Os preços da carne bovina nos Estados Unidos alcançaram níveis recordes em julho de 2025, impactando diretamente o bolso dos consumidores e encarecendo produtos como hambúrgueres e churrascos. A alta, que levou o preço médio dos bifes crus a R$ 143 por quilo e da carne moída a R$ 76 por quilo, resulta de uma combinação de fatores: a redução drástica do rebanho bovino americano, o menor em décadas, e as tarifas de 50% impostas pelo governo de Donald Trump sobre importações, especialmente do Brasil. O fenômeno, agravado por restrições ao gado mexicano devido a uma praga, pressiona a oferta e mantém a tendência de preços elevados. A situação afeta desde redes de fast-food até churrascos caseiros, sem sinais de alívio imediato.
O aumento reflete uma crise estrutural no mercado americano, com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) revisando para baixo suas projeções de produção. A dependência de importações, aliada às barreiras comerciais, cria um cenário de escassez que pode persistir até 2026.
- Fatores da alta: Queda no rebanho bovino, tarifas sobre o Brasil e suspensão de importações do México.
- Impacto no consumidor: Preços recordes dificultam acesso a cortes populares, como carne moída.
- Perspectiva do setor: Sem alternativas imediatas, preços devem continuar altos por anos.
O que está por trás da alta recorde
A disparada nos preços da carne bovina nos EUA é impulsionada por uma oferta doméstica limitada, que atingiu o menor nível em mais de 70 anos. O rebanho bovino americano caiu para 94,2 milhões de cabeças em 2025, contra 94,4 milhões em 2020, segundo o USDA. Secas prolongadas, especialmente no Meio-Oeste, reduziram a disponibilidade de pastagens, forçando pecuaristas a recorrer a rações mais caras. Muitos optaram por abater fêmeas reprodutoras para cortar custos, comprometendo a recomposição do rebanho.
Além disso, a demanda por carne bovina segue forte, especialmente na temporada de churrascos de verão. Dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) mostram que o índice de carne bovina e vitela subiu 11,3% em 12 meses até julho, com a carne moída registrando alta de 15,3% em seis meses. O preço médio da carne moída atingiu US$ 6,34 por libra, enquanto bifes crus chegaram a US$ 11,88 por libra, valores nunca antes registrados.
- Rebanho reduzido: Menor número de cabeças desde 1951, com 86,7 milhões em janeiro.
- Demanda aquecida: Consumo de carne bovina segue firme, sem migração para frango ou porco.
- Custos elevados: Seca e alta no preço da ração impactam pecuaristas.
- Tempo de recuperação: Recomposição do rebanho pode levar de dois a quatro anos.
Tarifas de Trump amplificam a crise
As tarifas impostas pelo governo Trump, especialmente a de 50% sobre a carne bovina brasileira, intensificaram a pressão sobre os preços. O Brasil, que respondeu por 27% das importações americanas de carne bovina em 2025, viu suas exportações despencarem após o aumento tarifário. Em abril, o país exportou 47,8 mil toneladas para os EUA, mas o volume caiu para 9,7 mil toneladas em julho, uma redução de 80%.
O USDA já revisou para baixo as projeções de importações para 2025 e 2026, destacando o impacto das tarifas. A Austrália, outro grande fornecedor, não tem capacidade para suprir a lacuna deixada pelo Brasil, segundo Wesley Batista Filho, CEO da JBS USA. Ele alerta que a ausência de carne magra brasileira, usada principalmente em hambúrgueres, força redes de fast-food a recorrer a cortes nobres americanos, encarecendo ainda mais os produtos.
- Queda nas exportações: Brasil exportou 181,5 mil toneladas de janeiro a junho, mas vendas caíram após tarifas.
- Dependência de importações: EUA importam 8% do consumo de carne bovina, com Brasil como maior fornecedor.
- Falta de substitutos: Austrália e outros países não conseguem suprir o volume brasileiro.
- Impacto na indústria: Fast-foods usam cortes mais caros, elevando preços finais.

Restrições ao México agravam o cenário
A suspensão das importações de gado vivo do México, iniciada em maio de 2025 devido à praga “bicheira do Novo Mundo” (NWS), reduziu ainda mais a oferta de carne nos EUA. O México fornecia cerca de 4% do gado abatido no país, essencial para a produção de carne magra. A praga, causada por larvas que se alimentam de tecido vivo, levou a medidas drásticas, como a construção de uma fábrica de moscas estéreis no Texas para conter a propagação.
A ausência do gado mexicano, combinada com as tarifas ao Brasil, cria uma “tempestade perfeita” no mercado americano. O USDA estima que a produção de carne bovina em 2025 será de 25,9 bilhões de libras, 4% abaixo do previsto inicialmente, o menor volume em uma década. A redução no peso médio dos animais abatidos, devido à escassez de pasto, também contribui para a menor oferta.
- Praga no México: Bicheira do Novo Mundo levou à suspensão de importações de gado.
- Produção menor: USDA prevê 25,9 bilhões de libras em 2025, menor volume desde 2019.
- Peso reduzido: Animais abatidos têm menor peso devido à falta de pastagem.
- Medidas de longo prazo: Fábrica de moscas estéreis no Texas visa conter a praga.
Impacto nos consumidores e na indústria
A alta nos preços da carne bovina afeta diretamente os consumidores americanos, que enfrentam custos recordes para hambúrgueres e churrascos. Apesar do aumento, a demanda por carne bovina permanece estável, sem sinais de migração significativa para proteínas alternativas, como frango ou porco. Redes de fast-food, como McDonald’s e Sysco, já sentem a pressão, com algumas empresas entrando com ações contra processadores de carne, alegando manipulação de preços.
No varejo, o impacto também é evidente. O Walmart, por exemplo, abriu uma unidade própria de produção de carne bovina em Kansas para reduzir custos, eliminando intermediários. No entanto, analistas preveem que os preços continuarão altos até que o rebanho seja recomposto, o que pode levar anos. A combinação de oferta restrita e barreiras comerciais mantém o mercado sob tensão, com reflexos em toda a cadeia produtiva.
- Fast-foods pressionados: Empresas recorrem a cortes nobres, elevando custos.
- Varejo busca soluções: Walmart investe em produção própria para conter preços.
- Demanda resiliente: Consumidores mantêm preferência por carne bovina.
- Litígios no setor: Ações contra processadores alegam aumento artificial de preços.
Perspectivas para o mercado global
A redução nas exportações brasileiras para os EUA, causada pelas tarifas, abre espaço para redirecionamento a outros mercados, como a China, que absorve 48% das exportações de carne bovina do Brasil. No entanto, a perda do mercado americano, segundo maior destino, representa um desafio para os frigoríficos brasileiros, com estimativas de prejuízo de US$ 1 bilhão em 2025. Países como Austrália, Argentina e Uruguai, embora concorrentes, também enfrentam limitações de produção, o que pode beneficiar o Brasil em outros mercados.
Para os EUA, substituir o volume brasileiro será difícil. A carne brasileira, mais barata, é essencial para a indústria de hambúrgueres, e os preços mais altos de fornecedores como Austrália (US$ 7.169 por tonelada) e Argentina (US$ 6.733 por tonelada) dificultam a substituição imediata. Enquanto isso, a inflação da carne nos EUA deve continuar, com estimativas de aumento de 1,1% nos preços no curto prazo, segundo o The Budget Lab.
- Redirecionamento brasileiro: China e mercados asiáticos podem absorver excedente.
- Concorrência limitada: Austrália e Argentina não suprem lacuna brasileira.
- Inflação prevista: Aumento de 1,1% nos preços da carne no curto prazo.
- Prejuízo brasileiro: Perda estimada de US$ 1 bilhão em exportações em 2025.