O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) suspendeu preventivamente os contratos com a Crefisa, instituição financeira responsável pelo pagamento de benefícios previdenciários, após a identificação de irregularidades como coação de aposentados, venda casada e dificuldades no acesso aos valores. A decisão, publicada no Diário Oficial da União em 21 de agosto de 2025, foi assinada pelo presidente do INSS, Gilberto Waller, e visa proteger os beneficiários até a conclusão das investigações. A Crefisa, que venceu 25 dos 26 lotes de um leilão em 2024 para gerir a folha de pagamento de novos benefícios, enfrenta críticas de órgãos como o Procon e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A medida não afeta quem já recebe pela instituição, mas impede novas concessões.
A suspensão ocorre em meio a um cenário de denúncias crescentes. A Crefisa assumiu a gestão de grande parte da folha do INSS em janeiro de 2025, mas desde então acumula reclamações. O INSS identificou problemas graves, que comprometem a qualidade do atendimento e os direitos dos beneficiários. A decisão reflete a preocupação com a integridade do sistema previdenciário.
- Principais irregularidades apontadas:
- Atrasos e impedimentos no pagamento de benefícios.
- Práticas de coação para abertura de contas e venda de produtos.
- Falta de estrutura adequada nas agências da Crefisa.
- Portabilidades de benefícios sem autorização dos segurados.
Problemas enfrentados pelos aposentados
Aposentados e pensionistas relatam dificuldades significativas ao tentar acessar seus benefícios. Muitos enfrentaram filas extensas, ausência de caixas eletrônicos e atendimento inadequado nas agências da Crefisa. Em algumas localidades, beneficiários foram pressionados a contratar serviços adicionais, como empréstimos e seguros, para liberar seus pagamentos, prática conhecida como venda casada. Essa conduta, considerada abusiva, gerou indignação entre os segurados e motivou denúncias formais.
A OAB de São Paulo, por exemplo, encaminhou ofícios ao INSS, à Controladoria-Geral da União (CGU) e ao Banco Central, apontando violações contratuais e prejuízos a idosos, muitos dos quais são analfabetos funcionais ou superendividados. A entidade destacou que a Crefisa, ao vencer a maior parte do leilão de 2024, criou um monopólio temporário, o que limitou a concorrência e ampliou os problemas. A Fundação Procon-SP reforçou que a instituição não adota a cautela necessária no atendimento a públicos vulneráveis.
As reclamações começaram a surgir em fevereiro de 2025, logo após a Crefisa iniciar as operações. A OAB-SP relatou mais de 120 queixas formais, incluindo casos de beneficiários que não conseguiram sacar seus valores devido a restrições impostas pela instituição. A suspensão preventiva, segundo o INSS, busca corrigir essas falhas e garantir a proteção dos direitos dos segurados.
Histórico do leilão e polêmicas
No final de 2024, a Crefisa venceu 25 dos 26 lotes do leilão da folha de pagamento do INSS, garantindo a gestão de novos benefícios até 2029. O pregão, no entanto, foi alvo de controvérsias. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) questionou as regras do edital, alegando que favoreciam a criação de um monopólio e violavam princípios de concorrência. Uma liminar do Tribunal Regional Federal da 1ª Região suspendeu temporariamente a Instrução Normativa 172/2024, que permitia aos bancos vencedores oferecer empréstimos consignados sem o prazo de 90 dias exigido para novos aposentados.
A vitória da Crefisa no leilão foi marcada por lances altos, como os R$ 91,68 por segurado no lote 3, superados apenas pelo Banco Mercantil em um único lote. Apesar do sucesso no pregão, a instituição enfrentou dificuldades operacionais desde o início. Relatos indicam que a Crefisa não possuía estrutura física em diversas regiões contempladas pelo edital, o que contraria as exigências do INSS. Essa limitação contribuiu para os problemas de atendimento e atrasos nos pagamentos.
- Fatos sobre o leilão de 2024:
- Crefisa venceu 25 dos 26 lotes disponíveis.
- Banco Mercantil venceu o lote de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
- Pregão foi alvo de ação judicial por suposta violação de concorrência.
- Operações da Crefisa começaram em janeiro de 2025.

Reações e medidas do INSS
A suspensão dos contratos com a Crefisa foi recebida com alívio por entidades de defesa do consumidor. O Procon-SP destacou que a decisão protege beneficiários vulneráveis, mas cobrou maior fiscalização para evitar problemas semelhantes no futuro. O Ministério Público Federal também acompanha o caso, exigindo esclarecimentos sobre as práticas da instituição. A OAB-SP reforçou a necessidade de medidas corretivas urgentes, incluindo a revisão dos critérios de escolha das instituições financeiras para a gestão da folha do INSS.
O INSS informou que a suspensão é temporária e que os contratos serão reavaliados após a conclusão das investigações. Beneficiários que já recebem pela Crefisa não terão seus pagamentos interrompidos, mas novos segurados não poderão escolher a instituição até a resolução do caso. A autarquia também destacou que a Central 135 e o aplicativo Meu INSS estão disponíveis para esclarecimentos e denúncias.
A decisão contra a Crefisa não é isolada. Em 12 de agosto de 2025, o INSS suspendeu os contratos com o Banco Agibank por irregularidades semelhantes, como interceptação de chamadas destinadas à Central 135 e convocações indevidas de beneficiários. Essas medidas refletem um esforço para combater práticas abusivas no sistema previdenciário.
Denúncias e investigações em curso
As irregularidades da Crefisa se inserem em um contexto mais amplo de fraudes no INSS. A Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela CGU em abril de 2025, revelou um esquema bilionário de descontos não autorizados em benefícios previdenciários. A operação resultou no afastamento de servidores e na suspensão de acordos com associações e sindicatos. Embora a Crefisa não seja diretamente citada na operação, as denúncias contra a instituição compartilham semelhanças com os problemas identificados, como a falta de transparência e a coação de beneficiários.
A CGU estima que, entre 2019 e 2024, fraudes no INSS geraram prejuízos de R$ 6,3 bilhões, com cerca de 1,5 milhão de descontos indevidos registrados apenas em 2024. A Advocacia-Geral da União (AGU) criou um grupo especial para buscar a reparação dos danos e a restituição dos valores aos aposentados. Em julho de 2025, o Supremo Tribunal Federal homologou um acordo para viabilizar a devolução desses recursos, reforçando a prioridade do governo em proteger os segurados.
- Medidas do governo contra fraudes no INSS:
- Suspensão de contratos com Crefisa e Agibank em 2025.
- Criação de grupo especial pela AGU para ressarcimento.
- Operação Sem Desconto resultou em bloqueio de R$ 2,8 bilhões em bens.
- Notificações aos beneficiários pelo aplicativo Meu INSS.
- Canais oficiais para denúncias: Central 135 e Fala.BR.
Próximos passos e proteção aos beneficiários
O INSS planeja intensificar a fiscalização sobre as instituições financeiras que gerem a folha de pagamento. A autarquia anunciou a revisão dos processos de licitação para evitar novos casos de monopólio e garantir a qualidade do atendimento. A CGU também conduz auditorias para identificar outras irregularidades no sistema previdenciário, com foco na transparência e na proteção dos beneficiários.
Para os aposentados e pensionistas, o INSS recomenda o uso de canais oficiais, como o aplicativo Meu INSS e a Central 135, para verificar extratos e registrar reclamações. A autarquia alertou contra golpes que se aproveitam da situação, orientando os segurados a não compartilhar dados pessoais com terceiros. A suspensão dos contratos com a Crefisa é vista como um passo importante para restaurar a confiança no sistema, mas entidades de defesa do consumidor cobram soluções permanentes para evitar abusos.
A Crefisa, por sua vez, negou as acusações em comunicados anteriores, afirmando que não cometeu irregularidades e que colabora com as investigações. A instituição não respondeu às solicitações de esclarecimento feitas pela imprensa até o momento. O caso segue sob apuração, com expectativa de que novas medidas sejam anunciadas em breve.