Um novo estudo liderado pela Nasa e detalhado na revista científica Nature aponta para uma ameaça crescente à observação do cosmos: a proliferação de satélites de comunicação em órbita baixa da Terra (LEO). A pesquisa adverte que essa nova forma de poluição luminosa, gerada artificialmente no espaço, pode comprometer severamente a capacidade de telescópios espaciais realizarem descobertas científicas, com projeções indicando um futuro desafiador para a astronomia.
O fenômeno ocorre quando a luz solar reflete nos painéis e na estrutura dos milhares de satélites que orbitam o planeta. Esses reflexos criam rastros brilhantes e lineares que atravessam as imagens capturadas pelos telescópios durante longos períodos de exposição, que são essenciais para registrar a luz tênue de galáxias distantes, estrelas e outros objetos celestes.
A análise simulou os impactos dessa interferência em diversas missões, tanto atuais quanto futuras, revelando um cenário preocupante para alguns dos observatórios mais avançados. Os telescópios mais afetados incluem:

– O SPHEREx da Nasa, projetado para mapear o universo em infravermelho.
– O ARRAKIHS, uma missão proposta pela Agência Espacial Europeia (ESA).
– O Xuntian, o futuro telescópio espacial da China.
Curiosamente, os telescópios foram originalmente posicionados no espaço para evitar as distorções causadas pela atmosfera terrestre. Agora, enfrentam um obstáculo criado pela própria humanidade, transformando a órbita baixa em um ambiente cada vez mais hostil para a ciência. O rápido crescimento das redes de internet via satélite impõe um desafio sem precedentes, exigindo um equilíbrio entre inovação tecnológica e a preservação de nossa janela para o universo.
Uma nova forma de poluição no espaço
Para dimensionar a evolução do problema, a equipe de cientistas, coordenada por Alejandro Borlaff, analisou um vasto arquivo com mais de mil imagens capturadas pelo Telescópio Espacial Hubble entre os anos de 2002 e 2021. As fotografias, com um tempo médio de exposição de 11 minutos, mostraram que 2,7% do total já continham pelo menos uma trilha de satélite. Embora o número pareça pequeno, ele esconde uma aceleração drástica e recente. Ao isolar o período entre 2018 e 2021, a taxa de contaminação subiu para 4,3%, um aumento diretamente ligado ao lançamento massivo de novas constelações de satélites.
Esse crescimento exponencial é impulsionado principalmente pela significativa redução nos custos de lançamento, uma consequência de tecnologias inovadoras como os foguetes reutilizáveis. Em 2019, havia cerca de 5 mil satélites ativos em órbita. Hoje, dados da Agência Espacial Europeia indicam que esse número já ultrapassou a marca de 15 mil. As projeções futuras são ainda mais alarmantes, com estimativas que chegam a 560 mil satélites operacionais até o final da década de 2030, caso todos os projetos submetidos às agências reguladoras sejam de fato implementados.
O histórico de contaminação e a escalada do problema
Para entender a evolução do problema, os pesquisadores examinaram mais de mil imagens arquivadas do telescópio Hubble, capturadas entre 2002 e 2021. As exposições, com uma duração média de 11 minutos, revelaram que 2,7% de todas as imagens continham ao menos uma trilha de satélite. Esse índice, no entanto, mascara uma aceleração recente: ao analisar apenas o período entre 2018 e 2021, a taxa de contaminação saltou para 4,3%, um reflexo direto do aumento exponencial de lançamentos espaciais.
Esse crescimento é alimentado principalmente pela redução nos custos de lançamento, viabilizada por tecnologias como foguetes reutilizáveis. Em 2019, a órbita terrestre abrigava cerca de 5 mil satélites ativos. Atualmente, segundo dados da Agência Espacial Europeia, esse número já ultrapassa a marca de 15 mil. As projeções são ainda mais alarmantes, com estimativas que apontam para até 560 mil satélites operacionais até o final da década de 2030, caso todos os planos de lançamento submetidos a agências reguladoras sejam aprovados.
As projeções alarmantes para futuras missões
Os telescópios que operam em altitudes que variam entre 450 e 800 quilômetros, como é o caso do Hubble, estão localizados justamente na mesma faixa orbital preferida pela maioria das novas constelações de satélites de comunicação, o que os torna particularmente vulneráveis. O estudo projeta que, mantido o ritmo atual de lançamentos, cerca de 39,6% de todas as imagens futuras do Hubble serão afetadas por algum tipo de interferência. Para o SPHEREx da Nasa, cuja missão é investigar a origem do universo, o impacto previsto é devastador, podendo atingir 96% de suas exposições, com uma média de 5,64 rastros de satélite por imagem. O cenário é igualmente crítico para o ARRAKIHS da ESA, que poderá registrar até 69 satélites por exposição, e para o telescópio chinês Xuntian, que enfrentaria a situação mais extrema com até 92 satélites por imagem. Em contraste, o Telescópio Espacial James Webb, posicionado a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, está completamente imune a este problema, o que demonstra como a órbita baixa se tornou um ambiente desafiador.
Consequências diretas para a ciência cósmica
A presença de trilhas de satélites nas imagens astronômicas vai além de um mero defeito visual, representando uma perda concreta de dados científicos insubstituíveis.
Esses rastros luminosos podem saturar os sensores altamente sensíveis dos telescópios, ofuscando completamente objetos cósmicos de baixo brilho ou sendo erroneamente confundidos com eles.
Isso afeta diretamente áreas cruciais da astronomia, como a detecção de asteroides potencialmente perigosos para a Terra, que se torna uma tarefa mais complexa e menos confiável.
Da mesma forma, a busca por exoplanetas e a análise de suas atmosferas são prejudicadas, já que as sutis assinaturas de luz que os cientistas procuram podem ser facilmente mascaradas pela intensa poluição luminosa orbital.
A busca por soluções operacionais e de design
Diante deste cenário, agências espaciais e empresas privadas estão em um diálogo ativo para desenvolver e implementar estratégias de mitigação. Uma das propostas operacionais é ajustar as órbitas das futuras constelações de comunicação para altitudes inferiores a 450 quilômetros, posicionando-as abaixo da faixa de operação dos principais telescópios espaciais. No entanto, essa solução não está isenta de problemas, pois órbitas mais baixas podem levar a um aumento na emissão de óxidos de alumínio durante a reentrada dos satélites na atmosfera, com potenciais efeitos negativos para a camada de ozônio.
Outra frente de trabalho concentra-se na engenharia e no design dos próprios satélites. Estão em desenvolvimento e teste superfícies com menor refletividade e revestimentos especiais de cor escura. O objetivo dessas tecnologias é minimizar a quantidade de luz solar que é refletida em direção à Terra e, consequentemente, em direção aos observatórios em órbita, tornando os satélites menos brilhantes e menos disruptivos para as observações científicas. A colaboração internacional também é vista como uma peça-chave para o sucesso dessas medidas.
O papel da tecnologia na mitigação do problema
Além das medidas de prevenção, um esforço significativo está sendo canalizado para o desenvolvimento de tecnologias avançadas de correção de imagem. Modelos de inteligência artificial e aprendizado de máquina estão sendo treinados para identificar e remover digitalmente os rastros de satélites das imagens capturadas. Essas técnicas de pós-processamento já mostram uma eficácia considerável, sendo capazes de “limpar” até 80% das contaminações em testes com imagens do Hubble.
Cooperação internacional como chave para o futuro
A Nasa já iniciou a coordenação de esforços com a ESA e as autoridades espaciais chinesas para promover o compartilhamento de dados orbitais precisos de seus respectivos satélites. Essa troca de informações é fundamental para que os operadores de telescópios possam planejar suas observações com maior eficácia, prevendo a passagem de satélites pelo campo de visão e, se possível, evitando a contaminação das imagens. A medida é um passo importante para a gestão do tráfego espacial.
Além disso, estão sendo estabelecidos fóruns anuais focados no uso sustentável do espaço. Esses encontros reúnem astrônomos, operadores de satélites e agências reguladoras de todo o mundo. O objetivo é desenvolver, em conjunto, regulamentações e um código de boas práticas que garantam que o avanço das comunicações globais não aconteça em detrimento da pesquisa científica, preservando o céu como um patrimônio para futuras descobertas.