Aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) estão enfrentando uma nova onda de fraudes que coloca em risco seus benefícios. Criminosos utilizam procurações falsas para se passar por representantes legais, acessando contas Gov.br e movimentando valores de aposentadorias e pensões de forma ilícita. O golpe, conhecido como “falso curador”, explora vulnerabilidades na plataforma digital do governo, permitindo que fraudadores alterem dados e realizem transferências bancárias. A situação exige atenção redobrada dos beneficiários, que podem perder quantias significativas sem perceber.
O esquema funciona de maneira sofisticada. Os golpistas falsificam documentos para registrar procurações fraudulentas, assumindo o controle da conta Gov.br da vítima. Com isso, conseguem acessar a plataforma Meu INSS, onde alteram informações pessoais, desviam recursos e, em alguns casos, declaram a vítima como mentalmente incapaz para justificar a representação. O problema tem gerado preocupação entre especialistas, que alertam para a necessidade de maior segurança nos sistemas digitais do governo.
- O que está em jogo: os criminosos acessam benefícios diretamente das contas dos segurados.
- Como agem: usam procurações falsas para se passar por curadores legais.
- Impacto: aposentados podem perder valores acumulados sem chance de recuperação imediata.
- Solução inicial: denunciar rapidamente qualquer movimentação suspeita no Fala.BR.
As autoridades e o próprio INSS já reconhecem o problema, mas a fragilidade na proteção de dados ainda preocupa. A seguir, detalhamos como o golpe funciona, como se proteger e os passos para denunciar.
Mecanismo do golpe e suas consequências
Os fraudadores começam obtendo dados pessoais dos beneficiários, muitas vezes por meio de vazamentos no mercado ilegal. Com essas informações, criam procurações falsas que são registradas na plataforma Gov.br, transferindo a representação legal para o golpista. Esse documento fraudulento permite acesso total ao Meu INSS, onde é possível alterar cadastros, transferir valores e até mudar a conta bancária vinculada ao benefício.
A advogada Maíra Veleda Javarini, especialista em direito previdenciário, explica que o sucesso do golpe está na facilidade de manipular sistemas digitais. “Os criminosos exploram brechas na validação de documentos. Muitas vezes, as vítimas só percebem o problema quando o dinheiro já foi transferido”, diz. A falta de protocolos mais rigorosos na autenticação de procurações agrava a situação.
O golpe não afeta apenas as finanças. A invasão da conta Gov.br, que integra serviços como Carteira de Trabalho Digital e Caixa Tem, pode expor outros dados sensíveis. Isso abre portas para fraudes adicionais, como empréstimos indevidos ou alterações em registros oficiais.
- Origem dos dados: vazamentos em bancos de dados ou vendas no mercado ilegal.
- Acesso indevido: golpistas usam a conta Gov.br para controlar serviços federais.
- Prejuízo médio: transferências podem esvaziar contas em poucos minutos.

Fragilidades na segurança digital
A plataforma Gov.br, que centraliza mais de 4,8 mil serviços do governo federal, é um ponto crítico para a segurança dos cidadãos. Criada para facilitar o acesso a serviços públicos, ela concentra informações sensíveis, como dados fiscais, trabalhistas e previdenciários. O advogado Rômulo Saraiva destaca que a falta de verificações robustas no cadastro de procurações facilita o trabalho dos criminosos.
“As contas Gov.br são como chaves mestras. Uma vez comprometidas, permitem acesso a uma infinidade de serviços, aumentando o risco de fraudes sistêmicas”, explica Saraiva. Ele sugere que o governo invista em autenticação multifator e verificações presenciais para casos de representação legal.
O INSS, por sua vez, afirma que o cadastramento de representantes legais é um processo oficial, exigindo documentos de identificação e termos comprobatórios. No entanto, a ausência de validação rigorosa permite que documentos falsos sejam aceitos. O órgão recomenda que beneficiários monitorem regularmente suas contas no Meu INSS para identificar movimentações estranhas.
Como identificar sinais do golpe
A prevenção é a melhor arma contra o golpe do falso curador. Aposentados e pensionistas devem ficar atentos a sinais de atividades suspeitas em suas contas. Pequenas alterações, como mudanças no endereço ou na conta bancária vinculada, podem indicar a ação de golpistas.
- Acesso não autorizado: notificações de login em horários ou dispositivos desconhecidos.
- Alterações de dados: mudanças no cadastro do Meu INSS sem consentimento.
- Movimentações financeiras: saques ou transferências não reconhecidas.
- Contato suspeito: ligações ou mensagens de supostos representantes do INSS.
- Documentos falsos: procurações ou termos de curatela que o beneficiário não assinou.
Especialistas recomendam que os segurados evitem compartilhar informações pessoais por telefone, e-mail ou mensagens. O INSS nunca solicita senhas ou dados bancários por esses meios. Além disso, verificar regularmente o extrato do benefício no Meu INSS pode ajudar a identificar problemas rapidamente.
Passos para denunciar a fraude
Caso o beneficiário perceba qualquer irregularidade, é fundamental agir rápido para minimizar prejuízos. O INSS orienta que denúncias sejam feitas pela plataforma Fala.BR, que permite o registro de queixas de forma anônima ou identificada. O processo é simples, mas exige atenção aos detalhes para garantir que a denúncia seja bem-sucedida.
O prazo para resposta é de até 30 dias, podendo ser estendido por mais 30. Durante esse período, o INSS apura a denúncia e pode suspender movimentações suspeitas. Abaixo, os passos para registrar a queixa:
- Acesse o site Fala.BR e faça login com sua conta Gov.br ou crie uma nova.
- Escolha a opção “Denúncia” e selecione “Gov.br” como tipo de denúncia.
- Informe que o problema envolve o INSS, descrevendo o ocorrido com clareza.
- Anexe documentos, como extratos bancários ou prints de movimentações suspeitas.
- Guarde o número do protocolo para acompanhar o andamento da denúncia.
Além do Fala.BR, as vítimas podem procurar a Ouvidoria do INSS pelo telefone 135 ou registrar um boletim de ocorrência em uma delegacia. Essas ações ajudam a reforçar a denúncia e aumentam as chances de recuperação dos valores roubados.
Medidas de proteção para aposentados
Proteger-se do golpe do falso curador exige vigilância constante. Especialistas sugerem a adoção de medidas preventivas para evitar que os dados pessoais sejam comprometidos. A primeira delas é fortalecer a segurança da conta Gov.br, utilizando senhas complexas e ativando a autenticação em duas etapas.
Outra recomendação é evitar clicar em links recebidos por e-mail ou mensagens de texto, especialmente aqueles que solicitam login na plataforma Meu INSS. Criminosos frequentemente usam técnicas de phishing para roubar senhas e acessar contas.
- Senhas fortes: use combinações com letras, números e caracteres especiais.
- Autenticação multifator: ative verificações por e-mail ou aplicativo.
- Monitoramento regular: cheque o Meu INSS semanalmente para detectar alterações.
- Desconfie de contatos: o INSS não solicita dados por telefone ou WhatsApp.
O INSS também recomenda que beneficiários com dificuldade de acesso digital busquem ajuda em agências físicas, onde podem confirmar a regularidade de seus cadastros. A orientação é nunca delegar a terceiros o gerenciamento da conta Gov.br sem supervisão.
O papel das instituições na prevenção
A responsabilidade de combater o golpe não recai apenas sobre os beneficiários. Bancos, instituições financeiras e o próprio INSS têm um papel crucial na prevenção. A Febraban, entidade que representa os bancos, já anunciou medidas para aumentar a segurança em transações interbancárias, como a exigência de notificação prévia para débitos automáticos.
O INSS, por sua vez, afirma estar revisando seus processos de validação de procurações. A implementação de tecnologias como reconhecimento facial e biometria pode ser uma solução no futuro, mas ainda não está disponível em larga escala. Enquanto isso, a conscientização dos beneficiários permanece essencial.
A advogada Javarini reforça que a colaboração entre governo e bancos é fundamental. “Sem uma integração robusta de sistemas de segurança, os golpistas continuarão explorando brechas. É preciso agir antes que mais pessoas sejam prejudicadas”, alerta.