânia não abrirá mão de sua soberania territorial, especialmente sobre a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, e partes do Donbas, ocupadas desde 2022. O líder ucraniano defende que qualquer acordo deve incluir garantias robustas de segurança, comparáveis ao mecanismo de defesa coletiva da Otan.
Trump, em contrapartida, parece inclinado a buscar um entendimento com Putin. Após a cúpula no Alasca, ele afirmou ter feito “grandes progressos” nas conversas com o presidente russo, embora detalhes permaneçam escassos. O enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff, descreveu a proposta russa como “transformadora”, sugerindo abertura para garantias de segurança, mas sem esclarecer os termos.
Proposta russa gera polêmica
Um esboço da proposta russa, obtido por diplomatas e reportado pela agência Reuters, delineia os pontos de negociação defendidos por Moscou. O plano prevê a retirada parcial de tropas russas do norte da Ucrânia, mas impõe condições que Kiev considera inaceitáveis.
- Reconhecimento da anexação da Crimeia, ocupada pela Rússia desde 2014.
- Manutenção do controle russo sobre grande parte do Donbas, incluindo áreas de Donetsk e Lugansk.
- Compromisso da Ucrânia de não ingressar na Otan.
- Alívio das sanções internacionais contra Moscou, impostas desde o início da guerra.
- Desmilitarização parcial da Ucrânia, limitando sua capacidade militar futura.
Diplomatas destacam que o documento não representa um acordo formal, mas reflete a estratégia russa de consolidar ganhos territoriais e políticos. Para Zelensky, aceitar tais condições equivaleria a comprometer a soberania nacional, algo que ele rechaça publicamente.
A proposta russa também inclui a cessão total de Donetsk e Lugansk, incluindo áreas ainda não ocupadas pelas forças russas, conforme reportado pelo jornal The New York Times. Essa possibilidade foi debatida por Trump e Putin no Alasca, mas enfrenta resistência de Kiev, que vê na medida uma tentativa de legitimar a ocupação militar.
Papel da Europa na mediação
A presença de sete líderes europeus na Casa Branca reforça a tentativa da União Europeia de influenciar as negociações e evitar que Trump ceda às demandas russas sem consultar Kiev. Líderes como Emmanuel Macron e Keir Starmer buscam garantir que qualquer acordo respeite a soberania ucraniana e inclua garantias de segurança robustas.
A Comissão Europeia, representada por Ursula von der Leyen, emitiu um comunicado conjunto com França, Alemanha e Reino Unido, afirmando que a Ucrânia deve decidir sobre seu território e que a Rússia não pode ter poder de veto sobre sua integração à Otan ou à União Europeia. Mark Rutte, secretário-geral da Otan, reconheceu a dificuldade de Kiev em recuperar territórios ocupados, sugerindo que a Ucrânia pode precisar aceitar perdas práticas, ainda que não formalizadas juridicamente.
- Compromisso europeu: manter sanções contra a Rússia enquanto os ataques continuarem.
- Apoio a Kiev: disposição para enviar forças de paz, exceto na linha de frente.
- Mediação: facilitar uma cúpula tripartite com Trump, Zelensky e Putin.
A Europa também tenta cortejar Trump, que demonstrou maior abertura às propostas russas após a cúpula no Alasca. A presença de líderes moderados, como Meloni e Stubb, visa equilibrar as discussões e proteger Zelensky de pressões diretas do presidente americano.
Cúpula tripartite no horizonte
Trump anunciou a intenção de organizar uma cúpula tripartite com Zelensky e Putin já na sexta-feira (22), caso as conversas desta segunda-feira avancem. Ele afirmou, ao lado de Zelensky, que falará com Putin por telefone após o encontro na Casa Branca, sugerindo que a viabilidade da reunião depende do progresso de hoje.
Putin, no entanto, condiciona sua participação à aceitação prévia de algumas exigências, incluindo a renúncia ucraniana a territórios ocupados. O presidente russo também mantém a narrativa de que Zelensky é um líder “ilegítimo”, o que levanta dúvidas sobre sua disposição para negociar diretamente com Kiev. Analistas em Berlim, Bruxelas, Londres e Paris apontam que Putin pode estar ganhando tempo para consolidar avanços militares no leste da Ucrânia.
Zelensky, por outro lado, expressou disposição para um encontro face a face com Putin, algo que ele defende desde o início do conflito. Ele enfatizou, em redes sociais, que a “linha de frente” é o ponto de partida para qualquer negociação, rejeitando concessões territoriais sem garantias internacionais.
Histórico de tensões entre Trump e Zelensky
A reunião desta segunda-feira marca o segundo encontro presencial entre Trump e Zelensky desde o início da guerra. O primeiro, em fevereiro, foi marcado por tensões públicas, com Trump e seu vice, J.D. Vance, criticando o líder ucraniano. Na ocasião, Vance questionou o uso de recursos americanos para apoiar Kiev, enquanto Trump acusou Zelensky de não valorizar a ajuda dos Estados Unidos.
Nesta segunda-feira, o clima pareceu mais ameno. Um repórter elogiou o paletó de Zelensky, uma mudança em relação às críticas anteriores por seu figurino informal, adotado desde 2022 como símbolo de resistência. A presença de líderes europeus também contribui para reduzir a pressão sobre o presidente ucraniano.
- Contexto da crítica: em fevereiro, Trump interrompeu Zelensky diante das câmeras.
- Mudança de tom: Trump adotou discurso mais conciliador, focado na paz.
- Expectativa: o encontro testa a capacidade de Trump de mediar o conflito.
Avanços militares russos
A Rússia intensificou suas operações no leste da Ucrânia, reivindicando a captura de duas localidades no sábado (16), segundo Kiev. Durante a cúpula no Alasca, o Exército russo lançou 85 drones e um míssil contra alvos ucranianos, sinalizando que as negociações não interromperam as hostilidades.
A Ucrânia enfrenta dificuldades para conter os avanços russos, especialmente em Donetsk e Lugansk, onde Moscou controla cerca de 20% do território nacional, além da Crimeia. A pressão militar reforça a urgência de um acordo, mas também fortalece a posição de Putin nas negociações, que busca consolidar ganhos antes de qualquer trégua.
Próximos passos e incertezas
O sucesso da reunião na Casa Branca determinará os rumos do conflito. Caso as negociações avancem, a cúpula tripartite proposta por Trump pode representar um marco nas tratativas de paz. No entanto, as condições impostas por Putin, como a renúncia a territórios, permanecem como obstáculo.
Zelensky enfrenta o desafio de manter a soberania ucraniana sem alienar o apoio americano e europeu. Trump, por sua vez, busca reforçar sua imagem como mediador global, mas sua proximidade com Putin gera preocupações entre aliados da Otan. A Europa, enquanto isso, tenta equilibrar a pressão por paz com a defesa dos interesses de Kiev.
- Possível data: cúpula tripartite planejada para 22 de agosto.
- Condição russa: Putin exige concessões territoriais antes do encontro.
- Posição ucraniana: Zelensky insiste em garantias de segurança robustas.
- Papel europeu: mediação para evitar imposições unilaterais à Ucrânia.
A comunidade internacional acompanha de perto os desdobramentos, ciente de que o resultado das negociações pode redefinir o equilíbrio de poder no leste europeu e influenciar a geopolítica global nos próximos anos.