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Satélites em órbita baixa ameaçam 96% das imagens de telescópios como o SPHEREx, alerta estudo da Nasa

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Nasa / The Bold Bureau / Shutterstock.com

Um estudo abrangente liderado pela Nasa e publicado na revista científica Nature acende um alerta para a comunidade astronômica global. A crescente constelação de satélites de comunicação em órbita baixa da Terra (LEO) está progressivamente contaminando as imagens capturadas por telescópios espaciais, com projeções que indicam um futuro crítico para missões de observação. O fenômeno ocorre devido ao reflexo da luz solar nos painéis e corpos dos satélites, que criam rastros luminosos brilhantes durante as longas exposições necessárias para captar objetos celestes distantes e de pouco brilho.

A análise, coordenada pelo cientista Alejandro Borlaff, utilizou um vasto arquivo de dados do telescópio espacial Hubble para quantificar o problema e simulou os impactos em futuras missões, como o SPHEREx da própria Nasa, o ARRAKIHS da Agência Espacial Europeia (ESA) e o chinês Xuntian. Os resultados apontam para uma contaminação que pode chegar a 96% das imagens em alguns desses novos observatórios, comprometendo severamente a capacidade de realizar descobertas científicas e monitorar o cosmos com precisão.

A pesquisa destaca uma transição preocupante: os telescópios foram colocados em órbita para escapar das distorções da atmosfera terrestre, mas agora enfrentam uma nova forma de poluição luminosa, desta vez gerada artificialmente no próprio espaço. O rápido aumento no número de satélites, impulsionado por redes de internet globais, representa um desafio sem precedentes para a astronomia, exigindo soluções urgentes para equilibrar o avanço tecnológico e a preservação da janela para o universo.

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Nasa – Alexander Ruszczynski/shutterstock.com

O histórico de contaminação e a escalada do problema

Para entender a evolução do problema, os pesquisadores examinaram mais de mil imagens arquivadas do telescópio Hubble, capturadas entre 2002 e 2021. As exposições, com uma duração média de 11 minutos, revelaram que 2,7% de todas as imagens continham ao menos uma trilha de satélite. Esse índice, no entanto, mascara uma aceleração recente: ao analisar apenas o período entre 2018 e 2021, a taxa de contaminação saltou para 4,3%, um reflexo direto do aumento exponencial de lançamentos espaciais.

Esse crescimento é alimentado principalmente pela redução nos custos de lançamento, viabilizada por tecnologias como foguetes reutilizáveis. Em 2019, a órbita terrestre abrigava cerca de 5 mil satélites ativos. Atualmente, segundo dados da Agência Espacial Europeia, esse número já ultrapassa a marca de 15 mil. As projeções são ainda mais alarmantes, com estimativas que apontam para até 560 mil satélites operacionais até o final da década de 2030, caso todos os planos de lançamento submetidos a agências reguladoras sejam aprovados.

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Projeções críticas para telescópios em órbita baixa

Os telescópios que operam em altitudes entre 450 e 800 quilômetros, como o Hubble, estão na mesma faixa orbital utilizada pela maioria das novas constelações de comunicação, tornando-os extremamente vulneráveis. O estudo projeta que, com os planos de lançamento atuais, cerca de 39,6% de todas as imagens do Hubble serão afetadas por interferência.

Para o recém-lançado SPHEREx da Nasa, cujo objetivo é estudar a história do universo, o impacto estimado é devastador, atingindo 96% de suas exposições, com uma média de 5,64 rastros de satélite por imagem individual.

O cenário é igualmente sombrio para o ARRAKIHS, um projeto proposto pela ESA para estudar remanescentes de galáxias. Simulações indicam que ele poderia registrar até 69 satélites por exposição, também com um índice de contaminação de 96%.

O telescópio chinês Xuntian, com lançamento previsto para 450 quilômetros de altitude, enfrentaria a situação mais extrema, com uma previsão de 92 satélites por imagem e 96% de todo o seu acervo de dados afetado. Esses números são resultado direto do campo de visão amplo e dos longos tempos de exposição desses instrumentos avançados.

Impactos diretos nas missões científicas

A contaminação por trilhas de satélites não é apenas um inconveniente estético; ela representa uma perda real de dados científicos valiosos. Esses rastros brilhantes podem saturar os sensores dos telescópios, obscurecendo ou sendo confundidos com objetos cósmicos tênues, como asteroides distantes ou exoplanetas em trânsito. A detecção de asteroides potencialmente perigosos para a Terra, uma das funções vitais da astronomia moderna, torna-se significativamente mais complexa e menos confiável. Da mesma forma, a busca por novos mundos e a análise de suas atmosferas são prejudicadas, pois as assinaturas de luz que os cientistas procuram são sutis e podem ser facilmente mascaradas pela poluição luminosa orbital. Em contraste, o Telescópio Espacial James Webb, posicionado a 1,5 milhão de quilômetros da Terra em um ponto orbital estável, está imune a esse problema, o que reforça como a órbita baixa se tornou um ambiente desafiador para a ciência.

Estratégias para minimizar as interferências

Diante do cenário alarmante, agências espaciais e empresas do setor discutem ativamente estratégias para mitigar os impactos. Uma das medidas operacionais propostas envolve o ajuste das órbitas dos satélites de comunicação para altitudes abaixo de 450 quilômetros, fora da faixa dos principais telescópios. Contudo, essa solução apresenta seus próprios desafios, pois órbitas mais baixas podem aumentar as emissões de óxidos de alumínio durante a reentrada na atmosfera, com potenciais efeitos negativos sobre a camada de ozônio.

Outra frente de atuação está no próprio design dos satélites. Estão sendo desenvolvidas e testadas superfícies com menor refletividade e revestimentos escuros que visam minimizar o brilho refletido em direção à Terra e aos observatórios espaciais. A colaboração internacional também é vista como fundamental, com a criação de protocolos e o compartilhamento de dados de trajetória entre a Nasa, a ESA e os programas espaciais chineses para permitir um planejamento mais eficaz das observações.

Avanços em algoritmos de correção de dados

Além das medidas preventivas, um grande esforço está sendo direcionado para o desenvolvimento de tecnologias de correção de imagem. Modelos baseados em inteligência artificial e aprendizado de máquina estão sendo treinados para identificar e remover digitalmente as trilhas de satélites das imagens após a captura. Essas técnicas de processamento pós-exposição já demonstram uma eficácia considerável, sendo capazes de “limpar” até 80% das contaminações nos casos atuais, com base em testes realizados em imagens históricas do Hubble.

Para as missões futuras, a ideia é integrar sensores preditivos que possam antecipar a passagem de um satélite pelo campo de visão do telescópio, permitindo que a exposição seja pausada momentaneamente para evitar a contaminação. Embora esses métodos exijam altos recursos computacionais e não substituam completamente a necessidade de dados puros, eles representam uma ferramenta crucial para preservar a integridade das observações científicas em um espaço cada vez mais congestionado.

O futuro da observação astronômica

A proliferação de satélites marca o início de uma nova era de exploração industrial da órbita baixa, transformando uma região antes silenciosa em uma infraestrutura movimentada. O estudo reforça a necessidade de um equilíbrio cuidadoso entre o desenvolvimento de tecnologias de comunicação e a proteção da pesquisa astronômica.

Colaborações globais tornam-se essenciais

A Nasa já está coordenando esforços com a ESA e autoridades chinesas para compartilhar dados orbitais precisos, uma medida fundamental para prever e evitar conflitos de observação. Fóruns anuais sobre o uso sustentável do espaço estão sendo estabelecidos para que astrônomos, operadores de satélites e agências reguladoras possam desenvolver regulamentações e boas práticas em conjunto, garantindo que o céu noturno, tanto visto da Terra quanto do espaço, continue sendo uma janela para a descoberta.

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