Economia

Brics avança em sistema de pagamentos sem dólar e gera debate global

BRICS
BRICS - Foto: Dilok Klaisataporn / istockphoto BRICS - Foto: Dilok Klaisataporn / istockphoto

Os países do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e membros associados, intensificaram discussões em 2025 para criar um sistema de pagamentos que elimine a dependência do dólar em transações internacionais. Lideranças do bloco, incluindo o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, reuniram-se em eventos como a cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024, para avançar propostas como o Brics Bridge, uma plataforma de pagamentos baseada em moedas locais e blockchain. A iniciativa, que ganhou força com o apoio do governo Lula, busca reduzir a influência do sistema financeiro ocidental, dominado pelo dólar e pelo Swift, mas divide especialistas sobre sua viabilidade e impactos. O movimento ocorre em meio a tensões comerciais com os Estados Unidos, que ameaçam tarifas contra países que desafiem a hegemonia da moeda americana. A proposta reflete o desejo do bloco de maior autonomia financeira, mas enfrenta desafios econômicos e políticos.

A ideia de um sistema alternativo de pagamentos não é nova, mas ganhou impulso com as sanções ocidentais contra a Rússia desde 2022, que limitaram seu acesso ao Swift. A China, por sua vez, quer expandir o uso do yuan, enquanto o Brasil defende transações em moedas locais para reduzir custos. O Brics Bridge, evolução do projeto mBridge, promete conectar sistemas financeiros dos países membros usando moedas digitais de bancos centrais.

Brics
Brics – Foto: Yau Ming Low/Istock.com
  • Objetivo principal: Criar uma alternativa ao Swift, reduzindo a dependência do dólar.
  • Tecnologia envolvida: Blockchain para transações seguras e descentralizadas.
  • Países envolvidos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, além de novos membros como Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes.
  • Cronograma: Testes do mBridge atingiram estágio viável em 2024, mas sem data para implementação total.

Proposta do Brics Bridge

A plataforma Brics Bridge, discutida na cúpula de Kazan, é o pilar central da proposta. Diferentemente de uma moeda única, ela foca em facilitar transações transfronteiriças com moedas locais, usando tecnologia blockchain para garantir segurança e eficiência. Segundo Yuri Ushakov, assessor do Kremlin, em março de 2024, o sistema será “conveniente para governos, empresas e cidadãos, além de livre de pressões políticas”. A iniciativa já conta com a adesão da Arábia Saudita, que se juntou ao projeto em 2024, e o mBridge, precursor do Brics Bridge, alcançou um estágio de produto mínimo viável, capaz de realizar transações reais.

O Brasil, por meio do Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), já tem experiência com transações sem dólar no Mercosul. Em 2024, o país exportou R$ 3,3 bilhões para a Argentina via SML, mas o volume ainda é pequeno frente aos 95% das exportações brasileiras que usam o dólar. O governo Lula vê no Brics Bridge uma oportunidade de ampliar esse modelo, reduzindo custos de conversão cambial e exposição a sanções.

Motivações por trás do projeto

Cada país do Brics tem interesses específicos na criação de um sistema independente. A Rússia, isolada financeiramente desde as sanções de 2022, busca um mecanismo para manter o comércio global. A China, com a segunda maior economia do mundo, quer internacionalizar o yuan, que hoje representa apenas 4,5% do comércio global, contra 84,3% do dólar. O Brasil, por sua vez, aposta na redução de custos e na maior integração com parceiros do Sul Global.

  • Rússia: Escapar das sanções ocidentais que bloquearam seu acesso ao Swift.
  • China: Expandir o uso do yuan e desafiar a dominância financeira dos EUA.
  • Brasil: Reduzir custos de transações e fortalecer laços com países emergentes.
  • Índia: Busca flexibilidade, mas teme a predominância do yuan no sistema.
  • África do Sul: Apoia a iniciativa, mas enfrenta limitações econômicas para liderar.

Apesar do entusiasmo, a proposta enfrenta críticas. Especialistas apontam que a falta de integração econômica entre os membros e a volatilidade de algumas moedas, como o rublo, dificultam a implementação. “A ideia de um sistema comum é politicamente atraente, mas economicamente complexa”, diz Maria Elena Rodriguez, economista da Universidade de São Paulo.

Reações no Brasil e impacto local

No Brasil, a proposta tem apoio do governo, mas gera preocupação entre economistas. O presidente Lula, em discursos desde 2023, critica a hegemonia do dólar e defende a soberania financeira. Durante a cúpula de Joanesburgo, em 2023, ele afirmou que o uso de moedas locais “aumenta as opções de pagamento e reduz vulnerabilidades”. O Banco Central brasileiro já utiliza o SML no Mercosul, mas sua expansão para o Brics exige ajustes regulatórios e investimentos em infraestrutura.

Empresas brasileiras poderiam se beneficiar com a redução de custos em transações internacionais, especialmente no comércio com a China, maior parceiro comercial do país. Em 2024, o Brasil exportou US$ 104 bilhões para a China, quase todos em dólar. Um sistema como o Brics Bridge poderia facilitar pagamentos em reais ou yuan, mas analistas alertam para riscos.

  • Benefícios potenciais: Menor custo de conversão e maior autonomia financeira.
  • Riscos apontados: Instabilidade de moedas locais e custos de implementação.
  • Impacto no consumidor: Possível aumento de preços se moedas perderem valor frente ao dólar.
  • Prazo estimado: Sem data definida, mas testes avançam até 2026.

A jurista Daniele Quintans dos Santos, em análise publicada no Jus Brasil, destaca que a substituição do dólar pode encarecer produtos importados, caso a nova plataforma não estabilize as moedas locais. Além disso, a infraestrutura necessária para o Brics Bridge exige investimentos significativos, o que pode sobrecarregar economias menores, como a da África do Sul.

Tensões com os Estados Unidos

A proposta do Brics coincide com atritos crescentes entre o Brasil e os EUA. Em 2025, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, interpretadas como resposta à aproximação do Brasil com nações sob sanções, como Irã e Rússia. O presidente eleito Donald Trump, em novembro de 2024, ameaçou sanções de 100% contra países que desafiem o dólar, intensificando o debate. “Se os Brics criarem uma moeda ou sistema alternativo, enfrentarão tarifas e perderão acesso ao mercado americano”, afirmou Trump em postagem no Truth Social.

No Brasil, a oposição critica a postura do governo. O deputado Marcel van Hattem, do partido Novo, alerta que a proximidade com países sancionados pode isolar o Brasil no cenário global. “Apoiar iniciativas contra o dólar sem uma estratégia clara é arriscado”, diz. Já o governo Lula argumenta que o Brics Bridge reforça a soberania econômica e alivia pressões externas.

Obstáculos técnicos e econômicos

Implementar o Brics Bridge exige superar barreiras significativas. A falta de sincronia econômica entre os membros do Brics é um dos principais desafios. A China, com um PIB cinco vezes maior que o do Brasil, domina o comércio intra-bloco, o que gera receios em países como a Índia, que teme a preponderância do yuan. Além disso, a infraestrutura financeira de nações como a África do Sul é limitada, dificultando a adesão plena ao sistema.

  • Desafios técnicos: Necessidade de sistemas interoperáveis e investimentos em blockchain.
  • Riscos econômicos: Volatilidade de moedas locais e desequilíbrios comerciais.
  • Integração limitada: Países do Brics têm pouco comércio entre si, exceto com a China.
  • Prazo de viabilidade: Especialistas estimam pelo menos cinco anos para operação plena.

A economista Ana Clara Costa, da FGV, aponta que o Brics Bridge precisa de um mecanismo de compensação para lidar com desequilíbrios comerciais. “Sem uma moeda intermediária estável, as taxas de câmbio podem encarecer as transações”, explica. O modelo do euro, citado como referência por alguns, é inviável devido à ausência de uma união bancária ou fiscal entre os Brics.

Papel da tecnologia blockchain

A adoção de blockchain é um diferencial do Brics Bridge. A tecnologia permite transações seguras e descentralizadas, reduzindo a dependência de intermediários financeiros ocidentais. O mBridge, testado em 2024, mostrou capacidade para processar transações reais entre bancos centrais, com compatibilidade com a Máquina Virtual Ethereum. Países como a Arábia Saudita, que aderiu ao projeto, destacam o potencial do sistema para reduzir custos e aumentar a transparência.

No entanto, a implementação exige harmonização regulatória. Cada país precisa adaptar suas leis financeiras, o que pode levar anos. Além disso, a China, líder em tecnologia blockchain, pode exercer influência desproporcional, gerando tensões no bloco.

Cenário global e próximos passos

O avanço do Brics Bridge reflete uma mudança no equilíbrio financeiro global. Com 37% do PIB mundial, o Brics busca maior protagonismo, mas enfrenta resistências internas e externas. A Índia, por exemplo, mantém uma postura cautelosa, priorizando acordos bilaterais em rúpias com países como os Emirados Árabes. O Brasil, sob a liderança de Lula, planeja reforçar o tema na presidência do Brics em 2026, propondo uma nova definição para o bloco: “Construindo Resiliência e Inovação para Cooperação e Sustentabilidade”.

A proposta, embora ambiciosa, não substituirá o dólar no curto prazo. O dólar ainda domina 90% das transações cambiais globais, e o Swift conecta mais de 200 países com eficiência. Para o economista britânico Jim O’Neill, criador do termo Brics, a ideia de um sistema alternativo é mais simbólica do que prática. “Eles teriam que criar uma estrutura financeira robusta, o que levaria décadas”, afirma.

Apesar das críticas, o Brics Bridge representa um passo concreto para reduzir a dependência do dólar. A cúpula de 2026, sob liderança indiana, será crucial para definir os próximos passos. Enquanto isso, o Brasil segue equilibrando sua posição entre o Sul Global e as pressões dos EUA, em um cenário de crescente polarização econômica.

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