Uma nova onda de vídeos criados por inteligência artificial, conhecida como Italian Brainrot, tem preocupado pais e educadores no Brasil devido aos seus efeitos no comportamento e no aprendizado de crianças e adolescentes. Popularizados no final de 2024, esses conteúdos mostram personagens com nomes pseudoitalianos em situações absurdas, como animais com características humanas ou objetos animados, e ganharam tração nas redes sociais, influenciando o dia a dia escolar. Especialistas alertam que o consumo excessivo pode comprometer a concentração, a criatividade e o pensamento crítico, enquanto escolas e famílias buscam estratégias para lidar com o fenômeno. A psicopedagoga Raquel Valença Costa, do colégio Santa Doroteia, destaca a necessidade de monitoramento para evitar impactos negativos.
A tendência, que mistura humor nonsense e narrativas desconexas, começou a chamar atenção no último trimestre de 2024, quando vídeos curtos se espalharam em plataformas como TikTok e YouTube. Apesar de terem perdido força no segundo semestre de 2025, os conteúdos continuam a circular, trazendo desafios para a educação.
- Principais características do Italian Brainrot:
- Vídeos curtos com personagens fictícios e nomes pseudoitalianos.
- Situações surreais, como animais com acessórios humanos.
- Uso de inteligência artificial para criar narrativas desconexas.
- Popularidade entre crianças de 8 a 14 anos.
Origem e disseminação do fenômeno
O Italian Brainrot surgiu como uma variação do conceito de Brainrot, termo que ganhou destaque em 2024 ao ser eleito palavra do ano pelo dicionário de Oxford, descrevendo o consumo de conteúdos digitais superficiais. Diferentemente do Brainrot tradicional, que inclui memes e vídeos humorísticos genéricos, o Italian Brainrot é marcado por narrativas criadas por inteligência artificial, com cenários que misturam elementos bizarros e humor absurdo. Esses vídeos, muitas vezes compartilhados em plataformas de vídeo curto, atraem crianças pela estética colorida e pelo ritmo acelerado.
A psicopedagoga Raquel Valença explica que o fenômeno ganhou força devido à sua capacidade de capturar a atenção de crianças e adolescentes, que muitas vezes imitam os comportamentos exibidos, como repetir frases sem sentido ou adotar gestos excêntricos. “É um conteúdo que parece inofensivo, mas pode reforçar estereótipos ou mensagens inadequadas, especialmente quando consumido sem mediação”, afirma.
No Brasil, a disseminação foi amplificada pelo acesso irrestrito de crianças a smartphones, com dados do IBGE indicando que 80% das crianças entre 10 e 13 anos possuem celular próprio. Isso facilita o consumo de vídeos fora do ambiente escolar, onde há menos controle.
Impactos no ambiente escolar
O Italian Brainrot tem chegado às salas de aula, com alunos reproduzindo frases como “tralalero tralala” ou imitando comportamentos dos vídeos, o que tem gerado preocupação entre professores. Segundo educadores, o fenômeno pode prejudicar a interação social e o foco durante as aulas, já que as crianças muitas vezes se distraem ao tentar recriar o conteúdo.
- Efeitos observados nas escolas:
- Diminuição da concentração em atividades pedagógicas.
- Aumento de comportamentos disruptivos, como repetição de frases nonsense.
- Dificuldade em engajar alunos em discussões críticas.
- Impacto na socialização, com imitação de estereótipos.
Raquel Valença destaca que, embora as escolas tenham restringido o uso de celulares, o impacto do Italian Brainrot ocorre fora do ambiente escolar, onde as crianças têm acesso livre às redes sociais. “A escola sozinha não consegue controlar o que os alunos consomem em casa. Por isso, a parceria com a família é essencial”, explica.
Papel da família na mediação
A responsabilidade de monitorar o consumo de conteúdos como o Italian Brainrot recai principalmente sobre os pais. Especialistas recomendam que as famílias estabeleçam limites de tempo de tela e promovam diálogos sobre os conteúdos acessados. Um estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sugere que crianças com menos de 12 anos não devem passar mais de duas horas diárias em dispositivos digitais, mas muitos ultrapassam esse limite.
- Dicas para pais:
- Definir horários específicos para o uso de celular.
- Acompanhar os vídeos assistidos e discutir seu conteúdo.
- Incentivar atividades offline, como leitura ou esportes.
- Usar aplicativos de controle parental para monitorar o acesso.
Além disso, a parceria entre pais e escolas pode incluir rodas de conversa em sala de aula, onde professores abordam os conteúdos consumidos e ajudam os alunos a desenvolverem senso crítico. “Quando a família compartilha o que os filhos estão assistindo, a escola pode trabalhar esses temas de forma educativa”, diz Valença.
Riscos para o desenvolvimento infantil
O consumo prolongado de vídeos Italian Brainrot pode trazer consequências além da sala de aula. Especialistas apontam que conteúdos desconexos e sem narrativa lógica dificultam o desenvolvimento de habilidades como resolução de problemas e criatividade estruturada. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) de 2024 revelou que crianças expostas a conteúdos digitais superficiais apresentaram 15% menos desempenho em testes de raciocínio lógico em comparação com aquelas com acesso a conteúdos educativos.
Além disso, os vídeos podem conter mensagens implícitas que reforçam preconceitos ou comportamentos inadequados, como piadas baseadas em estereótipos culturais. “Nem todo conteúdo é prejudicial, mas a falta de contexto pode confundir crianças que ainda não têm filtros críticos desenvolvidos”, alerta a psicopedagoga.
Estratégias para enfrentar o fenômeno
Para minimizar os impactos do Italian Brainrot, educadores e pais têm adotado medidas práticas. Algumas escolas, como o colégio Santa Doroteia, implementaram programas de educação midiática, ensinando alunos a analisar criticamente o conteúdo que consomem. Essas iniciativas incluem oficinas sobre o uso responsável das redes sociais e debates sobre a influência de vídeos virais.
- Ações práticas para escolas e famílias:
- Promover oficinas de educação midiática para crianças e adolescentes.
- Criar espaços de diálogo sobre o impacto de conteúdos digitais.
- Incentivar o consumo de conteúdos educativos, como documentários ou jogos interativos.
- Estabelecer regras claras para o uso de dispositivos em casa e na escola.
Outro ponto importante é o incentivo a atividades que estimulem a criatividade e o pensamento crítico, como leitura de livros, prática de esportes ou participação em projetos artísticos. Essas alternativas ajudam a equilibrar o tempo de tela e a reduzir a dependência de conteúdos como o Italian Brainrot.
Cenário atual e tendências futuras
Embora o Italian Brainrot tenha perdido força em 2025, especialistas acreditam que novas tendências semelhantes podem surgir, impulsionadas pelo avanço da inteligência artificial na criação de conteúdos virais. A facilidade de produzir vídeos com ferramentas de IA aumenta a oferta de materiais que atraem pelo inusitado, mas carecem de profundidade.
Pais e educadores devem estar atentos a essas mudanças, acompanhando as plataformas frequentadas pelas crianças. Dados da plataforma TikTok mostram que vídeos curtos com menos de 15 segundos representam 60% do consumo de usuários entre 8 e 14 anos, o que reforça a necessidade de monitoramento contínuo.
O envolvimento conjunto de escolas, famílias e até mesmo plataformas digitais é essencial para criar um ambiente mais seguro e educativo para as crianças. Iniciativas como a restrição de conteúdos inadequados por parte das plataformas e a promoção de vídeos educativos podem ajudar a mitigar os efeitos de tendências como o Italian Brainrot.