Polícia Civil

Operação em Goiás, RJ e mais 4 estados desmantela produção de álcool adulterado por metanol

Bebida alcoólica
Bebida alcoólica - Igor Normann/ iStock

Polícia Civil de São Paulo deflagra nesta terça-feira (11) a segunda fase da Operação Poison Source, que visa desarticular uma rede criminosa dedicada à produção e distribuição de bebidas alcoólicas contaminadas por metanol. A ação ocorre em seis estados brasileiros e resulta da análise de provas obtidas na prisão de um fornecedor chave, Ilson de Sales do Amor Divino, identificado como elo central no fornecimento de insumos para falsificações.

Coordenada pela 1ª Delegacia de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos (Divecar/Deic), a operação mobiliza agentes para cumprir 21 mandados de busca e apreensão, com foco em interromper a cadeia de produção e circulação de destilados adulterados.

Os alvos incluem endereços em Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, Santa Catarina e Bahia, ampliando o escopo da investigação inicial que se concentrou em São Paulo.

  • Principais objetivos da fase atual:
    • Mapear núcleos criminosos envolvidos na adulteração.
    • Apreender equipamentos, rótulos falsos e substâncias químicas.
    • Coletar documentos e dispositivos eletrônicos para rastrear transações.

Expansão da rede criminosa

Investigadores identificam que a organização opera com divisão de tarefas, desde a aquisição de etanol industrial até o envasamento em garrafas falsificadas. Essa estrutura permite a distribuição para bares e depósitos em múltiplos estados, elevando o risco de intoxicações em massa.

Desde o início do surto em setembro, o Ministério da Saúde registra mais de 200 notificações nacionais de casos ligados a metanol, com ênfase em destilados como vodca e uísque. Em São Paulo, epicentro da crise, ao menos oito óbitos foram confirmados, e testes laboratoriais apontam concentrações tóxicas acima de 10% em amostras apreendidas.

Papel central do fornecedor preso

A prisão de Ilson de Sales do Amor Divino, ocorrida no início de outubro, revelou transferências financeiras e contatos com produtores em pelo menos quatro estados. Registros bancários indicam movimentações acima de R$ 500 mil em três meses, direcionadas a compras de tampas, selos e recipientes.

Essa detenção expôs fornecedores secundários que misturam metanol, substância barata e volátil, para simular álcool etílico de maior custo. Autoridades destacam que o grupo evita rotas de fiscalização, utilizando transportes irregulares para evitar pedágios e postos.

A Divecar/Deic integra dados de inteligência com vigilância sanitária, confirmando que 30% das apreensões iniciais continham traços de metanol acima do limite legal de 0,1%.

Apreensões e prisões iniciais

Na primeira fase, em outubro, agentes apreenderam mais de 5 mil garrafas e maquinário industrial em oito cidades paulistas, resultando em seis detenções por falsificação. Testes da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) detectaram adulterantes em 70% dos itens, embora nem todos com metanol puro.

Polícia relata que depósitos clandestinos, como os localizados em Santo André e São José dos Campos, funcionavam 24 horas para atender demanda de eventos sociais. Uma prisão adicional ocorreu por porte ilegal de arma durante as buscas.

  • Itens confiscados na etapa anterior:
    • 2.500 litros de líquido suspeito.
    • 10 mil rótulos falsos de marcas conhecidas.
    • Veículos usados para distribuição interestadual.

Efeitos tóxicos do metanol no organismo

O metanol, conhecido como álcool metílico, é metabolizado no fígado em formaldeído e ácido fórmico, substâncias que danificam nervos ópticos e tecidos renais em horas. Sintomas iniciais incluem náuseas e visão borrada, evoluindo para coma em 24 a 48 horas sem intervenção.

Dados do Conselho Federal de Química indicam que doses acima de 10 ml podem causar cegueira irreversível, enquanto 30 ml levam à morte. Hospitais universitários estocam etanol intravenoso como antídoto, neutralizando o metabolito tóxico, mas o sucesso depende de diagnóstico precoce.

Em 2025, o surto nacional elevou em 40% as internações por intoxicações alcoólicas atípicas, com Pernambuco e Bahia reportando clusters isolados.

Medidas preventivas em curso

Governo federal instalou uma sala de situação em outubro para monitorar notificações via Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), exigindo relatórios diários de estados. A Anvisa ampliou fiscalizações em importadores de químicos, bloqueando lotes suspeitos de origem irregular.

No varejo, estabelecimentos agora verificam selos holográficos e notas fiscais, com suspensão imediata de cadastros fiscais para infratores. Consumidores recebem orientação para priorizar compras em redes certificadas, reduzindo riscos em 25% segundo estimativas preliminares.

Autoridades planejam rodadas de testes rápidos em feiras e eventos, usando kits da Unesp que detectam metanol em 15 minutos por R$ 10.

Fiscalizações interestaduais ampliadas

A extensão para seis estados reflete a mobilidade da rede, com rotas via rodovias federais ligando o Sudeste ao Nordeste. Em Goiás, buscas focam em galpões próximos a usinas sucroalcooleiras, fontes potenciais de desvio de etanol.

No Rio de Janeiro, agentes priorizam depósitos no interior, onde 15% das amostras de 2024 já apresentavam irregularidades. Paraná e Santa Catarina contribuem com inteligência local, identificando 12 pontos de venda ligados à cadeia principal.

Pernambuco registra o maior número de casos fora de SP, com cinco confirmações em Recife, impulsionando cooperação via Ministério da Justiça. Bahia fecha o cerco em Salvador, com mandados em bairros portuários suspeitos de importação ilegal.

Essa coordenação nacional visa mapear 80% da rede até dezembro, integrando dados da Receita Federal sobre sonegação estimada em R$ 85 bilhões anuais no setor de bebidas.

To Top