Rodrigo Paz, senador do Partido Democrata Cristão, foi eleito presidente da Bolívia neste domingo (19), em La Paz, ao obter 54,5% dos votos contra 45,5% do rival Jorge “Tuto” Quiroga, com 97% das urnas apuradas pelo Tribunal Supremo Eleitoral. A vitória ocorre em meio à crise econômica que assola o país, com inflação acumulada de 18,33% até setembro e escassez de combustíveis, impulsionando o desejo por mudanças após duas décadas de governos de esquerda liderados pelo Movimento ao Socialismo (MAS). O segundo turno inédito na história boliviana reflete a fragmentação política e o racha interno no MAS entre Evo Morales e o atual presidente Luis Arce.
Paz, de 58 anos, agradeceu ao eleitorado em discurso transmitido de Tarija, sua base eleitoral, e destacou a transparência do processo eleitoral. Ele recebeu mensagens de líderes regionais, incluindo os presidentes do Paraguai, Uruguai e Peru, além de felicitações dos Estados Unidos.
A eleição mobilizou 7,9 milhões de eleitores em nove departamentos, com abstenção de cerca de 15%, segundo dados preliminares do TSE. O PDC de Paz garantiu 49 deputados e 13 senadores na legislatura, o maior bloco, mas sem maioria absoluta.
Discurso de posse revela prioridades iniciais
O presidente eleito Rodrigo Paz enfatizou valores como “Deus, pátria e família” em seu primeiro pronunciamento após a vitória. Ele prometeu diálogo com o Parlamento, setor privado e organizações nacionais para abrir a Bolívia ao mundo.
Paz indicou recuperação gradual da presença internacional do país, com foco em parcerias pragmáticas. Seu vice, Edman Lara, ex-capitão das Forças Armadas, reforçou a necessidade de soluções urgentes para a crise.
Perfil do novo mandatário
Rodrigo Paz nasceu em 1967 na Espanha, durante o exílio de sua família sob ditadura militar. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, estudou economia nos Estados Unidos e atuou como prefeito de Tarija antes de se tornar senador.
Sua trajetória inclui denúncias de corrupção em instituições de segurança. Paz evitou rótulos ideológicos durante a campanha, atraindo eleitores descontentes com o MAS por meio de propostas moderadas.
Ele captou apoio de setores indígenas e populares, que tradicionalmente votavam na esquerda. Críticos apontam desafios fiscais, como rombo orçamentário estimado em bilhões de dólares.
Plano econômico visa formalização ampla
A plataforma de Paz centra-se no “capitalismo para todos”, com incentivos ao setor privado e manutenção de programas sociais para camadas pobres. Ele propõe corte de gastos supérfluos em até US$ 1,5 bilhão e descentralização administrativa.
- Formalização da economia informal, que representa 85% da atividade no país;
- Redução de barreiras a importações para combater escassez de produtos;
- Expansão de crédito acessível a pequenos empreendedores.
Essas medidas buscam neutralizar polarização e gerar oportunidades. Analistas observam que o ajuste fiscal inevitável pode ser gradual, evitando dependência de credores internacionais como o FMI.
Paz prometeu investimentos em infraestrutura conjunta com vizinhos. A inflação de 23% nos últimos 12 meses pressiona o planejamento inicial.
Medidas para segurança e defesa
Paz planeja modernizar as Forças Armadas com profissionalização e tecnologias digitais avançadas. O foco inclui fortalecimento do sistema judicial contra crime organizado.
- Implantação de sistemas de vigilância eletrônica em fronteiras;
- Treinamento conjunto com aliados regionais para combate ao narcotráfico;
- Reforma no judiciário para agilizar processos e reduzir impunidade.
Essas ações visam instituições independentes como base para o progresso. Lara, vice-presidente, destacou denúncias passadas de corrupção nas forças de segurança.
O país registra escalada no narcotráfico em cidades como La Paz e Cochabamba. Paz evitou discursos combativos, priorizando leis aplicáveis a todos.
Relações externas sob nova ótica
O governo Paz busca aproximação pragmática com os Estados Unidos, sem alinhamentos ideológicos rígidos. Ele mencionou cooperação para suprimento de hidrocarbonetos a partir de novembro.
Parcerias com o Brasil incluem manutenção no Mercosul e Brics, com projetos de infraestrutura. Paz vê o país vizinho como parceiro estratégico principal.
Mensagens de apoio vieram do Panamá, Equador e Peru. A diplomacia enfatizará soluções econômicas concretas, como acesso a mercados globais.
Transição encerra ciclo do MAS
A vitória de Paz sela o fim de 20 anos do MAS, iniciado por Evo Morales em 2006 com nacionalização do gás. A bonança inicial deu lugar a declínio na produção de recursos, secando divisas.
Luis Arce, atual presidente, prometeu transição ordenada. Morales, impedido de concorrer, votou mas pregou voto nulo, criticando a ausência de representação indígena.
O racha no MAS dividiu o partido, levando à sua pior performance eleitoral. Eleitores citaram falta de dólares e combustíveis como motivos para a mudança.
Rodrigo Paz assume em janeiro de 2026, com posse marcada para 22 de janeiro em La Paz.