O Telescópio Espacial Hubble, uma das ferramentas mais poderosas da astronomia moderna, realizou um novo registro do cometa interestelar 3I/ATLAS. A imagem, capturada no final de novembro de 2025, mostra o objeto cósmico quando ele se encontrava a uma distância de aproximadamente 286 milhões de quilômetros do nosso planeta, oferecendo aos cientistas dados valiosos sobre sua composição e comportamento.
Este cometa é apenas o terceiro visitante confirmado vindo de fora do nosso Sistema Solar, o que torna cada observação um evento de grande importância para a comunidade científica. A nova captura foi realizada com o instrumento Wide Field Camera 3 (WFC3) do Hubble, revelando uma intensa atividade ao redor do núcleo do cometa, evidenciada por uma coma brilhante e expansiva, a nuvem de gás e poeira que o envolve.
A imagem também se destaca pela presença de estrelas de fundo, que aparecem como traços alongados. Esse efeito visual ocorre porque o telescópio manteve seu foco travado no 3I/ATLAS, acompanhando seu rápido movimento pelo espaço enquanto o cometa viajava a uma velocidade superior a 200 mil quilômetros por hora em relação ao Sol.
💫 Cometa interestelar 3I/ATLAS sob o olhar do Hubble
O Telescópio Espacial Hubble registrou a imagem mais detalhada já obtida do cometa 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar identificado passando peloSistema Solar. As observações revelam o cometa se deslocando a cerca de 209… pic.twitter.com/3Nd1Nhm3e6
— Ned Oliveira (@nedoliveira1) August 8, 2025
A jornada de um viajante de outro sistema estelar
A descoberta do 3I/ATLAS ocorreu em 1º de julho de 2025, por meio do sistema de levantamento astronômico ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), localizado no Chile. Quase imediatamente, a análise de sua trajetória revelou uma órbita hiperbólica acentuada, uma assinatura inequívoca de que o objeto não se originou no nosso Sistema Solar, mas sim em um sistema estelar distante e desconhecido. Desde então, sua jornada tem sido monitorada de perto. O cometa atingiu seu periélio, o ponto de maior aproximação com o Sol, em outubro de 2025, momento em que sua atividade de sublimação de gelos aumentou drasticamente devido ao aquecimento solar. A passagem por Marte também ocorreu em outubro, permitindo observações por sondas que orbitam o planeta vermelho. Após sua aproximação máxima da Terra em dezembro, o cometa continuará sua viagem para fora do nosso sistema, cruzando a órbita de Júpiter já em 2026, para nunca mais retornar.
O que a nova imagem do Hubble revela
A observação realizada em novembro de 2025 pelo Hubble oferece um contraste significativo com os registros anteriores, feitos em julho, logo após a descoberta do cometa. A atividade aumentou de forma expressiva, com a coma se tornando mais densa e brilhante.
A estrutura da coma adquiriu uma forma distinta de gota d’água, com uma pluma de material direcionada para o Sol e uma cauda de poeira se estendendo na direção oposta. Essa morfologia ajuda os astrônomos a entenderem como a radiação solar e o vento solar interagem com o núcleo do cometa.
O núcleo em si permanece oculto, envolto pela nuvem de gás e poeira que ele mesmo ejeta. A análise espectral da luz refletida pela coma revelou um brilho azulado, indicativo da presença de moléculas voláteis, como cianogênio e monóxido de carbono, que são liberadas à medida que os gelos da superfície do cometa se transformam diretamente em gás.
Esses detalhes são cruciais para determinar a composição do objeto. A comparação entre as imagens de diferentes épocas permite mapear a evolução da atividade cometária, fornecendo pistas sobre a estrutura interna e a composição química do núcleo, que é essencialmente um fragmento de outro mundo.
Composição química que desafia padrões
As análises do 3I/ATLAS revelaram uma composição química bastante incomum quando comparada aos cometas nativos do nosso Sistema Solar. Uma das características mais notáveis é a alta abundância de dióxido de carbono (CO2) em relação à água. Enquanto os cometas da Nuvem de Oort ou do Cinturão de Kuiper são predominantemente compostos de gelo de água, o 3I/ATLAS parece ser muito mais rico em gelos de CO2, que se volatilizam a temperaturas mais baixas e a distâncias maiores do Sol. Essa diferença fundamental sugere que o cometa se formou em um ambiente muito mais frio do que aquele onde os nossos cometas nasceram.
Outra descoberta intrigante foi a detecção de níquel atômico em sua coma, um elemento raramente visto em cometas do nosso sistema. A presença de metais pesados em estado gasoso pode indicar processos de formação planetária distintos no seu sistema de origem. A composição geral, com pouca água e rica em outros voláteis, aponta para uma longa e solitária jornada pelo espaço interestelar, onde a superfície do cometa foi processada por bilhões de anos de exposição à radiação cósmica, alterando sua química superficial antes de sua breve visita ao nosso bairro cósmico.
Uma campanha de observação global
O estudo do 3I/ATLAS não se limitou ao Telescópio Espacial Hubble. Uma verdadeira campanha global foi mobilizada para coletar o máximo de dados possível durante sua curta passagem.
A sonda Juice, da Agência Espacial Europeia (ESA), em sua própria jornada rumo a Júpiter, conseguiu registrar o cometa a uma distância de apenas 66 milhões de quilômetros, oferecendo uma perspectiva única.
Missões da NASA, como a MAVEN em Marte, e as sondas Psyche e Lucy, que viajam pelo cinturão de asteroides, também apontaram seus instrumentos para o visitante, capturando imagens de diferentes ângulos que ajudaram a construir uma visão tridimensional de sua coma e caudas.
Aproximação segura da Terra
A passagem mais próxima do cometa 3I/ATLAS pelo nosso planeta ocorreu em 19 de dezembro de 2025, a uma distância segura de aproximadamente 270 milhões de quilômetros, o que equivale a quase duas vezes a distância entre a Terra e o Sol. Em nenhum momento o objeto representou qualquer risco de impacto, permitindo que as observações continuassem de forma tranquila e focada exclusivamente no ganho de conhecimento científico. O monitoramento prossegue com telescópios terrestres e espaciais enquanto o cometa se afasta, até que seu brilho se torne fraco demais para ser detectado.
Características da coma e caudas
A coma do 3I/ATLAS expandiu-se de forma notável entre as observações de julho e novembro, um sinal claro da sublimação de gelos em sua superfície à medida que se aproximava do Sol. Os dados indicam que a ejeção de material não é uniforme, com diferentes velocidades para partículas de tamanhos distintos.
Grãos maiores de poeira são ejetados a velocidades mais baixas, formando uma cauda de poeira curvada que segue a órbita do cometa. Partículas menores e gases são empurrados com mais força pela radiação solar, formando uma cauda de íons mais reta e direcionada para longe do Sol, características que ajudam a decifrar a física complexa que rege esses corpos celestes.