A diretoria do Corinthians, sob comando de Osmar Stabile, iniciou uma investigação interna para apurar contratos de vendas de jogadores após descobrir que o clube detém apenas 10% do lucro de uma futura transferência do zagueiro Murillo, e não 10% dos direitos econômicos, como se acreditava. A revelação, feita em setembro de 2025, gerou surpresa e motivou um pente-fino em negociações passadas, especialmente após a venda não divulgada de 30% dos direitos de Pedro e 20% de Robert Renan ao Zenit, da Rússia, em agosto de 2024. A operação, conduzida na gestão de Augusto Melo, envolveu 6,3 milhões de euros (R$ 38,7 milhões na época), mas parte do valor foi usada para quitar dívidas com a Elenko Sports. O caso expõe falhas de comunicação e controle financeiro, levantando preocupações sobre a transparência nas gestões anteriores.
A situação com Murillo, vendido ao Nottingham Forest em 2023 por 14 milhões de euros (R$ 75,1 milhões na época), com bônus de 2 milhões de euros, revelou um equívoco na comunicação oficial. A nota da época, sob a gestão de Duilio Monteiro Alves, informava que o clube detinha 80% dos direitos econômicos e teria direito a 10% de uma venda futura. No entanto, o percentual é sobre o lucro da transação, ou seja, a diferença entre o valor pago pelo Nottingham e o valor de uma futura negociação.
O zagueiro, formado nas categorias de base do Corinthians, tem se destacado na Premier League, com contrato até 2029, atraindo interesse de grandes clubes europeus. A possibilidade de uma transferência milionária reacendeu o alerta no clube, que esperava lucros maiores com o jogador.
- Contrato de Murillo: 10% do lucro de futura venda, não dos direitos econômicos.
- Venda de Pedro e Robert Renan: 6,3 milhões de euros pagos pelo Zenit em 2024.
- Dívida com Elenko Sports: Parte do valor foi usada para quitar débitos.
- Investigação interna: Diretoria busca outros casos de vendas não divulgadas.
Detalhes da confusão com Murillo
A venda de Murillo ao Nottingham Forest, em agosto de 2023, foi anunciada como uma operação de sucesso, mas a falta de clareza sobre os termos gerou desconfiança. O ex-presidente Duilio Monteiro Alves admitiu o erro na comunicação, explicando que o Corinthians detinha 80% dos direitos econômicos na época da venda e ficou com 10% do lucro de uma futura transferência, além de 500 mil euros adicionais caso o jogador atue em 65% dos jogos por três temporadas. O clube, no entanto, não informou isso de forma clara à época, o que causou a impressão de que o percentual era sobre o valor total da transação.
A atual diretoria, surpresa com a descoberta, acionou o Departamento Jurídico para revisar contratos antigos. A preocupação é que outros casos semelhantes possam ter ocorrido, comprometendo receitas futuras. A venda de Murillo, que disputou 27 partidas pelo time principal antes de deixar o Parque São Jorge, era vista como uma oportunidade de lucro significativo, especialmente com a valorização do zagueiro na Inglaterra.
O desempenho de Murillo, que se firmou como titular no Nottingham Forest, aumenta as chances de uma transferência para clubes de maior expressão. No entanto, com apenas 10% do lucro, o Corinthians receberá bem menos do que os R$ 70 milhões projetados caso o jogador fosse negociado por valores elevados, como os especulados em conversas com clubes europeus.
Venda de Pedro e Robert Renan: o estopim da crise
A investigação interna ganhou força após a revelação de que, em agosto de 2024, a gestão de Augusto Melo vendeu 30% dos direitos econômicos de Pedro e 20% de Robert Renan ao Zenit por 6,3 milhões de euros. A operação, que não foi comunicada ao Conselho de Orientação (Cori) nem ao executivo de futebol Fabinho Soldado, gerou indignação entre torcedores e membros da atual diretoria. O valor foi pago em parcelas: 4,5 milhões de euros por Pedro (divididos em três vezes) e 1,8 milhão de euros por Robert Renan (em duas parcelas).
- Pedro: 30% dos direitos por 4,5 milhões de euros (3 milhões à vista, 1,1 milhão até outubro de 2024, 400 mil até dezembro de 2024).
- Robert Renan: 20% dos direitos por 1,8 milhão de euros (1,1 milhão até novembro de 2024, 700 mil até dezembro de 2024).
- Uso do valor: Parte foi destinada a abater dívidas com a Elenko Sports.
- Falta de transparência: Negociação não foi informada aos órgãos internos do clube.
A venda de Pedro, em especial, causou revolta, já que o Corinthians monitorava uma possível transferência do meia-atacante do Zenit para o Al-Ittihad, da Arábia Saudita, estimada em 35 milhões de euros (R$ 222 milhões). Caso tivesse mantido os 30%, o clube poderia receber cerca de R$ 66,6 milhões. Agora, só terá direito a 2,5% pelo mecanismo de solidariedade da Fifa, equivalente a R$ 5,5 milhões.
Gestão de dívidas e a Elenko Sports
A Elenko Sports, empresa que gerencia as carreiras de Pedro, Robert Renan, Ivan e, até recentemente, Gustavo Mantuan, esteve no centro das negociações. A venda dos direitos de Pedro e Robert Renan foi usada para quitar parte de uma dívida de R$ 10,9 milhões do Corinthians com a empresa, conforme balanço financeiro de 2024. A Elenko confirmou que não houve pagamento de intermediação na operação com o Zenit, mas o clube ainda deve R$ 6,4 milhões à empresa.
A relação com a Elenko tem sido um ponto sensível. Os jogadores representados pela empresa foram envolvidos na operação de 2023 que trouxe Yuri Alberto ao Corinthians, em uma troca que incluiu Pedro, Robert Renan, Ivan e Gustavo Mantuan. A falta de clareza nas negociações e o uso de valores para abater dívidas levantaram questionamentos sobre a gestão financeira do clube.
A atual diretoria, ciente do impacto financeiro, busca revisar todas as transações envolvendo a Elenko e outros agentes para evitar novas perdas. A operação de Yuri Alberto, por exemplo, ainda gera pendências, com cerca de R$ 6,5 milhões usados na venda de Pedro para quitar parte do débito com o Zenit.
Pente-fino nos contratos
A investigação interna, iniciada em setembro de 2025, tem como objetivo mapear todas as vendas de direitos econômicos realizadas nas gestões anteriores. A diretoria teme que outros casos, como o de Murillo, Pedro e Robert Renan, tenham passado despercebidos. O desaparecimento de documentos importantes, relatado em julho de 2025, com registro de boletim de ocorrência, dificulta o processo, mas o Departamento Jurídico foi acionado para garantir transparência.
- Objetivo: Identificar vendas não divulgadas ou mal comunicadas.
- Foco: Contratos de jogadores das categorias de base negociados com clubes estrangeiros.
- Desafios: Falta de registros e comunicação interna deficiente nas gestões passadas.
- Prioridade: Proteger receitas futuras do clube com jovens talentos.
A diretoria também monitora outros jogadores, como Robert Renan, que ainda rende 11% dos direitos econômicos ao Corinthians. O zagueiro, atualmente no Vasco da Gama, é visto como uma possível fonte de receita, mas a venda de 20% de seus direitos ao Zenit reduziu o potencial de lucro.
Reação da torcida e pressão por transparência
A falta de divulgação das negociações de Pedro e Robert Renan gerou críticas entre os torcedores, que cobram maior transparência da diretoria. A expectativa de lucros altos com jogadores formados na base, como Murillo e Pedro, era um alento em meio às dificuldades financeiras do clube, que enfrenta dívidas e até um transfer ban por pendências com Memphis Depay.
As redes sociais foram tomadas por mensagens de indignação, com torcedores questionando a condução das negociações e a ausência de comunicação oficial. A atual gestão, sob Osmar Stabile, prometeu esclarecer os casos e evitar que situações semelhantes se repitam, mas a pressão por resultados imediatos é grande.
A investigação em curso pode revelar novos casos, mas também expõe a necessidade de um controle mais rigoroso sobre as finanças e os contratos. O Corinthians, conhecido por revelar talentos como Murillo, Pedro e Robert Renan, depende dessas negociações para equilibrar as contas, mas precisa garantir que os acordos sejam claros e vantajosos.
Futuro financeiro do Corinthians
A venda de jovens talentos tem sido uma estratégia recorrente do Corinthians para aliviar as finanças, mas os erros de comunicação e a falta de transparência comprometem os resultados. A diretoria atual trabalha para recuperar a confiança dos torcedores e assegurar que futuras negociações sejam conduzidas com clareza.
A situação de Murillo, embora menos grave do que a de Pedro, serve como alerta. Com apenas 10% do lucro de uma futura venda, o clube precisa maximizar outras fontes de receita, como os 11% de Robert Renan e eventuais bônus contratuais. A revisão dos contratos é vista como um passo essencial para proteger o patrimônio do clube e evitar perdas milionárias.
A expectativa é que a investigação traga respostas rápidas, mas o impacto financeiro das decisões passadas ainda será sentido por algum tempo. O Corinthians, enquanto isso, segue monitorando o mercado europeu, onde jogadores como Murillo podem render valores expressivos, ainda que em percentuais reduzidos.