Cerca de 30 famílias abandonaram suas casas no bairro Jacarezal, em Pacatuba, na Região Metropolitana de Fortaleza, após ordens de uma facção criminosa. O esvaziamento ocorreu em setembro de 2025, desencadeado por uma disputa territorial entre grupos rivais, que culminou no assassinato de um morador por suposta desobediência. A área, antes habitada por famílias e pequenos comércios, agora permanece trancada e sem habitantes, com móveis deixados para trás nas residências.
Autoridades locais confirmam que o Comando Vermelho assumiu o controle da localidade, antes dominada pelos Guardiões do Estado, forçando a saída rápida dos moradores para evitar confrontos. A Polícia Civil investiga o homicídio registrado na madrugada de 22 de setembro, enquanto a Polícia Militar intensificou patrulhas na região.
Disputa territorial acelera abandono
A escalada de conflitos no Jacarezal começou com pichações de símbolos do Comando Vermelho sobrepostas às dos Guardiões do Estado em meados de setembro.
No dia 15, queima de fogos celebrou a tomada de territórios pela facção carioca em comunidades próximas, como o Lagamar em Fortaleza.
Em 16 de setembro, os Guardiões do Estado anunciaram aliança com o Terceiro Comando Puro, rival histórico do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, o que intensificou tiroteios na área.

Relatos de moradores vizinhos
Moradores das proximidades descrevem restrições diárias impostas pelas facções, como proibições de circulação após as 21h.
- Um vizinho relatou tentativas frustradas de resgate de pertences, como geladeiras, devido ao risco de confrontos.
- Tiroteios ocorreram em plena luz do dia nas semanas anteriores, afetando a frequência escolar de crianças na região.
- A polícia bloqueou o acesso à vila abandonada, impedindo entradas mesmo para buscas de itens pessoais.
Esses depoimentos, dados sob anonimato, destacam o impacto imediato nas rotinas locais.
Estratégia geográfica atrai conflitos
A localização do Jacarezal, próxima à CE-060, facilita o acesso a rotas de distribuição de drogas para diversas cidades do Ceará.
Essa posição estratégica explica o interesse das facções em dominar a área, que antes servia como ponto de venda controlado pelos Guardiões do Estado.
Estabelecimentos como barbearias e igrejas evangélicas, comuns no local até agosto, agora acumulam poeira em calçadas vazias, com animais domésticos soltos.
A proximidade com um rio e matagal ao redor isola ainda mais a vila, complicando ações de monitoramento contínuo.
Respostas das autoridades
A Polícia Militar aumentou o efetivo de patrulhas noturnas no Conjunto Jereissati, onde fica o Jacarezal, desde o incidente de setembro.
A Polícia Civil abriu inquérito para apurar as ameaças e o homicídio, com foco em identificar mandantes ligados ao Comando Vermelho.
O Ministério Público monitora o caso, cobrando relatórios semanais sobre avanços nas investigações.
A Prefeitura de Pacatuba afirma que reforçará iluminação e saneamento na região, apesar de não ter recebido denúncias formais das famílias expulsas.
Histórico de ações semelhantes
Desde 2015, o Ceará registra expulsões em massa por facções, com o surgimento dos Guardiões do Estado intensificando disputas territoriais.
Em 2017, o estado contabilizou 5.133 homicídios, recorde ligado a esses conflitos; em 2018, foram 4.518 casos.
Dados de 2018 da Defensoria Pública indicam 133 famílias afetadas, totalizando mais de 500 pessoas; números atuais permanecem sigilosos.
- Incidentes recentes em 2025 incluem bairros Vicente Pinzón e Papicu, em Fortaleza.
- Em Morada Nova, a localidade de Uiraponga sofreu deslocamento forçado similar.
- Relatórios apontam mais de 40 bairros em Fortaleza com registros de expulsões.
Outros municípios, como Maracanaú com 16 casos e Caucaia com 15, enfrentam o mesmo padrão de dominação.
Condições atuais do local
O g1 visitou a vila em uma manhã de novembro e encontrou portas trancadas com cadeados, itens pessoais espalhados e pichações parcialmente cobertas por tinta branca.
Uma residência no fundo exibe placa de venda, ao lado de símbolos sobrepostos das facções, indicando resquícios da disputa.
Nenhuma equipe policial apareceu durante a visita, embora moradores afirmem vigilância noturna esporádica.
A ausência de manutenção acumula sujeira nas ruas internas, transformando o espaço em área isolada.