A indústria eólica brasileira atravessa uma crise sem precedentes em 2025, marcada por cortes forçados na geração de energia, conhecidos como curtailment, e uma queda expressiva nos investimentos. Empresas do setor, representadas pela Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), relatam prejuízos que superam R$ 6 bilhões desde 2022, devido à incapacidade de escoar a energia produzida, especialmente no Nordeste. A situação, agravada por juros elevados e baixo crescimento da demanda, afeta fabricantes de equipamentos e geradoras, levando a demissões e reestruturações judiciais. A crise, que ganhou força após o apagão de 2023, expõe falhas na infraestrutura de transmissão e na gestão do sistema elétrico. Soluções como novos leilões, modernização da rede e tecnologias de armazenamento são debatidas para reverter o cenário.
A conjuntura atual reflete um descompasso entre a oferta abundante de energia renovável e a capacidade do sistema elétrico nacional. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem recorrido ao curtailment para evitar sobrecargas, priorizando cortes em usinas eólicas e solares de grande porte. Isso ocorre principalmente em horários de pico de produção, entre 10h e 16h, quando a geração distribuída de energia solar também pressiona a rede. A presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, alerta que a falta de soluções imediatas pode levar ao colapso de empresas do setor.
- Principais impactos da crise:
- Prejuízos acumulados de R$ 6 bilhões desde 2022.
- Queda de 32% na instalação de novas capacidades em 2024, com projeção de 39% em 2025.
- Demissões de mais de 11 mil trabalhadores entre 2024 e 2025.
- Fechamento de fábricas, como a da GE Vernova em Pernambuco.
Gargalos na infraestrutura elétrica
A falta de linhas de transmissão suficientes para conectar o Nordeste, maior produtor de energia eólica, ao Sudeste, principal mercado consumidor, é um dos maiores entraves. A expansão acelerada da geração distribuída, especialmente de micro e minigeradores solares, tem sobrecarregado a rede elétrica, que não foi modernizada na mesma velocidade. Em 2024, o Brasil atingiu 33,7 gigawatts (GW) de capacidade eólica instalada, mas a infraestrutura de transmissão não acompanha esse crescimento.
Projetos de novas linhas de transmissão, embora planejados, podem levar até uma década para entrar em operação, segundo especialistas. Enquanto isso, o ONS adota medidas conservadoras, intensificando os cortes de produção após o apagão de agosto de 2023, que revelou fragilidades no sistema. A Abeeólica estima que 14% da energia renovável gerada no terceiro trimestre de 2024 foi desperdiçada devido ao curtailment.
Impactos econômicos e trabalhistas
A crise tem reflexos diretos na cadeia produtiva eólica, que é altamente nacionalizada, com 80% dos componentes fabricados no Brasil. A desaceleração levou ao fechamento de fábricas e à redução de empregos. A fabricante de pás eólicas Aeris, por exemplo, demitiu mais de 3.700 trabalhadores e renegociou 90% de suas dívidas. Outras empresas, como a 2W Ecobank e a Rio Alto Energia, enfrentam dificuldades financeiras, recorrendo a recuperações judiciais.
- Principais consequências econômicas:
- Perda de competitividade no mercado global de renováveis.
- Aumento das importações de equipamentos eólicos.
- Redução de contratos de longo prazo no mercado livre.
- Insegurança jurídica para investidores devido à falta de compensação adequada.
O impacto no mercado de trabalho é igualmente grave, com cortes que afetam comunidades no Nordeste, onde estão concentrados os principais parques eólicos, como no Rio Grande do Norte e na Bahia. A Vestas, uma das maiores produtoras de turbinas no país, destaca que 82% dos componentes de suas turbinas são fabricados localmente, mas a crise ameaça essa cadeia produtiva.

Soluções propostas para o setor
O setor busca alternativas para superar os desafios. A Abeeólica pressiona o Ministério de Minas e Energia (MME) por soluções regulatórias que garantam compensação financeira às geradoras afetadas pelo curtailment. Ações judiciais também foram movidas para assegurar o pagamento pela energia não gerada, mas os resultados ainda são incertos. Além disso, o governo planeja leilões para expandir a infraestrutura de transmissão e incentivar tecnologias de armazenamento, como baterias de sódio.
- Propostas em debate:
- Ampliação de linhas de transmissão para conectar Nordeste e Sudeste.
- Leilões para baterias e sistemas de armazenamento de energia.
- Contratos privados (PPAs) com cláusulas específicas para o curtailment.
- Planejamento integrado entre geração centralizada e distribuída.
A aprovação do marco regulatório para a energia eólica offshore, sancionado em 2024, é vista como um avanço. Leilões para áreas marinhas estão previstos para 2025, com operação estimada a partir de 2030, o que pode diversificar a matriz e reduzir a pressão sobre a rede atual.
Cenário global e perspectivas futuras
A crise no Brasil não é um caso isolado. Nos Estados Unidos, mais de US$ 22 bilhões em projetos de energia limpa foram cancelados ou reduzidos em 2025, refletindo desafios globais na transição energética. No entanto, o Brasil mantém potencial competitivo, com ventos favoráveis e custos de geração relativamente baixos. A estratégia de “power shoring”, que prioriza investimentos em regiões com abundância de renováveis, pode atrair novos aportes no médio e longo prazo.
A retomada de contratações para 2026 é um sinal positivo, mas a solução para o curtailment permanece urgente. Especialistas defendem que a modernização da rede elétrica, aliada a políticas públicas que equilibrem oferta e demanda, é essencial para evitar perdas futuras. A Bahia, que concentrou 48 dos 76 novos parques eólicos instalados em 2024, segue como um polo estratégico, mas precisa de infraestrutura para sustentar seu crescimento.
Avanços na energia eólica offshore
A energia eólica offshore surge como uma esperança para o setor. A sanção da Lei nº 14.801/2024 abriu caminho para projetos no mar, com potencial para gerar energia em larga escala sem os gargalos de transmissão enfrentados em terra. A Bahia, com a inauguração da primeira fábrica de turbinas da Goldwind fora da China, aposta na exportação de energia para a América do Sul.
- Benefícios esperados da eólica offshore:
- Redução da dependência de linhas de transmissão terrestres.
- Atração de investimentos estrangeiros.
- Geração de empregos em novas regiões costeiras.
- Complementaridade com a geração solar e eólica onshore.
Embora promissora, a tecnologia exige altos investimentos iniciais e enfrenta desafios regulatórios e ambientais. A expectativa é que os primeiros parques offshore entrem em operação apenas na próxima década, o que reforça a necessidade de soluções imediatas para a crise atual.
Papel do Nordeste na matriz energética
O Nordeste, responsável por 90% do aumento de 3,2 GW na capacidade eólica em 2024, segue como protagonista na geração renovável. Estados como Bahia e Rio Grande do Norte concentram a maioria dos parques eólicos, com 1.103 unidades em operação no país. No entanto, a região sofre com a falta de infraestrutura para escoar a energia, o que intensifica os cortes de produção.
A geração distribuída, liderada pela energia solar, também contribui para o desequilíbrio. Em 2024, a solar adicionou 14,3 GW à matriz elétrica, com 8,7 GW vindos de micro e minigeradores. Essa expansão, embora positiva, pressiona o sistema elétrico, que não foi projetado para lidar com tamanha variabilidade.
- Fatores que intensificam a crise no Nordeste:
- Excesso de geração em horários de baixa demanda.
- Limitações nas linhas de transmissão regionais.
- Crescimento descoordenado da geração distribuída.
- Dependência de termelétricas em horários de pico noturno.
A integração de tecnologias como smart grids e sistemas de armazenamento é apontada como essencial para otimizar a distribuição e reduzir o desperdício de energia renovável.